Por bruno.dutra

A Indonésia é a terceira maior democracia do mundo, depois da Índia e dos EUA, com 185 milhões de eleitores. Trata-se de um verdadeiro oásis entre os países com maioria de população muçulmana. Conseguiu realizar uma vitoriosa, mesmo que difícil, transição para a democracia, mantendo o pluralismo religioso. Os países que vivenciaram a Primavera Árabe amargam hoje graves desafios internos, como o Egito. Outros, como Iraque e Síria estão sendo dilacerados pela guerra civil incendiada por fundamentalistas.

À sombra de gigantes como a China e a Índia, a Indonésia, cada vez mais confiante, procura um lugar ao sol no cenário global. Os indonésios livraram-se há 16 anos do fantasma da intervenção militar, representado pelo longo governo autoritário do general Suharto (1966-1998). O país mergulhou então em reformas políticas que fortaleceram a sua democracia. Há exatos 10 anos, promoveu as suas primeiras eleições diretas.

Há dois principais atores em ação nesse pleito. O ex-governador de Jakarta, Joko Widodo (apelidado de Jokowi) tem fala mansa e é visto como um homem comum, vindo da classe média. O ex-comandante das Forças Especiais, Prabowo Subianto, com passado duvidoso no quesito direitos humanos e famoso pelo pavio curto, no entanto, tem avançado nas pesquisas nas últimas semanas, retirando a liderança de Jokowi.

Ambos sonham suceder o atual presidente Susilo Bambang Yudhoyono, prometendo fazer a economia do país crescer 7% ao ano. Hoje a Indonésia, quarta nação mais populosa do planeta, com 240 milhões de habitantes, é a 18ª economia mundial, crescendo a 5,8% ao ano (2013). Além do mais, tem a vantagem de uma população jovem: média de 28 anos. De vez em quando é citada como uma possível candidata a se tornar o segundo “I” dos BRICS.

Ambos tem desfilado uma retórica nacionalista nos debates. Prabowo tem caracterizado decisões de permitir mais investimentos estrangeiros como traição nacional. Ele bate na tecla de que a Indonésia tem perdido dinheiro para exploradores estrangeiros de seus recursos naturais. Seus discursos são frequentemente anti-ocidentais, recheados de críticas às multinacionais, como se fosse um avatar de Sukarno. Jokowi, defensor do fortalecimento de pequenas e médias empresas indonésias, promete buscar a auto-suficiência nacional em várias áreas, como a segurança alimentar e energética. Mas assessores de ambos afirmam que essa retórica é apenas para consumo público.

Por sua retórica menos agressiva, Jokowi é o preferido pelos investidores, segundo várias pesquisas. Mas um relatório, de 26 de junho, do Morgan Stanley ( “Indonesia Economics and Strategy - the Election Square-Off”) diz que não há perigo de o país sofrer significativas mudanças econômicas depois das eleições, ressaltando o forte tecido democrático da Indonésia. Há vários desafios pela frente: melhorar a educação, combater a corrupção e a desigualdade, são alguns deles.

Os dois competidores tem estilos pessoais e biografias completamente distintos. Jokowi, 52 anos, é mais humilde, um típico “outsider” da política. Filho de um carpinteiro, Jokowi foi um vendedor de móveis antes de entrar para a política em 2005, quando foi eleito prefeito da cidade de Surakarta, de porte médio, a 500 km da capital Jacarta. Em 2012, foi eleito governador de Jakarta. Um cruzado anti-corrupção, Jokowi evitou os tangíveis sinais de poder, como carros da moda. Anda pelas ruas ouvindo as queixas das pessoas em primeira mão.

Durante a campanha, seus adversário espalharam a notícia de que Jokowi seria um cristão escondido no armário. Para rebater os boatos — bastante prejudiciais em um país onde mais de 87% de sua população é muçulmana — ele fez circular suas imagens entre líderes religiosos islâmicos e em peregrinação a Meca.

Prabowo, 62 anos, por outro lado, é um ex-general, e ex-genro do ditador militar Suharto. Seus críticos o veem como parte do velho regime autoritário que dominou a Indonésia por três décadas. As acusações mais graves contra ele são de grupos em defesa dos direitos humanos. Ex-chefe das Forças Especiais no fim da era Suharto, Prabowo é acusado de ter participado, em 1998, do sequestro de 23 ativistas pró-democracia, sendo que 13 desapareceram.

Mas nada disso tem se mostrado eficiente para estragar a sua imagem de homem forte capaz de proteger a Indonésia de eventuais interesses externos escusos. Com forte senso teatral e bom de lábia, Prabowo chegou a aparecer em um comício montado em um musculoso cavalo, com pose imperial que faz lembrar a do ex-presidente João Baptista Figueiredo.

Dono de um temperamento forte e irascível, Prabowo tem sido apontado pelos adversários como um saudosista dos tempos da caserna. Mas ele nega qualquer intenção de volta ao temp+o. Vários analistas afirmam que a consolidação democrática da Indonésia não permitiria isso. Candidato mais rico do pleito indonésio, tem uma fortuna avaliada em US$ 148 milhões, enquanto Jokowi ostenta riqueza bem mais magra: US$ 2,5 milhões.

A campanha de Prabowo é apoiada por uma musculosa mídia: ele é amigo dos dois principais magnatas da televisão do país, cujos canais são assitidos por mais da metade dos espectadores indonésios. A peça de campanha que mais causou polêmica foi um vídeo musical com fortes tonalidades nazistas, feito por cantores como tributo a Prabowo. Foi uma adaptação do clássico “We Will Rock You”, da famosa banda Queen. O músico Ahmad Dhani usa no vídeo um uniforme no estilo fascista e segura uma garula de ouro: um pássaro da mitologia indonésia que lembra a águia imperial germânica usada na iconografia nazista.

O vídeo viral fez a revista alemã Der Spiegel publicar em seu website uma foto-galeria mostrando como a roupa militar do cantor era de fato similar ao uniforme usado pelo comandante da SS, Heinrich Himmler. Até mesmo Brian May, guitarrista do Queen, meteu sua colher na polêmica, ressaltando que o vídeo não tinha a autorização dos músicos que formaram a célebro banda de rock. O vídeo de fato fez juz ao título da música: “Nós vamos balançar você”.

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