Duurante a invasão amarela da torcida colombiana no Mineirão, no dia 14 de junho, algumas faixas de torcedores trazia mensagens em favor da paz. “Colômbia quer paz”, ou “Colômbia, te amo, paz”. Muitos brasileiros podem ter pensado que se tratava de uma manifestação contra a violência no campo de futebol por parte da seleção da Colômbia, que acabou derrotando a Grécia por três a zero, com direito à “Armeration”, a exótica dança do lateral esquerdo colombiano Pablo Armero, já conhecida do torcedor do Palmeiras. Mas a mensagem pela paz referia-se ao ambiente político desse que hoje é um dos países da América do Sul que mais cresce. No dia seguinte, domingo, 15, o país iria às urnas.
O resultado da eleição decidiria o futuro de uma complexa negociação de paz que se der certo vai fazer história. Venceu Juan Manuel Santos, o atual presidente. Venceu a paz. Ele bancou com firmeza o processo de negociação com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a guerrilha mais antiga da América Latina, que completou nesse ano meio século de atuação.
Com 48 milhões de habitantes, a Colômbia é o segundo país mais populoso da América do Sul. Há alguns anos, o país era sinônimo de narcotráfico. O problema não morreu, mas a pátria de Gabriel García Márquez vive outros tempos. Grande exportadora de commodities (petróleo, carvão, gás natural e café), a Colômbia cresce desde 2010 a uma taxa de mais de 4% ao ano. De acordo com o FMI, o PIB nominal colombiano ( US$ 387,7 bilhões) pode ultrapassar o da Argentina (US$ 404,5 bilhões) em 2015. Se isso acontecer, a Colômbia será considerada a segunda economia da América do Sul, atrás apenas do Brasil.
Juan Manuel Santos venceu prometendo transformar a Colômbia no país com o melhor índice de educação da América Latina até 2025. A atual taxa de inflação (2%) é a menor dos últimos 50 anos. Um acordo de paz com a guerrilha mais antiga da América Latina vitaminaria mais ainda o crescimento econômico da Colômbia, em 1% a 2%, segundo a previsão do ministro das Finanças do país, Maurício Cárdenas Santamaria.
Desde outubro de 2012, Juan Manuel Santos deu o pontapé inicial nas negociações com as Farc, hoje com 8 mil combatentes. Criadas em 27 de maio de 1964 como um grupo guerrilheiro marxista, com o tempo acabou se financiando com sequestros e tráfico de drogas. Santos chegou a ficar em segundo lugar no primeiro turno do pleito, em 25 de maio. Seu principal oponente Óscar Iván Zuluaga, contrário às negociações, conseguiu sair à frente. Entre os pontos mais polêmicos discutidos nas conversações da paz, a permissão a guerrilheiros que abandonarem as armas de entrar em partidos políticos. A adoção de penas alternativas a combatentes é outra ideia que causa muita celeuma. Dar justiça às mais de 6 milhões de vítimas do conflito é também alvo de muitos debates: são as pessoas que foram mortas, as que foram sequestradas, e as que perderam suas terras e se tornaram refugiados internos.
Cerca de 200 mil pessoas foram assassinadas nessa guerra sangrenta. Mais de 300 prefeitos e 75 parlamentares foram vítimas de sequestro nos últimos 40 anos. Além disso, seis candidatos a presidente foram assassinados no último século. Em 2000 a Colômbia sofria quase 3 mil sequestros por ano. Em 2013, foram muito menos: 292 casos. Até agora, cerca de 400 mil pessoas receberam indenizações. Segundo o presidente Santos, o total gasto deve somar US$ 25 bilhões nos próximos 10 anos. Óscar Iván Zuluaga era o candidato do ex-presidente Alvaro Uribe, ultra-direitista que adotou uma estratégia belicista contra o narcotráfico. Conversações de paz também acontecem com o Exército de Libertação Nacional (ELN), o segundo maior grupo de guerrilha da Colômbia, com 1500 combatentes.
Desde 2000, os EUA desembolsaram quase US$ 9 bilhões no controvertido Plano Colômbia, um programa de ajuda militar e econômica que focou na erradicação da colheita de coca. Mas essas fumigações são muito criticadas. A coca, a maconha e outras colheitas dão o sustento de muitos agricultores. A fumigação de colheitas é especialmente detestada porque destrói cultivos normais também, além de provocar efeitos adversos à saúde das pessoas e ao meio ambiente.
A paz na Colômbia viria a calhar em um momento em que o mundo discute uma nova forma de encarar o combate às drogas. Nesse debate os holofotes estão direcionados para a América Latina. Pela primeira vez, a reforma de política sobre drogas está na agenda na Organização dos Estados Americanos. Mas vários estudos mostram que os países latino-americanos em geral ainda adotam uma postura ultrapassada na luta contra as drogas: prioriza a repressão e a prisão do usuário de drogas, e não o seu tratamento. “As respostas que criminalizam o usuário das drogas são frequentemente mais nocivas para o bem-estar deles e da sociedade, do que o consumo”, diz Catalina Pérez Correa, editora de um estudo divulgado pela think tank Wola (Washington Office on Latin America).
Essa abordagem repressiva acabou favorecendo o crescimento de um mercado negro bilionário, constatou um estudo da London School of Economics (LSE) divulgado em maio, com grande repercussão. O estudo foi um balde de água fria na estratégia repressiva. Uma voz poderosa no coro pela descriminalização do consumo. O relatório aponta a tática uruguaia como uma boa alternativa: o presidente Jose Mujica regulamentou o cultivo e o comércio da maconha sob monopólio estatal, sem lucros.
Foi assim que o Uruguai acabou sendo visto pelo mundo como um tipo de laboratório de políticas inovadoras relativas às drogas. A sugestão da LSE é destinar as verbas hoje canalizadas em políticas repressivas e proibicionistas na guerra às drogas para uma política de saúde pública. O proibicionismo gera problemas como a corrupção, o aumento do número de presos e a ineficiência em impedir a produção e distribuição das drogas. Dos nove milhões de presos no planeta, 40% cometeram algum delito relacionado às drogas. O relatório contou com o apoio de cinco prêmios Nobel de Economia e do financista George Soros. Segundo ele, a guerra contra as drogas “é um fiasco de US$ 1 trilhão”