Na crise, não se 'realiza'

Se alguém ainda precisava de uma prova de que a escalada recente do dólar não derivava de “pânico” causado por crise “institucional”, basta analisar o comportamento dos investidores ontem

Por bruno.dutra

Justamente num dia de alta da moeda americana do exterior, o mercado resolveu “realizar”. Após seis altas seguidas, a moeda fechou em queda de 0,82%, a R$ 3,1040. Quem comprou moeda no final do pregão de sexta-feira, 27, pagou R$ 2,8560. A escalada teve início na segunda-feira seguinte, 2, e atingiu o ápice na manhã de ontem, R$ 3,1735, uma valorização de 11,17%. Essa constatação – um ganho acima de 10% em seis pregões e meio — acendeu uma luz nas mesas de operações: estava na hora de “realizar”. É preciso que se compreenda que onde há “realização” não há crise, ou pelo menos não aquela que estava sendo alardeada.

O que significa “realizar lucros”? Significa vender um ativo que auferiu, em determinado período, geralmente curto, valorização exuberante, transformando a alta até então meramente estatística em dinheiro vivo, antes que a instalação de um movimento contrário anule o ganho já conquistado. O investidor só realiza quando não tem certeza absoluta da continuidade da alta. Como não tem esta certeza, corre para trocar seus dólares fortes e imunes a turbulências por reais frágeis, infectados por inflação que já se vê descontrolada e por fraturas nas instituições da República. Para justificar a escalada, amplifica-se a dimensão de uma tragédia insuperável. Mas, inexplicavelmente, mesmo sem sinais de superação do drama anteriormente realçado, vende-se dólar forte e compra-se real fraco.

A “realização” ocorrida ontem no mercado de câmbio coloca a crise no seu devido lugar. Não é uma crise “institucional”, não há paralisia e aturdimento generalizado nos três Poderes da República. Há o velho jogo de empurra e puxa da política, anabolizado agora por imperícias do Executivo e rebelião do Legislativo por causa da inclusão dos presidentes das duas casas nos inquéritos de investigação das denúncias levantadas na Operação Lava-Jato. A crise pode agravar-se se Eduardo Cunha e Renan Calheiros não forem blindados, prejudicando o ajuste fiscal do ministro da Fazenda Joaquim Levy. Ou não. Pode esfumaçar-se rapidamente dependendo das negociações de bastidores.

Se a crise fosse “institucional”, abalando pesadamente a economia real — recessão aberta, desemprego capaz de gerar comoção social e descontrole inflacionário —, o dólar não ia “realizar”. Iria subir sem parar e não no ritmo de 1% a 2% ao dia. Iria saltar 10% a 20% por dia, superaria facilmente os R$ 4,00, e o BC teria de vender reservas cambiais. Nessas conjunturas de crises para valer, o BC não tem escolha. As reservas de US$ 372 bilhões não são suas, não são do País, pertencem a quem, no passado, vendeu dólares ao BC. Pertencem a investidores internacionais, a empresas e bancos. Se quiserem de volta, o BC vai ter de entregar. A “realização” de ontem mostra que não querem seus dólares de volta. Estão interessados, prosaicamente, em lucrar em reais. Não há crise para valer quando o mercado faz uma “correção técnica”, eufemismo edulcorado da atividade de colher os frutos da especulação.

O gatilho que disparou a realização foi o número mágico de 10% alcançado na manhã de ontem. Mas, para não dar bandeira, os operadores inventaram que os investidores ficaram mais tranquilos depois que Levy se reuniu com Calheiros e acenou com mudanças no reajuste da tabela do Imposto de Renda. Não haveria mais a antiga intransigência na imposição de um teto de apenas 4,5%. O que poucos repararam é que este mesmo argumento utilizado para “realizar” também poderia amparar movimento oposto, de arrancada do dólar, já que a nova disposição negociadora do Executivo pode minguar o tamanho do ajuste fiscal — tal opção pelo diálogo, se fragilizar o ordenamento fiscal, pode precipitar o “downgrade” brasileiro. Como se vê, o mote serve para os dois lados.

Os “realizadores”, satisfeitos com os lucros, já preparam o retorno do rali de alta, ao assegurar que, no fundo, não houve nenhuma mudança positiva no quadro da crise. Já preparam o terreno para novos esticões, de hoje até sexta-feira, baseados na “expectativa” vastamente catastrófica em torno das manifestações marcadas para domingo. Acontecerão “compras preventivas de dólar” para se proteger contra o mergulho do país no oceano das “revoltas populares”.

O que não dá para entender é a omissão do BC diante dessas arapucas cambiais. O BC, possivelmente sob ordens desenvolvimentistas do Planalto, pode ter pego uma carona na especulação para velozmente trazer o dólar para o seu patamar ideal — os R$ 3,20 que, segundo algumas consultorias, é o patamar que restaura a competitividade da indústria e equilibra o balanço de pagamentos. Não é assim que se faz, não a reboque do mercado. Uma política de perseguição de uma taxa de câmbio depreciada em termos reais e efetivos sempre é de longo prazo.

De nada adianta o dólar alcançar R$ 3,15 este mês e, no seguinte, em sintonia com os humores mutantes do mercado, descer a R$ 2,85. E precisa estar em fina sintonia com políticas fiscal e monetária compensadoras. A primeira terá de combater a inflação gerada pelo câmbio por meio do corte do gasto corrente. E a segunda, para suavizar a recessão, buscará um juro básico ajustado à atividade econômica deprimida.

Sem uma coisa e sem outra, o dólar a R$ 3,20 só traz prejuízo. Além de fomentar raciocínios tortuosos. Executivos acreditam que, se o BC liberou o câmbio, precisa continuar subindo a Selic com desenvoltura para evitar o repasse do dólar aos preços. É o contrário: se o BC exagera na alta do juro, acaba atraindo investimentos estrangeiros cujo impacto será o de enfraquecer sua decisão de depreciar o real. Para manter a moeda nacional depreciada ao longo do tempo, o juro básico precisa ser baixo, não o contrário. O mercado está aproveitando a crise política para fazer lobby em cima de lobby.

A realização cambial estendeu-se ao pregão de juros futuros da BM&F. As taxas caíram em bloco. Para a virada do ano, o DI cedeu de 13,83% para 13,73%. E o contrato mais líquido, para janeiro de 2017, recuou de 13,85% parra 13,65%. Contribuiu para a queda dos DIs o recuo do rendimento do título de 10 anos do Tesouro americano. O dólar se fortaleceu globalmente menos pela perspectiva de elevação da taxa básica americana e mais em função do aumento na procura por “treasuries”. Para investir nos títulos americanos, os investidores precisam, antes, comprar dólar. Ao fazer isso, ajudam a derrubar a inflação americana e retardam a alta da “fed funds rate”. Enquanto o mundo estiver patinando, o Fed dificilmente perderá sua paciência monetária.

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