Por monica.lima
Há 62 anos, o líder comunista chinês Mao Tse-Tung já sonhava com uma obra de engenharia que desviasse água do Sul do país para aplacar a seda da árida Região Norte, onde está, inclusive, a capital Pequim. Hoje, com o problema da escassez de água muito mais grave do que na década de 50, a China conseguiu tirar do papel o gigantesco e polêmico projeto, orçado em US$ 80 bilhões e que poderá aplacar a sede da região onde hoje vivem cerca de 300 milhões de chineses. Na sexta-feira, entrou em operação a principal parte do Projeto de Desvio de Água Sul-Norte , uma das mais ambiciosas obras de engenharia da história chinesa.
A seção de canais e túneis do projeto inaugurada na sexta-feira começou a desviar água do Vale do Rio Yangtze, para a sedenta e poluída Pequim. Esta parte do projeto, a maior delas, começa no reservatório de Danjiangkou, na província de Hubei, na China Central, percorre 1.432 quilômetros e vai fornecer uma média de 9.5 bilhões de metros cúbicos de água por ano. Além de Pequim, outras cidades, como Tianjin, serão beneficiadas, informou a agência de notícias oficial chinesa “Xinhua”.
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O projeto está dividido em três partes. A primeira, a linha do Leste, desvia água do Rio Yangtze para a cidade portuária de Tianjin. Esta seção já está parcialmente em operação. A segunda, a linha do meio, a principal, foi a inaugurada agora. E a terceira, a linha ocidental, a mais ambiciosa, que ainda não saiu do papel, poderá ligar as águas do Rio Yangtze e Amarelo pelo planalto tibetano. No total, o projeto vai desviar 44.8 bilhões de metros cúbicos de água do Sul para o Norte do país.
A parte mais difícil do projeto do ponto de vista técnico é o de estabilizar o solo e evitar que as paredes dos canais desabem. Engenheiros chineses chegaram a visitar grandes projetos de transferência de água nos EUA. Algumas províncias no Norte da China tem acesso a menos água por pessoa do que países desérticos do Oriente Médio. No Norte estão boa parte das indústrias que dependem muita de irrigação, como a têxtil e de eletrônicos e que estão esgotando rapidamente o suprimento de água do subsolo. O crescimento da economia da China nas últimas três décadas acabou tendo como consequência o desaparecimento de mais da metade dos 50 mil rios da China, segundo o primeiro censo nacional da água do país, publicado no ano passado. As autoridades dizem que com isso vão salvar a China de uma crise de água que poderia atrasar o seu desenvolvimento por vários anos.
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Um dos capítulos mais controversos do projeto foi o deslocamento de 345 mil habitantes de vilarejos que ficaram submersos. Mas há também os que duvidam da eficiência do projeto, como Jennifer Turner, diretora do Forum do Meio Ambiente da China, do Centro Wilson, de Washington. O projeto seria apenas um “Ban-Aid”, disse ela em entrevista para o jornal britânico “The Guardian”. Especialistas advertem que o Sul poderá não ter mais água suficiente para oferecer. O projeto poderá dizimar o Rio Han, um afluente do Rio Yangtze: cerca de 40% de sua água será desviada para o Norte. A própria Região Sul já tem sofrido consequências da seca, como em 2011, quando 315 mil pessoas da província de Hubei amargaram a escassez de água. Ambientalistas acreditam que grandes projetos de transferência de água vão permitir que a China evite adotar mais medidas de economia deste recurso natural. Com Reuters
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