Há uma diferença abissal entre a posse antecipada de uma informação que irá depois se revelar verdadeira e o boato que o seu difusor sabe ser falso ou parcial e inofensivamente verdadeiro. A primeira não se espalha por aí. O insider opera na surdina, sujeito às penalidades da lei, sem que ninguém suspeite do que vai acontecer. O segundo, para dar certo, precisa de ampla divulgação. Mais que isso: para que dê certo, será preciso que os tolos acreditem nele. Na sexta-feira, vendeu-se como informação privilegiada o rumor de que seria publicada no fim de semana reportagem capaz de implodir com estrépito os alicerces da candidatura Dilma Rousseff. No sábado, ao invés da “bala de prata” antecipadamente comemorada nas mesas de operações do mercado, leu-se uma arenga pueril. Ninguém alardeou na sexta-feira a informação real: a vantagem de 13 pontos de Dilma sobre Marina Silva no primeiro turno, segundo o Datafolha. Bovespa, dólar e juros futuros operaram somente em função do estampido de festim. Ganhou muito dinheiro quem operou em cima da informação real.
O dólar amanheceu corretamente na direção certa. A “abertura” de Dilma — jargão dos operadores de DI que significa a alta do juro futuro — e a cena externa favoreciam a continuidade do movimento de alta da véspera. E a moeda chegou a ser cotada por até R$ 2,4442, um salto de 0,59% em cima de um preço que já havia escalado 1,95% na quinta-feira. Então alguém achou que já era hora de “realizar” os lucros (vistosos 9,2% apenas no acumulado do mês, equivalente a três anos e meio de aplicação num título americano de 10 anos) antes que o Banco Central decida finalmente sacudir o seu torpor e leve a bola do jogo para casa. Serviu, para tanto, o rumor do surgimento iminente de “provas estarrecedoras” contra Dilma. E o dólar foi caindo até fechar em R$ 2,4160, em desvalorização de 0,57%. Gastou-se muito caixa — o giro de negócios no mercado de câmbio foi de US$ 2 bilhões, para uma média no mês de US$ 1,6 bilhão — para operacionalizar o boato.
O mercado futuro de juros da BM&F, por ser o maior pregão do país em volume de negócios, onde só trabalham profissionais tarimbados em identificar pistas falsas, não comprou inteiramente a ladainha. As taxas dos contratos não assumiram uma direção única. Enquanto a taxa para a virada do ano permaneceu estável em 10,88%, o contrato para janeiro de 2016 cedeu ligeiramente de 11,73% para 11,68%. A queda na ponta longa favorita dos hedge funds internacionais, para janeiro de 2021, foi modesta, de 11,84% para 11,77%.
O expediente do boato tende a se repetir nesses cinco pregões até a votação de domingo. Apesar das aparências, os mercados, exceto nas grandes crises internacionais, quando não há nem insides nem rumores, mas puro pânico, não irão operar com os nervos à flor da pele. Os estrategistas das instituições são muito frios. Sabem que só há duas possibilidades: 1) Continuidade do crescimento de Dilma a ponto de conduzi-la à vitória já no primeiro turno; 2) A realização do segundo turno no dia 26 com a campanha de Marina Silva tendo a hollywoodiana tarefa de reverter a grave erosão causada pelo discurso errático da candidata e o seu programa intragavelmente conservador para a baixa classe média recém-emergida. A escolha se resume entre a manutenção em suas grandes linhas da política econômica atual ou a aplicação de um plano liberal-conservador cujas graduações são desconhecidas e muitas vezes temidas pelos próprios economistas liberais. Ou seja, primariamente os vieses são de alta do dólar e do juro e queda da Bolsa.
Os executivos apenas guiarão os ativos financeiros em função da direção apontada pelos indicadores e eventos desta semana se a petista tiver chances reais de ganhar a eleição. Se houver segundo turno e se persistir o empate técnico com Marina Silva, nem mesmo o Relatório Trimestral de Inflação (RTI), que o Banco Central irá divulgar hoje, será tomado ao pé da letra. A razão é que, com Dilma, os sinais são de que nada mudará substanciosamente na política econômica. É sincera a atribuição do baixo crescimento à crise internacional. Os economistas esperam que o RTI traga uma avaliação mais positiva sobre a possibilidade de recuperação da economia no terceiro e no quarto trimestre do ano. As projeções de inflação feitas a partir dos cenários de referência e de mercado estarão irremediavelmente comprometidas pelo novo patamar da taxa de câmbio. Em ambos os casos, o RTI informará estimativas com um dólar defasado.
Ao contrário daqui, lá fora não há boatos. Apenas incertezas sobre os atalhos que a política monetária americana poderá tomar no caminho da normalização. A sexta-feira foi dia de festejos. Dificilmente os mercados celebram um dado já amplamente esperado. Mas quando o governo americano informou um crescimento de 4,6% do PIB no segundo trimestre, exatamente o que previam os economistas, os pregões não resistiram e exultaram. Em alta, as bolsas de Wall Street inflaram um pouco mais a já gorda bolha. E a taxa do título de 10 anos do Tesouro americano avançou de 2,51% para 2,54%. Mesmo não sendo surpresa, o dado consolida uma inacreditável recuperação dos EUA depois do inverno historicamente rigoroso. De uma retração de 2,1% no primeiro trimestre, o PIB avançou para 4% na primeira estimativa referente ao segundo trimestre, depois para 4,2% na segunda estimativa e agora para 4,6% na definitiva.
Falta agora a materialização dessa alta, primeiro no mercado de trabalho, depois na inflação. O terceiro movimento será a elevação pelo Federal Reserve (Fed) da taxa básica de juros, congelada desde o fim de 2008 na banda entre zero e 0,25%. E, nesta semana, os investidores conhecerão os dois indicadores cruciais relativos ao emprego e ao ritmo de preços. Será divulgado hoje de manhã o índice de inflação ao qual o Fed confere atenção especial. Trata-se do deflator do PCE relativo a agosto. Na sexta-feira, ao divulgar o PIB, o governo também informou o PCE implícito no cálculo do produto trimestral. Não é a variação relativa somente a agosto, que será conhecida hoje, mas a alta anual finalizada no segundo trimestre. Pois bem, o PCE acelerou de 1,4% no primeiro para 2,3% no segundo trimestre. O “core” avançou de 1,2% para 2%. Ou seja, a meta de inflação do Fed já foi atingida. Falta a do emprego.
Na próxima sexta-feira será divulgado o relatório oficial de emprego, o “payroll”, referente a setembro. Ressalte-se que o PCE e o “payroll” não são apenas indicadores dos mais relevantes. Formam, na verdade, o cerne do mandato duplo do Fed: a perseguição da inflação de 2% e do pleno emprego. Se os dois dados confirmarem os novos ventos de prosperidade soprados pelo PIB, o mercado secundário de bônus pode perder as cautelas na precificação antecipada da mudança monetária vista como inevitável em algum momento do primeiro semestre do ano que vem. Será mais um incentivo à arrancada do dólar. E o BC vai ter de se decidir se permite uma taxa de câmbio já na faixa de R$ 2,50 ainda este ano ou se atacará as expectativas com todas as suas armas.