Zelensky sugeriu que reunião com Putin acontecesse em território neutroAFP

O presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, propôs nesta quinta-feira (4) uma reunião presencial com o russo Vladimir Putin, em uma carta aberta na qual também oferece um "cessar-fogo total" enquanto são negociados os termos para o fim da guerra.

O Kremlin indicou que Putin ainda não havia visto a proposta, mas que Zelensky poderia ir "a qualquer momento" encontrá-lo em Moscou, algo que o presidente ucraniano descarta em sua correspondência.

"A Ucrânia propõe pôr fim a esta guerra por meio de um compromisso direto entre o senhor e nós. Proponho uma reunião", escreveu Zelensky, sugerindo que encontro acontecesse em territórios neutros como "Suíça, Turquia e os países do mundo árabe".

Ele acrescentou que a Ucrânia está "pronta para um cessar-fogo total durante o período em que durarem as negociações", nas quais considera que Europa e Estados Unidos devem participar.

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, declarou em Washington que o encontro entre os dois líderes seria "fantástico", ressaltando que Rússia e Ucrânia terão de "fazer concessões".

A carta de Zelensky foi publicada um dia após ataques com drones ucranianos contra um terminal petrolífero e uma base naval militar em São Petersburgo, cidade natal de Putin e sede do tradicional Fórum Econômico Internacional, também chamado de "Davos russo".

Zelensky raramente se dirigiu diretamente a Putin desde o início da invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, mas já pediu várias vezes um encontro, por considerar que apenas uma conversa cara a cara poderia levar a um acordo.

As negociações para pôr fim ao conflito mais mortal da Europa desde a Segunda Guerra Mundial estão estagnadas desde o início da guerra no Oriente Médio, no fim de fevereiro.

Moscou exige de Kiev concessões políticas e territoriais, especialmente uma retirada completa da região de Donetsk, parcialmente controlada pela Rússia, exigências que a Ucrânia rejeita por considerá-las uma capitulação.

Kiev também propôs em diversas ocasiões um cessar-fogo prolongado para favorecer as negociações. Mas Moscou rejeita essa ideia, alegando que ela permitiria ao Exército ucraniano se reforçar.

O presidente russo voltou a questionar a legitimidade de seu par ucraniano para conduzir negociações, ao destacar nesta quinta-feira que o mandato de Zelensky expirou em 2024. Sob a lei marcial em vigor desde o início da invasão russa da Ucrânia, nenhuma eleição pode ser realizada.


"Reforçar a defesa antiaérea"
Putin já afirmou que só estaria disposto a se reunir com Zelensky depois que um acordo de paz estivesse totalmente concluído pelas equipes de negociação. A publicação da carta ocorreu enquanto o presidente russo reconhecia que a Rússia precisa "melhorar" e "reforçar" sua defesa antiaérea.

A Ucrânia intensificou recentemente seus ataques com drones contra os territórios ocupados e contra a própria Rússia, em represália aos bombardeios russos diários contra seu território.

"Se o senhor não chegar por conta própria à conclusão de que é hora de pôr fim a esta guerra, a Ucrânia continuará lutando por sua existência", afirmou também Zelensky em sua carta.

Putin assegurou, de São Petersburgo, que continua disposto a negociar com Kiev um acordo para encerrar o conflito, que, segundo ele, não exclui um controle total de Moscou sobre o Donbass, a bacia mineradora no leste da Ucrânia da qual Donetsk faz parte.

O líder russo afirmou ainda que as tropas de Moscou avançam "ao longo de toda a linha de frente". Putin não descartou ampliar o uso do míssil balístico hipersônico russo Oreshnik para atingir cidades ucranianas. Ele repetiu que esse projétil, já utilizado três vezes contra a Ucrânia, é capaz de transportar ogivas nucleares.

No entanto, uma análise dos dados do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW) mostra que a Ucrânia recuperou cerca de 282 km² das mãos dos russos em maio. Isso representa uma redução, pelo segundo mês consecutivo, da área de território controlada por Moscou, que vinha ganhando terreno desde o outono de 2023.