Não basta o Presidente Barack Obama evitar a palavra guerra para fazer de conta que os Estados Unidos não estão mergulhando em mais um conflito armado. Na verdade, estão mergulhados na continuação do problema que criaram quando, na administração de George W. Bush, declararam guerra global contra o terror. E o pior é que não existe nada mais parecido com as declarações de Bush na ONU, defendendo a necessidade da guerra, do que o último discurso de Obama no mesmo palco mundial.
A semelhança foi ressaltada pela rede de televisão a cabo Fox, a voz ultra conservadora da mídia americana. Imagino como os editores da Fox se divertiram ao preparar o vídeo que foi ao ar na semana passada comparando os dois discursos. Por incrível que pareça, até a roupa dos dois era idêntica. Terno azul marinho e gravata azul clara, tudo exatamente nos mesmos tons. O discurso não fugiu à regra. Foi com prazer indisfarçável que a âncora da Fox relembrou as promessas de campanha de Obama: acabar com os conflitos, trazer as tropas de volta do Iraque e do Afeganistão, sair desse caminho do confronto eterno.
Para quem ainda tinha alguma ilusão de que Obama no poder poderia ser completamente diferente de tudo que se viu nos últimos 30 anos, foi a gota d’água. Uma lástima. A impressão que se tem é de que aqui a história não ensina. Não é motor de transformação. Apenas se repete. Pudera. Nas escolas dos Estados Unidos, ainda hoje os alunos na faixa dos 13/14 anos passam por um ritual: têm que escrever uma dissertação a respeito de Hiroshima e Nagasaki. São induzidos a refletir se as bombas atômicas lançadas no Japão eram necessárias para colocar um ponto final na Segunda Guerra Mundial. Mas o “debate” oferecido nas escolas não aborda questões humanas e éticas básicas. Quem tem o direito de condenar a população civil de um país? A expressão “colateral damage”, algo como efeitos colaterais que pouco importam quando se trata do objetivo principal, ajuda a aliviar a culpa.
Da mesma maneira, não se discute o que já está acontecendo com a população civil do Iraque e da Síria, alvo não intencional dos bombardeios supostamente planejados para acabar com o grupo Estado Islâmico. E se discute menos ainda que grupo é esse, como ele se formou, há quanto tempo o governo dos Estados Unidos já tinha conhecimento da organização e de seus objetivos. Enquanto isso os vídeos do Estado Islâmico anunciando a decapitação de dois jornalistas americanos e de um britânico são usados, incessantemente, para mostrar o perigo que se avizinha. Como se três mortes na Síria fossem uma ameaça à segurança do país. É a velha tática: promover a histeria para contar com o apoio da população para qualquer medida drástica.
Se os grandes veículos de comunicação não discutem as questões de fundo, a internet oferece uma bela gama de informações bem menos favoráveis à estratégia do governo. Nafeez Ahmed, jornalista especializado em grandes investigações e professor de segurança internacional, garantiu, em artigo recente, que os Estados Unidos já sabiam da existência do Estado Islâmico desde agosto do ano passado. Sabiam, inclusive, que a cidade de Mosul, no Iraque, poderia ser tomada em breve pelos militantes do grupo, como acabou acontecendo. Tudo graças a um programa multimilionário do Pentágono chamado Minerva. Criado em 2008, o programa tem como objetivo financiar pesquisas em diferentes universidades do mundo, na área das ciências sociais, para prever descontentamentos, possíveis revoltas e o futuro de alguns movimentos sociais.
Nafeez Ahmed não é muito otimista com relação aos objetivos do Pentágono ao criar um programa como o Minerva. O alvo do programa não é apenas prever possíveis conflitos e fontes de instabilidade além fronteira. O jornalista descobriu que o Minerva tem um forte braço doméstico com alvos claros: os movimentos anti-guerra, os grupos que brigam por respeito aos direitos humanos e os que batalham por reais valores democráticos.
O cineasta Michael Morre disse, certa vez, que Barack Obama entrará para a história apenas como o primeiro presidente afro-americano do país. Esse será o único grande feito do atual presidente. E esse feito histórico, infelizmente, não será capaz de redimir a repetição de erros que marcam a atuação dos Estados Unidos no cenário internacional desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Se tivesse raízes no movimento negro americano, Obama teria muito o que explicar. Ou talvez jamais fosse eleito presidente.
Lendo diferentes artigos na internet, me deparei com um discurso do líder do movimento de direitos civis Martin Luther King, a respeito da guerra do Vietnã, outro fiasco da história dos Estados Unidos. Outra narrativa de destruição e desumanidade com poucos paralelos.No dia 4 de abril de 1967 (há 47 anos!) Martin Luther King ocupou o púlpito da igreja Riverside, aqui em Nova York, para proferir o discurso que se tornou conhecido com o título “Para além do Vietnã: a hora de acabar com o silêncio”. Ele criticou a guerra e o desperdício de dinheiro no conflito no momento em que o programa de combate à pobreza, criado pelo presidente Lyndon Johnson, estava sendo desmontado e esvaziado. Vale lembrar as palavras do reverendo que mais de uma vez se referiu à loucura que a guerra do Vietnã representava:
- Nós enviávamos jovens negros debilitados por nossa sociedade para lutar, a oito mil milhas de distância, pela garantia de liberdades no Sudeste da Ásia que eles não encontravam no Sudoeste da Georgia ou no Harlem. Eu não poderia me calar diante de uma manipulação tão cruel dos pobres.
E o que dizer da população civil dos países arrasados pelas intervenções militares dos Estados Unidos nas últimas décadas? O que diriam Martin Luther King ou Malcom X, hoje, se estivessem assistindo essa repetição de tantos erros históricos, agora pelas mão do primeiro presidente afro-americano do país? Difícil não imaginar...