Como a taxa básica americana pode nem subir este ano, os fundos especializados em carry trade (tomada de financiamento em países que praticam juros muito baixos, às vezes negativos, para posterior aplicação em emergentes perdulários) não terão nenhuma pressa em promover a temida realocação de portfólios necessária para enfrentar a normalização das condições monetárias dos EUA. A dependência brasileira deste tipo de capital traz, porém, duas ordens de preocupação. A primeira é que o dinheiro especulativo não é nem um pouco confiável. Sua natureza é arisca e imprevisível. Ao menor sinal de perigo, realiza os lucros e alça voo. Uma crise geopolítica mais séria ou indicadores americanos mais robustos podem desencadear movimentos de fuga. A segunda é que pode promover uma apreciação cambial fictícia. O real se fortalece não por méritos macroeconômicos ou demonstrações de pujança da atividade, mas como mero efeito do ingresso.
O BCE e o Fed fornecem o caixa para o carry trade, mas este só se viabiliza na presença de duas outras condições: juros muito elevados e uma política econômica austera de expressiva geração de superávits primários destinada justamente a impedir que a política monetária pródiga imploda a capacidade do devedor de honrar seus compromissos. O Brasil de hoje desfruta de ambos os atrativos. Mas há um limite que não pode ser transposto. Se os dois atributos agirem para agravar um viés recessivo originado em outras fontes (baixa confiabilidade nas ações do governo, crises de oferta, escândalos de corrupção capazes de minar investimentos em infraestrutura), a situação do país hospedeiro do “smart money” especulativo bloqueará o fluxo. É o que acontece hoje na Rússia. É o que pode acontecer com o Brasil se todo o mercado começar a trabalhar com a projeção de uma queda do PIB este ano na faixa de 0,5%.
O remédio usual — mais alta de juros e mais impostos para equilibrar o caixa do governo — só deteriorará ainda mais o quadro, soterrando a atividade e, consequentemente, a arrecadação federal. O país não cresceu nada no ano passado, apesar das desonerações tributárias de R$ 104 bilhões e da injeção de R$ 60 bilhões feita pelo Tesouro no BNDES. Tanto as primeiras quanto a segunda diminuirão sensivelmente este ano, com impacto negativo sobre a demanda. Os fundos globais poderão ter dinheiro de sobra para especular, mas o risco já será excessivo, mesmo para tacadas de curtíssimo prazo.
O fato é que, transcorridos 19 dias úteis, o novo governo ainda não conseguiu gerar nenhum fato positivo. Aos péssimos indicadores divulgados agora sobre o desempenho da economia em 2014, juntam-se prognósticos sombrios sobre o futuro: racionamento de energia elétrica, queda da atividade, inflação acima da meta e dúvidas sobre a viabilidade da Fazenda conseguir entregar um superávit primário equivalente a 1,2% do PIB. Não se constrói uma agenda positiva na base do discurso. Poucas horas depois do pronunciamento presidencial na abertura da primeira reunião ministerial do segundo mandato, por meio do qual a chefe do executivo tentou revigorar os ânimos, o balanço da Petrobrás trouxe o mercado de volta à dura realidade.
A pegajosa irritação do pregão da Bovespa contagiou o de câmbio. O dólar permaneceu em alta durante a maior parte do pregão. Fechou com valorização de 0,25%, vendido a R$ 2,5769. Os investidores externos sentem uma ampliação do risco dos ativos brasileiros. Ontem, apesar da queda da taxa da T-Note de 10 anos, de 1,83% para 1,76%, o contrato de juros futuros favorito desses aplicadores de fora, com vencimento em janeiro de 2021, subiu de 11,67% para 11,74% na BM&F. Tomou um caminho oposto ao dos contratos mais curtos. Na véspera da divulgação da ata da última reunião do Copom, a taxa para a virada do ano recuou de 12,68% para 12,67%. O BC certamente fará tudo “o que for necessário” para finalmente tornar exequível a meta de inflação de 4,5% no ano que vem, mas isso não significa exagerar na dose de alta da Selic. A economia simplesmente não aguenta.