Argentinos migram para ações após calote impulsionar melhores ganhos do mundo

A crise da dívida da Argentina está produzindo os maiores ganhos acionários do mundo, pois os investidores compram ações para se protegerem da depreciação do peso e da inflação alta

Por marta.valim

A crise da dívida da Argentina está produzindo os maiores ganhos acionários do mundo, pois os investidores compram ações para se protegerem da depreciação do peso e da inflação alta.

O índice de referência Merval subiu 85% neste ano em termos de pesos depois que as ações aumentaram, em agosto, após o segundo calote do país em 13 anos, ocorrido em 30 de julho. Embora esse seja o maior retorno entre os 92 índices globais monitorados pela Bloomberg, o ganho encolhe para 43% em termos de dólares quando se usa a taxa de câmbio oficial e para 27% na taxa de câmbio paralela, que os investidores usam para contornar os controles cambiais.

O mercado interno está ganhando uma ajuda em um momento em que o peso caminha para seu pior ano em mais de uma década, enquanto a inflação acelera para cerca de 38%. As ações oferecem proteção contra o enfraquecimento da moeda e uma oportunidade para os investidores de contornar os limites impostos pelo governo sobre compras de dólares por meio da aquisição de ativos argentinos localmente e vendendo-os no exterior por dólares, uma prática chamada de blue-chip swap.

“Comprar ações significa comprar ativos reais -- empresas locais com lucros que sobem em linha com a inflação --”, disse Christian Reos, chefe de pesquisa da Allaria Ledesma Cia., uma corretora de Buenos Aires, em entrevista por telefone.

O indicador acionário Merval fica atrás apenas do índice DFM General, de Dubai, entre os índices globais monitorados pela Bloomberg quando calculado usando retornos em dólar à taxa oficial. O peso argentino enfraqueceu 22% neste ano, a maior queda do mundo frente ao dólar depois das moedas de Gana e da Ucrânia.

Pagamento bloqueado

Um juiz dos EUA bloqueou o pagamento de US$ 539 milhões de juros da Argentina, em julho, depois que a presidente Cristina Kirchner se recusou a cumprir suas ordens de pagar os detentores de bônus do calote do país em 2001 integralmente e ao mesmo tempo. O calote deste ano estimulou a demanda por dólares, porque os argentinos apostam que o peso se desvalorizará ainda mais em um momento em que as reservas do Banco Central estão em queda. Os argentinos também estão comprando ações apostando que os valores das companhias subirão se o país fechar um acordo com seus credores, segundo a Allaria Ledesma Cia.

Os preços das ações argentinas são mais baratos em relação aos seus lucros do que os de seus pares. O índice Merval, composto por 13 ações argentinas, tem uma razão entre preço e lucro média de 12,1, enquanto os maiores índices da América Latina, incluindo o Ibovespa, do Brasil, e o Colcap, da Colômbia, têm razões acima de 18.

“As ações têm espaço para mais que dobrar seus preços porque elas estão ridiculamente baratas agora”, disse Reos.

Todas as ações do índice subiram neste ano em termos de pesos, sendo que a Empresa Distribuidora y Comercializadora Norte SA, uma distribuidora de energia, mais do que triplicou de valor devido à especulação de que o governo aumentará as tarifas de eletricidade, hoje limitadas. A siderúrgica Tenaris SA teve o menor incremento, de 47%.

Peso em queda

Em agosto, após o calote, o peso caiu no ritmo mais rápido dos últimos sete meses porque as exportações sofreram uma desaceleração, as reservas caíram e a demanda por dólares entre os argentinos subiu. O Merval saltou 20% no mês passado.

Os estrangeiros que querem investir em ações argentinas com retornos em dólares fora do país podem comprar recibos de depósito americanos (ADRs, na sigla em inglês). Os investidores podem mudar de opção entre títulos em pesos e dólares usando o blue-chip swap.

A taxa do peso implicada nessa transação é de cerca de 12,8 por dólar, segundo um índice da Bloomberg formado por oito ações locais e ADRs, 35% mais fraca que a oficial.

O Global X MSCI Argentina, um fundo negociado em bolsa focado na Argentina, composto por 28 ADRs, subiu 6,5% neste ano, contra 8,4% do índice Standard Poor’s 500.

“A maioria dos estrangeiros investe apenas em ADRs”, disse Reos. “Eles estarão mais dispostos a vir ao mercado local assim que a situação da dívida for resolvida”.

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