Por diana.dantas
O discurso de posse de Joaquim Levy no cargo de ministro da Fazenda conseguiu atenuar a escalada do dólar ontem. A moeda subiu continuamente até um pouco antes do pronunciamento, chegando a bater em R$ 2,7315, alta de 1,45% comparativamente ao esvaziado primeiro pregão do ano, o de sexta-feira. O mercado gostou da linha de conciliação adotada pelo ministro. Aos agentes econômicos assegurou que o cumprimento das metas fiscais fornecerá o fundamento para um novo ciclo de crescimento. E às inquietas hostes petistas garantiu que o equilíbrio das contas públicas será feito sem ofender os direitos sociais ou deprimir a economia. E o dólar pôde fechar com uma valorização menos acentuada, de 0,60%, vendido a R$ 2,7087.
A maior parte da pressão de alta sobre a moeda americana veio de fora, mas a decisão do Banco Central de cortar pela metade a sua ração diária de instrumentos de proteção cambial contribuiu para o nervosismo. No último dia útil de 2014, o BC anunciou as regras para a quarta etapa do seu programa de intervenção cambial. Até 31 de março, ele promete vender diariamente US$ 100 milhões em swaps cambiais, metade da oferta que prevaleceu ao longo do ano passado. Ou seja, a autoridade reduziu a colocação semanal de US$ 1 bilhão para US$ 500 milhões. O programa teve início em agosto de 2013 e, até dezembro do mesmo ano, a oferta foi de US$ 2 bilhões. Os sucessivos cortes revelam que o BC está ficando sem munição? Na verdade, mudaram as características da demanda. No final de 2013, o mercado procurava hedge para o seu endividamento externo e a cobertura de posições de investimento. Atualmente, após a venda de US$ 109 bilhões em swaps, a demanda é por dólares físicos e procede de investidores globais assustados com a nova face da crise externa.

O ano começou com a tendência de agravamento da crise econômica global. O efeito sobre o mercado é a transferência de recursos investidos em mercados emergentes para os EUA. A aversão ao risco derrubou as taxas dos títulos do Tesouro americano. O rendimento das T-Notes de 10 anos caiu ontem de 2,12% para 2,06%. Na Europa, à estagnação induzida pelas políticas de austeridade destinadas a reduzir as dívidas soberanas dos países do euro junta-se agora a ameaça de crises políticas. Há um forte crescimento dos partidos de esquerda contrários aos sacrifícios impostos pela ortodoxia. Na Grécia, o Syriza pode ascender ao poder já no dia 25. E, na Espanha, o avanço do Podemos assusta os conservadores. Até mesmo na terra-mãe da austeridade, a Alemanha, surpreende o vigor do Die Linke. Na França e no Reino Unido, a surpresa provém do outro lado do espectro ideológico, pois crescem as adesões às coalizões de extrema direita Frente Nacional e UKIP, respectivamente.

O caso mais premente é o da Grécia. A troica formada pelo Banco Central Europeu (BCE), FMI e Comissão Europeia aportou desde 2012 US$ 450 bilhões para salvar o país mediterrâneo. Se o Syriza ganhar as eleições não só os financiadores podem perder as esperanças de reaver o investimento como a Grécia poderá encaminhar-se para fora da eurolândia. A Alemanha já parece conformada. A insuspeita revista Der Spiegel noticiou que a primeira-ministra Angela Merkel e o seu ministro as Finanças, Wolfgang Schauble, já articulam a saída da Grécia da comunidade, num esquema que está sendo chamado pelos analistas de “Grexit”. A ideia é não apenas permitir a saída grega como até incentivá-la, para evitar que, de novo, uma crise lá acabe contaminando países que estão conseguindo a duras penas superar traumas, como Espanha, Portugal e Irlanda. A Alemanha quer evitar, como ocorreu em 2012, nova ameaça de ruptura generalizada do euro. Será melhor que a Grécia saia sozinha. Inevitavelmente, os mercados percebem a situação como de fragilidade da moeda europeia. Abaixo de US$1,20, o euro desceu ontem ao menor patamar dos últimos nove anos.

Não bastasse a crise europeia, a cujo combate as atuações do BCE parecem morosas e ineficazes — há uma certa esperança de que em sua reunião de política monetária do dia 22 a autoridade possa passar da retórica tranquilizadora para uma ação mais efetiva —, a guerra do petróleo entre EUA e Opep ganhou um feroz e inesperado round na virada do ano. O Departamento do Comércio americano autorizou a exportação de petróleo no dia 30. Vendas externas da commodity extraída em solo americano estavam proibidas há 41 anos. Os EUA pretendem exportar um milhão de barris por dia de óleo leve procedente do xisto. Trata-se do contra-ataque dos EUA à decisão da Opep de não reduzir a produção com o objetivo de derrubar o preço e matar a indústria do xisto. Os EUA devolvem na mesma moeda. Resultado: o barril chegou ontem a descer abaixo dos US$ 50 em Nova York, fechando a US$ 50,5, queda apenas no dia de 4,3%. Em seu desmoronamento, o petróleo arrasta consigo as commodities metálicas exportadas pelos emergentes. Como a perspectiva é de piora do balanço de pagamentos desses países, o capital global apressa a sua fuga.

A situação externa coloca o governo Dilma em corner. Desde 2012, justificava a degradação das contas públicas e do desequilíbrio externo como a contrapartida inevitável das políticas anticíclicas necessárias para impedir que a crise externa viesse a provocar recessão e desemprego. E justamente agora em 2015, quando pretende por meio de políticas fiscais e monetárias austeras colocar as contas em equilíbrio, o mundo não favorece. Sem os amortecedores internos, os efeitos das crises externas podem ampliar a desaceleração econômica. E a queda da atividade pode nem atenuar os esforços inflacionários dado o forte viés global de fortalecimento do dólar, exacerbado internamente pela fuga de investidores estrangeiros, e a premência em corrigir tarifas públicas defasadas. A projeção de crescimento do PIB brasileiro este ano, que no boletim Focus divulgado ontem cedeu de 0,55% para 0,50%, já parece otimista demais frente aos desafios vindos de fora.

O disciplinamento fiscal prometido por Levy conseguiu neutralizar o impulso de alta exercido pelo dólar sobre os contratos de juros futuros negociados na BM&F. E as taxas conseguiram fechar em baixa. Para a virada de 2015 para 2016, o DI recuou de 12,90% para 12,83%. O contrato para a virada seguinte refluiu de 12,87% para 12,77%. E o contrato preferido dos estrangeiros, com vencimento em janeiro de 2021, cedeu de 12,23% para 12,17%.
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