Capital estrangeiro é cada vez maior na Bolsa

A participação dos investidores estrangeiros nos negócios da Bovespa saltou de 22% em 2000 para 43,7% no ano passado; neste ano, até julho, já representa 49,7%

Por monica.lima

São Paulo - A participação dos investidores estrangeiros na Bolsa de Valores passou de 22% em 2000 para 49,7% este ano, até o dia 30 de julho, e já está a frente da participação verificada no ano passado, de 43,7%. Ao contrário do investidor doméstico que tem mostrado certa preocupação em investir no segmento de renda variável, o avanço mostra que o apetite do estrangeiro por ativos brasileiros é crescente. Essa performance também reflete a farta liquidez nos mercados internacionais.

O saldo de negociações de investidores estrangeiros no mercado de ações da Bovespa até o dia 30 de julho soma R$ 15,7 bilhões e é o segundo melhor desde 2000, ficando atrás apenas de 2009, quando atingiu R$ 20,5 bilhões. No ano, o total de compras foi de R$ 466,9 bilhões, contra R$ 451,2 bilhões de vendas e, no mês, R$ 61,3 bilhões, ante R$ 57,9 bilhões.

Para Henri Evrard, analista de Renda Variável da Infinity Asset Management, o fato de o desempenho da Bolsa brasileira estar bem abaixo dos seus principais pares internacionais tem contribuído para atrair a liquidez internacional. De acordo com levantamento do analista, de 2011 até o dia 27 de julho, o S&P 500, da Bolsa de Nova York, registra valorização acumulada em dólar de 48,36%, o DAX (Alemanha), de 32,59%, ante uma queda de 29,24% na Bovespa. “Em relação aos preços lá fora, os ativos brasileiros estão depreciados. Há espaço para crescer e isso atrai o estrangeiro”, disse Evrard.

Além disso, o analista ressalta que o número de contratos comprados em índice futuro por investidor estrangeiro tem crescido, o que também confirma o interesse deles. Segundos dados da BM&FBovespa, ao final do pregão do dia 31 de julho, havia 201.607 contratos em aberto no índice futuro de Ibovespa. Em 30 de junho esse número era de 188.321 e, em 30 de maio, de 187.484.

A gestora de recursos da Coinvalores, Tatiane Cruz, lembra ainda que os estímulos promovidos pelo Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano) para a economia do país, que vinha dando sinais de desaceleração, contribuiu para que parte desses recursos viessem para o Brasil. Ela, no entanto, não descarta que uma pequena parcela possa voltar para o país de origem se o Fed começar a subir o juro. “Pode haver uma pequena migração, nada muito forte”, estima. No entanto, ela ressalta que a expectativa ainda é de que o fluxo continue entrando no País e, não descarta a possibilidade de 2014 registrar o melhor saldo desde 2000.

Apesar das preocupações com o fraco crescimento da economia doméstica e a eleição presidencial que tem ocupado a atenção de alguns investidores, o economista-chefe da Órama Investimentos, Álvaro Bandeira, não acredita que esses recursos que estão entrando no País sejam, na sua maioria, capital especulativo. Segundo ele, a desaceleração da atividade econômica e a forma como será conduzida a política econômica após as eleições são relevantes, mas não o suficiente para uma migração de recursos do País. “A maior parcela não é especulativa. Não tenho nenhum medo em afirmar que não haverá forte migração de recursos após a eleição presidencial. Não tenho nenhuma preocupação que o dinheiro migre”, afirmou.

Bandeira, no entanto, ressalta que sempre há uma parcela de investimentos especulativos que pode sair em momentos de incerteza. Ele lembra ainda que tem os investidores que procuram se desfazer das ações sempre que essas apresentam bom retorno. “São os investidores de curto prazo, que embolsam os lucros quando o papel tem forte avanço”, observa.

Tatiane destaca ainda que, independente de quem ganhar a eleição em outubro, a principal questão é que o presidente escolhido resgate a credibilidade dos investidores. “Tudo vai depender do que será mudado. Qual será a política econômica. Como será a tratada a questão fiscal. Se o mercado se convencer, não vejo fuga de capital do País”, avalia.

Para Bandeira, no curto prazo, a única coisa que poderia mudar o rumo dos recursos e afastar o investimento do País é um agravamento da crise geopolítica. “Isso pode trazer forte aversão ao risco e fazer com que o dinheiro retorne para os Estados Unidos, local considerado porto seguro dos investidores”, disse. No longo prazo, a expectativa de que o Fed possa começar a subir o juro do país também não é fator de grande preocupação.

Tatiane pondera ainda que uma mudança no rating do Brasil poderia afastar alguns investidores, principalmente os institucionais. “Não acredito numa alteração ainda este ano, mas se o Brasil perder o investment grade isso pode afastar muitos investidores”, pondera. Ela lembra que no final de março a agência de classificação de risco  Standard & Poor’s (S&P) rebaixou a nota de crédito soberano do Brasil, que reflete a confiança de investir no país, de "BBB" para "BBB-".

A S&P também alterou a perspectiva do rating de negativa para estável. Essa classificação, "BBB-" ainda mantém o Brasil com grau de investimento, ou seja, que recomenda o País como destino de aplicações, mas é o último degrau para perder esse posto. O fato de ter mudado a perspectiva para estável indica que a S&P não deve fazer novos rebaixamentos no curto prazo.

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