Rumor de reação de Dilma pega pregão de surpresa

Após oito quedas consecutivas, os contratos longos fecharam em alta ontem. A decepção fez o dólar suavizar o declínio.

Por douglas.nunes

Com o resultado do Copom já no “preço” — manteve a Selic em 11% e não fez nenhuma sinalização para o futuro —, câmbio e juros operaram ontem ao sabor dos boatos e contraboatos em torno das pesquisas que horas depois seriam divulgadas pelo Ibope e pelo Datafolha. A volatilidade foi intensa, principalmente no mercado futuro de juros da BM&F. Nos últimos dias, os investidores apostaram firmemente no descolamento de Marina Silva já no primeiro turno. Rumores de que tinha havido uma reação da presidente Dilma Rousseff pegaram de surpresa o pregão e forçou uma “realização” de lucros. Após oito quedas consecutivas, os contratos longos fecharam em alta ontem. A decepção fez o dólar suavizar o declínio. Durante o dia, chegou a cair 0,46%, encostado em R$ 2,23, mas a recuperação da candidata oficial fez a moeda fechar com desvalorização menos acentuada, de 0,19%, a R$ 2,2362, apenas para referendar o viés externo de queda.

O movimento de alta dos DIs concentrou-se nos contratos mais longos, aqueles onde operam os hedge funds globais. A taxa para janeiro de 2017 avançou de 11,10% para 11,14%. Como os contratos curtos permaneceram em declínio — a taxa para a virada do ano cedeu de 10,80% para 10,78% e o contrato para janeiro de 2016 recuou de 11,27% para 11,26% — a curva dos juros tornou-se menos negativa. Mas o pregão ainda vota em Marina. Qualquer inclinação negativa representa uma aposta de êxito da futura política econômica da pessebista. “Comprados” em Marina, os estrangeiros se mantém “vendidos” em dólar e juros. Isso até a posse. Depois as fichas mudarão de lado.

O ano que vem embute um cenário de pressão sobre os dois ativos. A taxa de câmbio exibe hoje um comportamento divorciado das forças naturais exercidas pelo fluxo efetivo de entrada e saída de capitais. O dólar está amordaçado pelas intervenções vendedoras do BC, pela expectativa de mudança na política econômica pela troca de presidente e pelas dificuldades que o Federal Reserve (Fed) vem enfrentando para normalizar as condições monetárias americanas. Se o câmbio fosse entregue àquelas forças naturais, a cotação já estaria perto de R$ 2,50. Os dados divulgados ontem pelo BC sobre a balança cambial mostram um forte desequilíbrio pelo lado da oferta de moeda.

No acumulado de agosto, o fluxo cambial foi negativo em US$ 3,056 bilhões. Apesar disso, o dólar caiu no mês 1,36%. As duas contas foram deficitárias. A comercial amargou rombo de US$ 2,04 bilhões. E a financeira, de US$ 1,02 bilhão. De janeiro a agosto, a balança sofreu um déficit de US$ 700 milhões, apesar do saldo positivo de US$ 2,467 bilhões colhido na contratação de câmbio para exportação e importação. A conta financeira está negativa em US$ 3,167 bilhões. A situação seria muito pior se não estivesse entrando capital de portfólio para aplicação em títulos do Tesouro, atraído pelos juros extravagantemente elevados. São os outros componentes da conta financeira, como as remessas de lucros, que deterioram os números.

O cruel é que, se o mercado estiver certo ao prever a recuperação da credibilidade externa do país em consequência da implantação de uma política econômica conservadora por parte de Marina Silva, a assimetria entre o comportamento do dólar e o fluxo cambial poderia persistir em 2015, pelo lado inverso. Ao mesmo tempo em que cresceria a oferta de moeda ao mercado interno, o dólar teria condições mais favoráveis de empreender uma escalada do que hoje. Em primeiro lugar porque a restauração do princípio da livre flutuação cambial — um dos três pilares macroeconômicos que a candidata promete reconstruir — implicaria na supressão dos swaps cambiais hoje servindo de fortaleza contra a variação cambial.

A porção majoritária dos analistas entende que o BC deveria promover gradualmente o resgate dos US$ 93,49 bilhões (posição em estoque do dia 2) em swaps cambiais para devolver o equilíbrio natural à hoje distorcida taxa de câmbio. Deveria fazer isso porque, num raciocínio torto, os swaps enfraquecem a posição em reservas internacionais, de US$ 379,34 bilhões (posição no dia 1°). Por essa conta vesga, a que subtrai o estoque de swaps das reservas, estas estariam de fato em US$ 285,85 bilhões. Nada a ver: os swaps são contratos em reais indexados ao dólar. Não são dólar. E não acarretam prejuízo contábil ao balanço do BC. Pelo contrário, como o dólar vem caindo mais do que a variação da Selic, o BC teve um lucro superior a R$ 20 bilhões de março até agosto. Precisaria haver a conjugação de fatores nefastos de ocorrência simultânea vastamente improvável para que os detentores dos swaps exigissem a sua troca por dólares sonantes.

Teria de irromper lá fora uma gravíssima crise financeira, desencadeando monstruosa realocação dos portfólios globais. Outra hipótese: negado o hedge oficial, as empresas, ao invés de recorrer aos mecanismos privados de proteção, teriam todas ao mesmo tempo de acionar o mercado à vista. Impossível. A terceira: o BC teria de aceitar o corner e vender reservas. Mas ele pode muito bem cruzar os braços e não fazer nada. Diante do pânico e da corrida especulativa, poderia negar-se a se desfazer do seu colchão de liquidez. Afinal, o câmbio é flutuante ou não? Sem o BC na praça, rapidamente o dólar atingiria o patamar necessário para o equilíbrio do balanço de pagamentos. Nesse momento, atrairia moeda de exportadores e investidores estrangeiros e o dólar alcançaria um novo degrau. E os efeitos inflacionários? O impacto de uma desvalorização cambial sobre o IPCA ocorre em até 12 meses e se dá pela média das cotações. Pegaria não só o movimento de alta, mas também o de queda posterior.

Mas nem o mais purista dos bancos centrais neoliberais iria, num momento desses, esgotar seus estoques de swaps, instrumentos muito poderosos em brecar os especuladores mais excitados. Nem por isso o BC de Marina Silva sofreria menos. A despeito do resgate dos “fundamentos”, lá pelo meio de 2015 o Fed terá de superar seus medos e elevar a taxa básica. Há o imponderável risco de alguma coisa não sair conforme o planejado. Os dilemas do Fed são muito bem expostos pelo economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves: 1) apesar da estabilização do crescimento econômico, o complexo mercado de trabalho, ainda fraco, traz riscos às mudanças monetárias vislumbradas; 2) deixar a bolha estourar ou furá-la com alta de juros? “A incerteza se avoluma e se reflete nos preços dos ativos de toda espécie”, diz o economista. Na sua visão, o Fed dará um passo intermediário para testar o mercado: a interrupção da rolagem dos vencimentos dos títulos do QE (afrouxamento quantitativo) inscritos no seu balanço.

Como o BC de Marina combateria essa tempestade cambial em formação? Com uma elevação da Selic, providência que de mãos dadas com o superávit primário provocaria severa recessão. O argumento de que a solidez dos novos fundamentos suavizaria a fuga de capital não vale para os momentos de pânico genuíno e feroz especulação.

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