Consequências são 'consideráveis para a saúde, higiene e dignidade das populações', alerta a MSFArquivo / AFP
Entre a destruição de infraestruturas e os obstáculos ao abastecimento, "a privação deliberada de água infligida aos palestinos é parte integrante do genocídio perpetrado por Israel", afirma MSF em um comunicado publicado em conjunto com o relatório que recebeu o título "A água como arma: a destruição e a privação de água e saneamento por parte de Israel em Gaza".
O relatório, baseado em dados de MSF e em depoimentos ouvidos pelos funcionários da organização entre 2024 e 2025, afirma que a instrumentalização da água pelas autoridades israelenses segue “um padrão recorrente, sistemático e acumulativo”.
“Soma-se aos assassinatos diretos de civis, à destruição das estruturas de saúde e à demolição de residências, provocando deslocamentos em massa da população. Em conjunto, estes elementos evidenciam a vontade de impor condições de vida destrutivas e desumanas aos palestinos de Gaza”, alerta a ONG.
"As autoridades israelenses sabem que sem água a vida está paralisada. E mesmo assim, foram destruídas sistemática e deliberadamente as infraestruturas hídricas em Gaza, ao mesmo tempo que bloqueiam de forma constante a entrada de equipamentos relacionados com a água", afirma Claire San Filippo, diretora de emergências de MSF, mencionado no comunicado.
Apesar de um cessar-fogo em vigor desde outubro, dois anos após o início da guerra desencadeada pelo ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, a Faixa de Gaza segue afetada pela violência, enquanto Israel e o movimento islâmico trocam acusações sobre proteção da trégua.
As equipes de MSF documentaram disparos do Exército israelense contra caminhões-pipa "claramente identificados", assim como a destruição de poços "que constituíam uma fonte vital para capturas de milhares de pessoas".
“Os palestinos foram feridos e morreram quando tentaram simplesmente ter acesso à água”, afirma San Filippo.
A escassez "é tão grande que é simplesmente impossível fornecer quantidades suficientes à população", afirma MSF, que se apresenta como o principal produtor e distribuidor de água potável em Gaza depois das autoridades locais.
Em março de 2026, a organização prevê mais de 5,3 milhões de litros de água por dia, o equivalente às necessidades mínimas de mais de 407.000 pessoas, ou seja, quase um a cada cinco habitantes.
“Mas as ordens de movimentação impostas pelo Exército israelense impediram o acesso das equipes de MSF a zonas onde forneciam água a centenas de milhares de pessoas”, protesta a ONG, que também condena os obstáculos à entrada em Gaza, desde outubro de 2023, de material essencial relacionado com a água e o saneamento.
As consequências são “consideráveis para a saúde, higiene e dignidade das populações, em particular das mulheres e das pessoas com deficiência”, alerta a MSF.
“Sem banheiros, as pessoas são obrigadas a cavar buracos na areia, que transbordam e contaminam o ambiente e as águas subterrâneas”, relata a organização.
A falta de acesso à água e à higiene, combinada com condições de vida indignas — tendas superlotadas, abrigos improvisados — favorece a propagação de doenças, em particular infecções respiratórias, doenças de pele e doenças diarreicas.
A MSF pede às autoridades israelenses que restabeleçam imediatamente o acesso à água "em níveis suficientes" para os habitantes de Gaza. Também pede aos aliados do país que “pressionem para obter a retirada dos obstáculos à ajuda humanitária”.

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