Já há respeitáveis casas americanas apostando que o Fed só conseguirá subir a taxa básica em 2016. Se essa expectativa se consolidar, os emergentes voltarão a atrair capitais
Por diana.dantas
Mais do que permanecer imune à letargia global, a pujante economia americana será a responsável por tirar a Europa, a Ásia e os emergentes do atoleiro. Este raciocínio torto disseminado por instituições e agências de rating não infunde otimismo aos investidores. Os EUA não são uma ilha de prosperidade num mar de tubarões famintos. O PIB americano está em declínio. Depois da alta de 4,6% no segundo trimestre, o ritmo de crescimento reduziu-se para 3,9% no terceiro e cairá mais agora no quarto, já sob a influência da prévia de mais um inverno rigoroso. Os EUA descem a ladeira, mas ainda são a economia que mais cresce. Por isso, atraem levas de investidores desconfiados da rota cambaleante do restante do mundo. Esse movimento deu a tônica ontem nos mercados globais.
Dados divulgados ontem na China, no Japão e na Europa alimentaram o medo de que os países emergentes possam enfrentar dificuldades em 2015, aumentando o risco de investimentos em seus ativos. Puxadas para baixo pelo petróleo, as commodities metálicas, lideradas pelo minério de ferro, sofreram quedas. A economia do maior comprador, a China, não vai bem. As informações são de que esta semana dirigentes chineses irão formalizar a revisão para baixo na estimativa de crescimento do PIB, de 7,5% para 7%. Foram desalentadores os números revelados ontem sobre o comportamento da balança comercial do país no mês passado. As importações caíram 6,7%, quando se esperava uma expansão de 3,8%, e as exportações cresceram 4,7%, ante projeção de alta de 8%. Ainda na Ásia, o Japão reportou uma contração do PIB de 0,5% no terceiro trimestre. Em termos anuais, a queda foi revista de 1,6% para 1,9%. E, na Europa, o indicador do dia foi a alta na produção industrial da Alemanha aquém do previsto. Foi de 0,2% em outubro, ante expectativa de 0,3%. Resumo da ópera: as quatro maiores economias do globo ou estão em declínio ou enfrentam recessão e estagnação.
Diante disso, os detentores de capital vendem ativos em mercados emergentes e buscam refúgio no dólar e nos títulos do Tesouro americano. Já superlíquidos, os EUA recebem ainda mais dinheiro. Isso reduz as taxas dos bônus do Tesouro. O papel de 10 anos recuou ontem de 2,31% para 2,29%. A liquidez abundante não gera inflação por causa do fortalecimento do dólar. Já há respeitáveis casas americanas apostando que o Federal Reserve (Fed) só conseguirá subir a taxa básica em 2016. Se essa expectativa se consolidar, os emergentes voltarão a atrair capitais globais de portfólio.
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A liquidez muito estreita no mercado de câmbio — o giro à vista não passou de US$ 750 milhões — potencializou o movimento de alta do dólar. A moeda fechou com valorização de 0,70%, a R$ 2,6115, maior cotação desde abril de 2005. Não exerceu nenhum contrapeso à alta leilão feito pelo Banco Central de linha externa com compromisso de recompra no valor de US$ 1 bilhão. O mercado futuro de juros da BM&F acompanhou o dólar. A alta dos contratos foi generalizada. A taxa para janeiro de 2017 avançou de 12,30% para 12,41% e o contrato para janeiro de 2021 passou de 11,93% para 12,04%. Mas a curva futura de juros persiste invertida a partir do vértice de janeiro de 2016.
Os economistas de instituições do mercado financeiro pesquisados pelo BC para confecção do boletim semanal Focus já deram a sua interpretação para a advertência contida na última nota do Copom segundo a qual a política monetária será conduzida com “parcimônia”. Para esses analistas, que na edição do Focus publicada ontem elevaram a projeção de taxa Selic para o fim de 2015 de 12% para 12,5%, uma atuação parcimoniosa da autoridade significa que o juro básico não irá além de 12,5%. Confrontada com as pressões inflacionárias vislumbradas para o ano que vem, a sovinice monetária não poderá ser radical. Não poderá fazer apenas um movimento simbólico de alta de 0,25 ponto na reunião do Copom de janeiro e, com ele, dar por encerrado o atual miniciclo de arrocho. No entender dos analistas, pode até querer, mas não vai conseguir.
O mercado vê como inevitáveis mais três elevações de 0,25 ponto. Os analistas param por aí não por vontade própria. Pelo Focus, essa Selic de 12,5% só será suficiente para evitar que o IPCA estoure no ano que vem o teto de 6,5% da banda inflacionária, pois mesmo subindo o prognóstico de Selic de 12% para 12,5% o mercado corrigiu levemente para cima sua expectativa de IPCA para 2015, de 6,49% para 6,50%. Como a política monetária não será exacerbada, o que fará a diferença em trazer para baixo a projeção inflacionária do mercado será o esforço fiscal. E este ainda não foi conhecido com um detalhamento capaz de mudar a opinião dos especialistas.
O tom geral do Focus é de pessimismo: além da inflação no teto, o mercado vê o dólar avançando de R$ 2,55 este ano para R$ 2,70 em dezembro de 2015 e o PIB evoluindo apenas 0,73% (estava em 0,77% na semana passada), abaixo da “realista” estimativa de 0,80% incorporada pelo governo à sua LDO. Mas o grupo das Top 5, a elite das instituições que mais acertam projeções, mesmo sem conhecer em minúcias os planos dos novos ministros Joaquim Levy e Nelson Barbosa, faz previsões que representam um voto de confiança na competência da dupla. Para ele, o Copom irá encerrar o ciclo monetário em janeiro com uma alta derradeira de 0,25 ponto. Mesmo com a Selic em 12%, o IPCA fechará 2015 com variação acumulada de 6,20% (era de 6,74% há quatro semanas).