Por douglas.nunes

Alunos e professores de Golden, um subúrbio de Denver, no Colorado, ganharam fama e espaço na imprensa norte-americana, na última semana, porque compraram briga com o conselho de educação do município. Em questão: o ensino de história. Briga boa essa. Segundo a constituição do estado, os conselhos municipais têm o direito de adaptar, mudar, subtrair, alterar da forma que acharem melhor o currículo escolar adotado no país. E foi o que um grupo de três representantes conservadores conseguiu fazer contra o voto de dois outros mais liberais.

A grande preocupação desses conservadores é garantir a manutenção do patriotismo. A transmissão, de uma geração a outra, da ideia de que os Estados Unidos são um país especial, escolhido por Deus para liderar os demais povos da terra. É a teoria do “excepcionalismo”. Uma falácia tão intrínseca da cultura norte-americana que até mesmo presidentes como Barack Obama, que têm uma origem interessante (uma mãe antropóloga do Kansas e um pai africano do Quênia), repetem o mantra. Se ele acredita na balela, quem sabe? Mas fala com convicção quando decide lançar mísseis sobre povos distantes.

Pois os alunos de Golden não se conformaram quando o conselho de educação decidiu limar do currículo o tratamento que os colonizadores deram aos nativos que encontraram por aqui. E também acharam mais conveniente reduzir ao máximo as discussões a respeito do movimento de direitos civis e as vitórias das feministas. O programa pede leitura e discussão de documentos históricos. O conselho impôs decoreba de dados e nada de polêmica porque fazer com que os jovens reflitam pode ser muito perigoso.

É animador ver que alunos, pais e professores ainda se interessam pela formação intelectual da garotada a ponto de ir para as ruas brigar. Mas o fato é que os Estados Unidos estão em pleno processo de marcha a ré. O pêndulo deu uma guinada para a direita e várias conquistas estão na corda bamba. Uma passada de olhos pelas principais manchetes de uma página de notícias popular por aqui dá um panorama:
- Scalia (juiz da Suprema Corte): Constituição permite à Corte ser favorável à religião em detrimento da não-religião.
Em discurso na Universidade Católica do Colorado, o juiz, apontado para o cargo pelo ex-presidente Ronald Reagan, disse que a separação entre estado e religião não significa que o estado deva favorecer a ausência de religião. Ele tem apenas que garantir a liberdade para todos os diferentes cultos e práticas religiosas. Três manchetes abaixo como complemento:
 A maioria dos americanos é a favor de que as crianças rezem dentro das escolas.

Há mais de 50 anos a Suprema Corte proibiu que as crianças rezassem dentro da sala de aula para deixar bem claro a separação entre estado e religião. Nas escolas se ensina e se aprende. A religião se pratica em casa ou na igreja, no templo, no centro, onde for. Pesquisa do Gallup mostra que hoje em dia 61% dos norte-americanos são a favor de que se volte a rezar na sala de aula. Os religiosos conservadores fazem campanha, há anos, para levar imagens religiosas, orações e bíblias de volta às escolas. Há mais de uma década deflagraram um ardente debate nacional em torno do criacionismo. A ideia de que Deus criou o universo, o homem, a mulher. E por isso a teoria da evolução de Darwin não deveria ser parte do currículo. É estarrecedor imaginar que no país que se pretende líder das pesquisas científicas um princípio tão básico da ciência possa ser negado por uma camada tão grande da população. Mas é. Outra manchete, no mesmo dia:

- Tribunal de apelação federal permite que o Texas imponha duras restrições ao aborto.
As novas medidas adotadas pelo estado do Texas contrariam a lei federal que permite o aborto em todo o país. Assim que entrarem em vigor, elas vão forçar o fechamento de quase todas as clínicas do segundo estado mais populoso da federação. Apenas sete clínicas permanecerão abertas em todo o Texas. Mulheres revoltadas foram às ruas protestar levando cabides de arame, para lembrar que era assim, de forma rudimentar e muitas vezes fatal que muitas mulheres pobres interrompiam a gravidez indesejada ou impossível.

No Congresso, todo passo na direção de melhorias para a maior parte da população é atacado ferozmente pela maioria republicana. O chamado Obamacare, projeto de saúde do governo Obama, só foi aprovado depois de ser bastante diluído. A opção de seguro público de saúde, a única arma que seria capaz de forçar os preços dos seguros particulares para baixo, foi eliminada logo no começo dos debates. Ainda assim, o arremedo de projeto de lei que foi aprovado agora é motivo de ataques e manobras republicanas para tentar desfazer o que os democratas consideram o grande marco do atual governo.

Na política externa, nada de novo. Se o estilo de George W. Bush era um pouco mais agressivo e pouco polido, a fala mansa e sofisticada de Barack Obama não muda em nada a realidade. O Nobel da Paz está lá, firme e forte, representando a máquina bélica sempre sedenta de novos alvos, indiferente ao sofrimento que impõe a diferentes povos e ao futuro sombrio que planta para o planeta e para Estados Unidos em particular. Existe um ditado muito famoso por aqui que diz mais ou menos o seguinte: a galinha sempre volta ao galinheiro para se empoleirar. Em outras palavras, o que se faz por aí volta para te cobrar a conta.

Cinco dias após os atentados do 11 de setembro de 2001, o Reverendo Jeremiah Wright Jr., da Igreja Trinity United de Chicago, citou o ditado e a história: “Nós bombardeamos Hiroshima, nós bombardeamos Nagasaki, nós matamos muito mais do que os milhares mortos em Nova York e no Pentágono e nunca piscamos. Nós apoiamos o terrorismo de estado contra os palestinos, contra os negros da África do Sul e agora estamos indignados porque tudo o que fizemos no exterior voltou para o nosso próprio quintal”.

Durante 20 anos, Jeremiah Wright Jr. foi o líder espiritual da família Obama. Para se eleger presidente, Barack se afastou do reverendo. E, uma vez no poder, esqueceu as lições que poderia ter empregado em prol de um mundo melhor.

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