Estragos causados pelos terremotos da última quarta-feira em Caraballeda, na VenezuelaReprodução / Redes sociais

Um forte tremor atingiu a Venezuela na manhã desta segunda-feira (29), sem provocar danos adicionais, cinco dias após o duplo terremoto que deixou ao menos 1.450 mortos e dezenas de milhares de desaparecidos.

O novo abalo secundário foi sentido em Caracas e no estado vizinho de La Guaira. O fenômeno aconteceu no momento em que a esperança de encontrar sobreviventes diminui e cresce a frustração com a resposta do governo.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) relatou um tremor de 4,6 graus de magnitude às 07h01 (8h01 de Brasília), com epicentro a 27 quilômetros ao norte de Caraballeda, um balneário popular entre os moradores de Caracas.

"Foi bem forte", disse à reportagem Isamel Díaz, morador de La Guaira, a 40 km de Caracas, a área mais atingida pela tragédia da última quarta-feira (24). Foi o tremor mais intenso desde os terremotos de 7,2 e 7,5 graus de 24 de junho.

"Não temos relatos de danos adicionais em nenhuma parte do território nacional", afirmou Jorge Rodríguez, presidente do Parlamento, em uma mensagem no Telegram.

O balanço oficial mais recente é de 1.450 mortos, 20 a mais que no sábado, e 3.150 feridos. O governo evita falar de desaparecidos, um número que as Nações Unidas calcula em mais de 50 mil.

Revolta com o governo
A janela de tempo crítica de 72 horas para resgatar sobreviventes sob os escombros terminou. Especialistas acreditam que, após o prazo, a tarefa se transforma basicamente na recuperação de cadáveres.

"Todos dizem que não há mais ninguém, mas nós (continuamos) esperando aqui. Vamos ver se ainda dá para tirar mais alguém", declarou Eduardo Cardozo, um trabalhador rural que viajou para ajudar nos trabalhos de resgate em Tucacas, na costa, quase 200 km ao leste de Caracas.

"O mais difícil era quando sentíamos esperança nos túneis onde entrávamos, rastejando, tirando escombros, fazendo um trabalho de coração, com muita fé, e quando chegávamos aos objetivos (as pessoas), as encontrávamos sem vida", contou Luis Salas, outro voluntário, de 27 anos.

Mas a população não esconde a revolta com a ajuda insuficiente e lenta do governo. "Nós mesmos é que fazemos tudo. Nós mesmos nos ajudamos e, confiando em Deus, acreditamos que Deus nos ajudou", declarou à AFP Dayana Lean, de 51 anos, na praia Los Cocos, em La Guaira.

"Sabemos que estão mortos"
"Não temos o apoio para tirar nossos familiares, nós mesmos não conseguimos", disse Héctor Aguilera, de 60 anos, à reportagem. Quatro de seus familiares ficaram soterrados sob um prédio que desabou. Foram recuperados dois corpos sem vida.

"Sabemos que estão mortos, mas aqui estamos, esperando a resposta das autoridades", acrescentou. "Não temos esperanças, o que me restam são as lembranças".

O presidente do Parlamento disse que 189 edifícios sofreram um colapso total e que o total de imóveis afetados é de 774. A ONU calcula que os terremotos podem deixar quase sete milhões de afetados e danos materiais de 6,7 bilhões de dólares (cerca de 34,6 bilhões de reais), 6% do PIB do país petrolífero.

O governo militarizou La Guaira e impôs a exigência de uma permissão para que socorristas, médicos e voluntários possam acessar a região do desastre. Também tenta controlar a cobertura da imprensa internacional. A imprensa é levada de ônibus a determinadas áreas de La Guaira, segundo o governo, para evitar epidemias.

As ofertas de ajuda se multiplicam, mas a reportagem presenciou saques em La Guaira, e as denúncias de roubos continuam aumentando. Farmácias, supermercados e outros estabelecimentos comerciais foram saqueados, relataram moradores. Muitos reclamaram da inação do governo.

O aeroporto internacional que atende Caracas reabriu parcialmente neste sábado e recebe, desde então, voos de carga com ajuda dos Estados Unidos.

O Exército dos Estados Unidos também enviou várias aeronaves e helicópteros para ajudar nos trabalhos de resgate. Militares entregaram suprimentos no porto de La Guaira no domingo, informou o Comando Sul.

A crise econômica na Venezuela afetou gravemente os hospitais e os serviços públicos. Milhões de venezuelanos partiram para o exílio nos últimos anos. A líder da oposição, María Corina Machado, afirmou no domingo ao canal americano Fox que retornará à Venezuela "muito em breve". "Chegou a hora, é meu dever estar ao lado do meu povo", declarou.
* Reportagem do estagiário Victor Louro, sob supervisão de Raphael Perucci