Somente nos dois últimos pregões a moeda acumulou avanço de 3,85%. Na vigência da lei da oferta e da procura, o dólar deveria estar em pesada queda já que está entrando muito capital de fora. Fonte da área econômica informou à Reuters que o fluxo cambial fechou outubro com um superávit de US$ 6,5 bilhões, o maior saldo desde os US$ 10,76 bilhões de maio do ano passado.
A conta financeira, por onde entram os dólares para investimento direto e aplicações financeiros, contabilizou superávit de US$ 4,8 bilhões. A informação é corroborada pelo aumento das posições “compradas” carregadas por estrangeiros no mercado de dólar futuro da BM&F. Como forma de proteger suas novas aplicações, eles ampliaram suas posições de US$ 16,28 bilhões no dia 24 para US$ 20,03 bilhões na sexta-feira.
O detalhe é que a maior parte disso entrou uma semana antes e uma semana depois da eleição em segundo turno. Se alguém dissesse que o investidor estrangeiro está “endossando” a vitória da petista pecaria por exagero. Mas o fato é que ele não revela nenhum desassossego. Entra atrás da melhor rentabilidade real do mundo e não teme o futuro. Afinal, em 12 anos de gestão, o PT não fez nenhuma loucura “bolivariana”, para usar uma das palavras mais lembradas desde o dia 26.
A lição histórica mostra que, depois da frouxidão fiscal destinada a reeleger a presidente, em 2015 as contas públicas começarão a ser reequilibradas. O investidor de fora também não parece estar hoje assustado com o fantasma do rebaixamento de rating, a historinha de terror mais contada atualmente para assombrar as noites presidenciais.
Dos mercados financeiros, o câmbio é o único que tem potencial para desencadear uma grave crise econômica. O poder letal do pregão de juros futuros da BM&F é menor. Embora seja a curva dos DIs, e não a Selic, a efetiva responsável pela formação do custo primário do dinheiro, se o crédito ficar subitamente mais caro por causa de uma distorção manipulativa as empresas têm a opção de retardar a tomada do empréstimo ou negociar com o seu banco uma ponte para a travessia do caixa até a normalização da curva.
Com o câmbio é diferente. Não é por outra razão que os grandes ataques especulativos foram desfechados contra moedas. Tais ataques, se não forem severamente combatidos, podem desestabilizar uma economia. Pois bem, o câmbio está sendo utilizado como principal instrumento de pressão à Dilma Rousseff para que anuncie logo um ministro da Fazenda do seu segundo mandato visto como favorável aos interesses dos investidores.
O mercado não gosta de indefinição. Teme mudanças de humor no meio do caminho. Em princípio, até prova em contrário, considera sincera a disposição da presidente de promover ajustes mais ortodoxos na política econômica. Prova eloquente da vontade de mudar decorre do raciocínio de que, se o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, não aceitou o convite para o cargo é porque foi convidado.
Mas os executivos preferem ver pelo lado negativo: não aceitou porque não teria carta branca, não teria autonomia para implantar as mudanças que julgasse necessárias. Sob o regime presidencialista, o grau de independência dos ministros é sempre relativo. Sobraram, da lista tríplice de Lula, Henrique Meirelles e Nelson Barbosa.
Qualquer um dos dois não recusaria. O mercado prefere Meirelles, mas Barbosa não provocaria rebeliões. Agradam aos executivos as propostas recentes do ex-secretário-executivo da Fazenda: elevação da TJLP, diminuição dos empréstimos do Tesouro aos bancos públicos, aumento das alíquotas da CIDE e do IPI, revisões do abono salarial, do regime de pensões e do seguro desemprego e redução das intervenções cambiais.
O que deixa o mercado intranquilo são as evidências de que, a julgar pelas mais recentes notícias, o governo quer mudar para continuar o mesmo. A essência desenvolvimentista permaneceria intocada. Como conciliar um ministro mais favorável a uma política econômica liberal-ortodoxa com o exercício dessa vocação inata? Um ministro só não fará governo se forem confirmadas estas informações: o Tesouro prepara novo empréstimo de R$ 20 bilhões ao BNDES; o governo gesta novo pacote de subsídios a setores privados; e o inimigo n° 1 dos mercados, o secretário do Tesouro Arno Augustin, pode “cair para cima”, sendo promovido a assessor especial da Presidência da República, com acesso privilegiado a Dilma.
Sem conhecer antes as novidades da ata da última reunião do Copom, a que, realizada na quarta-feira passada, elevou inesperadamente a Selic para 11,25%, as cem instituições que alimentam de dados o boletim Focus do BC não quiseram alterar substancialmente a sua projeção para a taxa básica no final do ano que vem. A estimativa subiu de 11,50% para 12%. Em princípio, significa que os economistas acreditam num curto ciclo de aperto de quatro altas consecutivas de 0,25 ponto.
O ciclo não seria intenso porque, até lá, as finanças públicas já estariam sob um regime de maior austeridade. Mas os juros subiram generalizadamente no mercado futuro da BM&F. A taxa para janeiro de 2017 avançou de 12,30% para 12,41%, enquanto que o contrato para janeiro de 2021 subiu de 11,97% para 12,14%. Como a curva está invertida, há aí um crédito em favor da presidente reeleita.
O câmbio e os juros futuros também sentiram ontem o peso de um mercado externo mais ressabiado. As instituições já amanheceram com um dado ruim sobre a China. O índice PMI da indústria de transformação, calculado pelo escritório de estatísticas do governo chinês, atingiu 50,8 pontos em outubro, abaixo tanto das expectativas (51,2) quanto do índice de 51,1 de setembro.
E, durante a manhã, outro informe ruim, só que agora da Europa. O PMI industrial da zona do euro subiu levemente de 50,3 para 50,6, quando o mercado previa alta maior, para 50,7. Já o mercado americano faz preparativos para a divulgação de um relatório de emprego na sexta-feira bem alvissareiro. A taxa da T-Note de 10 anos subiu de 2,34% para 2,37%.