Copom avisa: o fim está próximo

Próxima alta da Selic, que será na reunião de 29 de abril, deverá ser a última do ciclo longo de contração monetária iniciado em 17 de abril de 2013, dia em que subiu a taxa de 7,25% para 7,50%

Por diana.dantas

De novo na contramão do dólar, que caiu, os juros subiram ontem no mercado futuro da BM&F. A justificativa foi acompanhar uma alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano desnaturada por declaração esdrúxula feita por um falcão do Federal Reserve (Fed). Mas, no fundo, a alta dos DIs mostrou a irritação do mercado com o Relatório Trimestral de Inflação (RI) do Banco Central e com o tom sereno e equidistante empregado pelo diretor de Política Econômica, Luiz Awazu Pereira, ao apresentá-lo. Os analistas ficaram perplexos com a dessintonia entre o quadro atual de deterioração e as expectativas para o futuro, bem otimistas, da autoridade. A conclusão provocou comichões: a alta da Selic que o Copom irá fazer em sua próxima reunião, dia 29 de abril — de 0,25 ou 0,50 ponto, ainda não está muito claro — deverá ser a última do ciclo longo de contração monetária iniciado em 17 de abril de 2013, dia em que subiu a taxa de 7,25% para 7,50%.

O DI deu importância demais à alta de 1,92% para 1,99% da taxa da T-Note de 10 anos. A declaração de Dennis Lockhart, presidente do Fed de Dallas, de que não se pode descartar elevação do juro básico americano em junho, foi superestimada pelo mercado secundário de “treasuries”. Trata-se do velho expediente, muito utilizado lá como aqui, de fazer política monetária no grito. Se a T-Note de 10 anos permanecer abaixo de 2%, nunca o Fed conseguirá subir a “fed funds rate”. Além do que são 12 os membros do comitê de política monetária do Fed, e um falcão só não faz verão (a reunião do Fed de 17 de junho já está sendo tratada como “a reunião de verão” embora ocorra quatro dias antes do início oficial da estação nos EUA).

Os juros subiram generalizadamente na BM&F. Com destaque para a taxa com vencimento em janeiro de 2017. Ela avançou de 13,40% para 13,47%, enquanto o contrato negociado para janeiro de 2016 evoluiu menos, de 13,53% para 13,55%. Foi uma forma que o pregão encontrou para dizer ao BC que não acredita que encontrará no ano que vem condições para iniciar um ciclo de queda da Selic. A visão do Copom, externada por Awazu, dominou as atenções das mesas: uma Selic entre 13% e 13,25% pode dar conta de produzir o declínio inflacionário projetado.

Pelo cenário de referência do Comitê, se a taxa fosse mantida em 12,75% e se o dólar se estabilizasse em R$ 3,15, o IPCA cairia de 7,9% em 2015 para 4,9% no final de 2016, chegando no centro de 4,5% da meta em 2017. Ou seja, o BC não precisa exagerar no aperto monetário para atingir seu objetivo de longo prazo. O BC só olha o longo prazo: 2015 é um ano de ajustes, concentrados em seus primeiros meses, inflacionariamente perdido, pois o IPCA vai romper o teto de 6,5% da meta — é um mero detalhe se o BC vai preferir endereçar carta aberta ao ministro da Fazenda se justificando ou se vai aplicar uma meta ajustada de travessia. O importante mesmo é cuidar de 2016.

No RI, o recado de que o fim do ciclo está próximo foi dado pela supressão da palavra “vigilante”, que constava do documento anterior, de dezembro. O RI de ontem veio bem mais “light” em relação às certezas e a velocidade e contundência do ataque à inflação. No relatório anterior, o Copom tinha a convicção de que o IPCA iria fechar 2016 na mosca da meta. Afirmava a disposição de “fazer o que for necessário para que no próximo ano a inflação entre em longo período de declínio, que levará à meta de 4,5% em 2016”. A redação, agora, é bem mais cautelosa: o Copom vai atuar “com vistas a assegurar, ao longo do próximo ano, a convergência da inflação para a meta de 4,5%”. A expressão “fazer o que for necessário” poderia transmitir a ideia de que Selics de 14% ou 15% não seriam descabidas. O RI diz que não vai chegar a tanto.

Tanto no RI quando nas declarações de Awazu, enfatizou-se que os esforços desinflacionários “ainda não se mostram suficientes”. Isso quer dizer que o Copom vai subir a Selic em abril. Não mais que isso. As visões prospectivas descartam avanços subsequentes. Novas pauladas na taxa básica a partir de junho seriam tecnicamente incompatíveis com o cenário róseo do BC. Dado o retardo natural de uma decisão monetária — os canais de transmissão parcialmente bloqueados só conseguem tornar real e efetivo o impacto de uma decisão de seis a nove meses depois de tomada —, quando ela chegasse na atividade produtiva já não seria mais necessária. A partir de abril/maio está contratada a instalação de uma longa curva declinante no IPCA acumulado em 12 meses. O índice oficial de inflação sofrerá um tombo considerável sobretudo no primeiro trimestre de 2016, quando os IPCAs mais baixos de janeiro, fevereiro e março do ano que vem forem comparados aos obesos índices de 2015.

A inflação perderá ímpeto sobretudo a partir de maio por causa de vários fatores: todo o processo de correção das tarifas públicas defasadas já terá sido concluído; o mercado de trabalho perde aceleradamente sua dinâmica de reajustes salariais acima da produtividade; o crédito persiste moderado e caro; e a política fiscal caminha do campo da neutralidade para o da contração.

Resumindo: o desemprego, a recessão e a transferência de renda da sociedade para os cofres públicas põem um saco plástico na cabeça do IPCA. O dólar não conseguirá passar oxigênio sub-repticiamente. Awazu discorreu longamente, sustentado por um boxe do RI, sobre a fraqueza dos repasses cambiais aos preços em geral em épocas de declínio das commodities. Em momentos de queda das commodities, o coeficiente do “pass-through” costuma cair à metade do que ocorre em ciclos de expansão de cotações das matérias-primas. E a recessão e o desemprego cuidarão da outra metade. Fica assim bem mais evidente porque o BC acabará com o suprimento de novos swaps cambiais. Ou seja, o mercado de câmbio não tem contra quem brigar.

Se o BC está fora, os especuladores terão de trocar socos entre si. Aí fica mais complicada a tarefa de puxar e derrubar a moeda sem motivos plausíveis. O embate produziu intensa oscilação ontem, com o dólar trocando de sinal nove vezes, mas sem disparar para cima nem despencar para baixo. Fechou em queda de 0,39%, cotado a R$ 3,1909.

Os mercados já estão dando um deságio para a crise política. Não dá para operar em cima de birras e rixas pessoais. A situação estaria beirando a comédia pastelão se não fosse trágica. Depois que o presidente do Senado, Renan Calheiros, declarou que nenhuma indicação que “tiver a digital do PT” será aprovada no Senado, seja para o STF, para agências reguladoras ou qualquer outro cargo que precise do referendo da casa — colocando de roldão sob quarentena a nomeação de Tony Volpon, um economista de mercado e não do PT, para a diretoria do BC — o peemedebista passou a ser jocosa mas macabramente chamado nas mesas de operação de o “Andreas Lubitz brasileiro”.


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