O que o BC vai fazer em julho?

Se o BC subir hoje a Selic para 13,75%, mas, concomitantemente, indicar que de 14% não passará, a decisão será falha tecnicamente

Por diana.dantas

O Copom do Banco Central vai tomar hoje à tarde duas decisões. A primeira está dada e precificada (ou apreçada, como preferem os analistas mais esnobes). Trata-se da alta de 0,50 ponto da Selic, dos atuais 13,25% para 13,75%. Será a sexta elevação consecutiva, cinco das quais de 0,50 ponto, dentro de um ciclo longo de aperto monetário iniciado em abril de 2013. De lá para cá, já foram feitos 14 aumentos de juro básico. O resultado da segunda decisão é incerto. O Copom vai ter de escolher entre a manutenção ou a mudança do seu “statement”. É esta segunda deliberação a que mais interessa aos investidores e aos profissionais. A partir dela, os analistas poderão conhecer a disposição da autoridade ou de encerrar o ciclo de arrocho no mês que vem ou de mantê-lo por mais tempo.

Se o Copom optar por preservar intacto o texto do seu comunicado — um primor de concisão repetido nas últimas três reuniões: “Avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic em 0,50 p.p., sem viés” — deixará portas e janelas escancaradas ao prolongamento do aperto no mesmo passo de 0,50 ponto. Contrataria, em princípio, uma Selic de 14,25% no próximo Copom, marcado para 29 de julho. E, embora o juro futuro para a virada do ano tenha saltado na BM&F de 13,73% no dia 25 para 13,95% ontem, por conta apenas do “temor” de prosseguimento do ciclo, subiria ainda mais a partir de amanhã. Mas se o BC mudar a nota pós-Copom, sugerindo a possibilidade de encerrar a escalada da Selic quando ela chegar a 14% no final de julho, os DIs de prazo mais curto podem recuar.

Do ponto de vista ancorado no cerne ideológico da atual política monetária, a primeira opção — a da manutenção do “statement” — é a mais lógica. O que o BC faz ao definir a Selic é influenciar a curva futura de juros. É a curva, e não a Selic, a formadora do custo básico do dinheiro. São os vários vencimentos dos DIs que moldam a base de referência do custo do crédito, numa ponta, e da remuneração das aplicações financeiras, na outra. Se o BC subir hoje a Selic para 13,75%, mas, concomitantemente, indicar que de 14% não passará, a decisão será falha tecnicamente: ao mesmo tempo em que encarece o custo de carregamento da dívida mobiliária federal, reduz o custo primário do dinheiro, e é este que precisa se manter elevado para esfriar a atividade econômica e provocar desemprego — dois pré-requisitos essenciais para derrubar uma inflação que, pelo diagnóstico liberal-conservador ora dominante, é de demanda.

A reiteração do “statement” é perfeitamente coerente com o discurso oficial proferido pelos ministros Joaquim Levy, Nelson Barbosa e Alexandre Tombini. E completamente compatível com a linha central que norteia as ações de política econômica — o princípio maquiavélico de se fazer todo o mal de uma vez só. Os ministros não perdem a chance de assegurar que 2015 é um ano de exceção, um momento de transição entre o passado de políticas irresponsáveis e um futuro de equilíbrio na dinâmica econômica. Para um ano de exceção, vale tudo, pouco importa o desemprego dramático relatado pelo Caged de abril ou a derrocada sem fundo da indústria. Os números da PIM do IBGE divulgados ontem — a produção industrial caiu 1,2% em abril e 7,6% em relação ao mesmo mês de 2014 — não impedem o sono dos justos, justiceiros e vigilantes. Um sono longo e catatônico, já que o “ajuste fiscal” persistirá por dois anos e o impacto da Selic final — seja de 14%, 14,25% ou 14,50% — só irá alcançar efetivamente a economia real cerca de onze meses depois de decidida.

A repetição do comunicado é a única escolha possível para a preservação do caminho geral seguido por Dilma 2.0. Trata-se de uma política macroeconômica neoliberal que só não é 100% neoliberal porque ainda não se está fazendo deliberadamente uma apreciação cambial. E não se está mais em função do contexto global adverso do que da falta de vontade. O governo petista entrega os anéis para não ter de decepar os dedos (modelo de partilha do pré-sal, política de conteúdo nacional e acordos no âmbito do Mercosul e dos Brics).

As políticas fiscal e monetária seguem à risca a cartilha liberal-conservadora, ao ponto de não conferir nenhuma relevância ao debate sobre os malefícios fiscais do atual arrocho monetário. Os alertas procedentes de economistas heterodoxos são desdenhados. As pesquisas mais recentes, citadas no blog do professor da Unicamp Fernando Nogueira da Costa, concluem que cada aumento de 0,50 ponto da taxa Selic representa um crescimento de 0,71 ponto do PIB na dívida líquida do setor público em 12 meses. Mais: para neutralizar a alta de 0,50 ponto da Selic e manter estável a dívida pública, seria necessário 1,7 ponto a mais de variação do PIB. Num quadro de baixo crescimento, o endividamento avança mais rapidamente do que o esforço fiscal requerido para compensá-lo.

A porção mais atilada dos tesoureiros e gestores que apostam dinheiro no pregão de juros futuros da BM&F, a que prefere a ponta pós-fixada dos contratos, já trabalhou deste ontem com a suposição de que o BC não vai alterar seu comunicado. Esse posicionamento provocou alta generalizada dos DIs mesmo na presença de um forte movimento de apreciação cambial. A taxa para janeiro de 2016 subiu de 13,91% para 13,95%. O contrato para janeiro de 2017 encerrou a 13,52%, vindo de 13,42% no fechamento anterior. E a taxa para janeiro de 2021 avançou a 12,49%, de 12,41% na segunda-feira.

Em tese, se o dólar cai, retira força da inflação tornando dispensáveis novos aumentos de juros. Mas os dois movimentos não são em si contraditórios: um efeito clássico do aperto monetário é justamente a valorização da taxa de câmbio. Foi o que aconteceu ontem. O dólar fechou cotado a R$ 3,1346, em baixa de 1,25%. A atração de capitais estrangeiros de portfólio, amplificada pela alta contínua e sem fim da Selic, conjugou-se a um contexto de afeiçoamento global por risco. Prova disso foi a boa acolhida ao bônus de 100 anos da Petrobras, uma emissão que desbrava trilhas para outras empresas.

O mote foi o sinal de que a eurolândia melhora. Os mercados comemoraram ontem a alta da inflação, indício de que o afrouxamento quantitativo do BCE pode estar surtindo efeito positivo. Prévia de maio do Índice de Preços ao Consumidor indicou inflação anual de 0,3%, depois da estabilidade de abril. O núcleo do CPI subiu de 0,6% para 0,9%. Em ambos os casos, acima do esperado pelos economistas, de 0,2% e 0,7%, respectivamente. 


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