Juro alto é a cura

Se a política monetária, mesmo sacrificando temporariamente produto e empregos, conseguir esconjurar a inflação, o crescimento voltará

Por diana.dantas

Na antevéspera da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central que vai elevar a Selic de 13,25% para 13,75%, os contratos futuros de juros desdenharam do declínio cambial e subiram na BM&F. Não foi um mero ajuste à decisão que será tomada pelo Copom na noite de quarta-feira, já amplamente anunciada e devidamente precificada na curva futura de juros. Os DIs futuros subiram por causa do tom inusual de um discurso conservador proferido pelo novo homem forte da economia. Em evento em São Paulo, o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, não só garantiu a independência monetária do BC como avalizou o ciclo de alta da taxa básica. “Juro não cai por decreto”, sentenciou.

A confiança, o investimento e o crescimento só retornarão quando a inflação estiver na meta, assegurou Barbosa. Para que não restasse a menor dúvida sobre a matriz ideológica do que estava dizendo, empregou uma palavra que não sai da boca dos economistas neoliberais: produtividade. Tesoureiros e gestores receberam o discurso com regozijo e alívio. Desde o mal-estar criado com a ausência do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, da coletiva convocada para o anúncio dos cortes orçamentários, o mercado vinha operando ressabiado. Barbosa, economista vinculado ao Instituto Lula, não goza da simpatia irrestrita granjeada pelo seu colega, um ortodoxo puro-sangue. E seria o candidato natural a substituí-lo se Levy decidisse pegar o boné. Corretamente, o mercado considera remotíssima a hipótese de desligamento de Levy, mas, se algum risco há, automaticamente são feitas operações defensivas. Barbosa desfez esse desconforto ontem: a política de austeridade é de governo, não de ministro.

O raciocínio barbosiano é emprestado dos executivos financeiros. Trata-se daquela tortuosidade orwelliana já bem conhecida: todo mal vem do inferno inflacionário; o PIB cai porque a inflação está fora da meta; é ela que atemoriza os empresários, retraindo os investimentos; se a política monetária, mesmo sacrificando temporariamente produto e empregos, conseguir esconjurar a inflação o crescimento voltará; a política do juro alto não é a causa da recessão, mas a sua cura. Então, tome cura: a taxa do DI para a virada do ano subiu ontem de 13,85% para 13,91%; o contrato para janeiro de 2017 avançou de 13,31% para 13,42%; e o com vencimento em janeiro de 2021, de 12,35% para 12,41%.

Se essa linha de pensamento for levada às últimas consequências, a Selic não vai parar de subir quando, no Copom de 29 de julho, chegar a 14%, como supunha até sexta-feira a estrutura a termo das taxas de juros. Seria essa Selic mágica de 14% que, introduzida no modelo econométrico do BC, produziria a convergência do IPCA ao alvo de 4,5% no final de 2016. Mas se ela não conseguir gerar a recessão e o desemprego necessários para tanto? Começou ontem no pregão da BM&F movimento de precificação da possibilidade de o Copom não encerrar o ciclo em julho com uma alta final de 0,25 ponto. O mercado já está achando que pode fazer mais 0,50 ponto e não dar por finalizada a sua faina desinflacionaria. Sinal verde o BC parece desfrutar dos homens fortes da economia, do antigo e do novo.

Não é sem razão que tesoureiros esfregam as mãos: hoje, o juro real da economia já é de 7,33%. Trata-se do real ex-ante que resulta do juro nominal para 360 dias (taxa de 13,76% do swap pré/DI) deflacionado pela projeção do Focus para o IPCA do mesmo período, de 5,99%. Essa estimativa de inflação para os próximos 12 meses pega uma parte dos 8,39% previstos para 2015 e outra dos 5,5% projetados para 2016. O Focus acha que a Selic cairá para 12% no final do ano que vem, quando, na crença inabalável do BC, a inflação já estará em 4,5%. A promessa de juro real é, portanto, de 7,18%. Ou seja, há um solene compromisso do governo petista de não pagar taxa real abaixo de 7%. Para que um empresário resolva sacar o dinheiro estocado em títulos públicos e usá-lo em investimento produtivo, o projeto tem de embutir um retorno bem mais alto que esses 7% reais para compensar a canseira toda. É com esse juro que o governo pretende curar a recessão. A cura não é barata: os gastos com juros totalizaram R$ 377,3 bilhões nos 12 meses terminados em abril, o equivalente a 6,73% do PIB. O governo pagou R$ 377,3 bilhões para os detentores de riqueza não investirem produtivamente. É o que se chama de “falta de confiança”.

Ontem foi o dia da divulgação dos PMIs da indústria referentes a maio nos quatro cantos do mundo. O americano ficou em 54 pontos, o chinês subiu de 50,1 para 50,2, o inglês avançou de 51,8 para 52, o alemão recuou de 52,1 para 51,1 e o da zona do euro cresceu de 52 para 52,2 pontos. Todos acima dos 50 pontos que indicam retomada. E o PMI brasileiro? Caiu de 46 para 45,9. Pela inversão orwelliana, como o índice reflete a “desconfiança”, fornece um bom motivo para subir uma taxa básica de juros que já é a maior do mundo.

A suposição é de que, diante disso, continuará entrando muito capital de fora. Foi por isso que o dólar não ligou muito nem para a valorização sofrida globalmente pela moeda americana, nem pela retirada de hedge pelo BC. Este mês, o BC vai manter o mesmo esquema de rolagem dos swaps cambiais antigos realizado em maio, quando recomprou 20% dos títulos. Em junho, se sustentar o ritmo de oferta diária de 7 mil contratos, irá renovar 80% do lote de US$ 8,74 bilhões que será liquidado em 1° de julho. O mercado prescindirá dessa proteção se persistir o ingresso líquido de recursos externos de portfólio. O dólar fechou em baixa de 0,41%, cotado a R$ 3,1743.

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