O tigre e as moscas

Muitos poderosos da elite política chinesa tremeram nas bases no último dia 29

Por bruno.dutra

O governo do presidente Xi Jinping anunciava que Zhou Yongkang estava sendo investigado por denúncias de corrupção. Ex-chefe da polícia secreta da China, um verdadeiro tsar da segurança do país de 2007 a 2012, Zhou chefiava centenas de milhares de policiais e agentes paramilitares, com orçamento anual de bilhões de dólares. Com 71 anos, já aposentado, ele havia supervisionado as grandes empresas de energia do país. Ex-integrante do Comitê Central do PC, ele desaparecera do público no fim de 2013. Aparentemente, estava em prisão o domiciliar.

Vários parentes seus, ex-assessores e aliados políticos têm sido presos em uma campanha para destruir sua rede de apoio político. Bens da família de Zhou — avaliados em mais de US$ 14 bilhões — já haviam sido confiscados em março. Na China dos tradicionais expurgos, anunciar que alguém está sendo investigado é um sinônimo de que a vítima já está condenada. O caso de Zhou foi o mais barulhento desde o famoso julgamento do “Bando dos Quatro”, em 1980, quando caíram em desgraça dirigentes da Revolução Cultural (1966-1976), entre eles Jiang Qing, viúva de Mao Tsé Tung, o “Grande Timoneiro”, como era chamado, que levou os comunistas ao poder em 1949. Zhou — também chamado de “o grande tigre” — foi a mais importante autoridade a ser acusada de corrupção. 

Até o anúncio de que ele era a mais nova presa da caçada aos corruptos, a imprensa oficial chinesa não cobria em detalhes a briga de poder que envolveu a desgraça e queda de Zhou. Havia apenas notícias indiretas sobre as atividades ilícitas de pessoas ligadas a ele, sem que o nome Zhou fosse citado. Só entendia o que estava acontecendo quem lia nas entrelinhas, como de costume.

Apenas um mês antes da caça a Zhou, outro figurão, embora muito menos poderoso do que o ex-tsar da segurança chinesa, havia sido expurgado: Xu Caihou, o ex-vice chefe da Comissão Central Militar, o segundo mais importante no ranking do Exército de Libertação do Povo. A cruzada anti-corrupção do presidente Xi Jinping foi desencadeada há 20 meses, quando ele assumiu o poder. Não tem precedentes. Até agora, a campanha atingiu pelo menos 36 funcionários de alto escalão.

Hu Jintao, antecessor de Xi, havia caçado 29 nos três primeiros anos de seu governo.  Quase 63 mil funcionários de baixo escalão foram “disciplinados”, como se diz no jargão da política chinesa, nos primeiros cinco meses desse ano, segundo o “Diário do Povo”, órgão oficial do PC chinês. Ou seja, 35% a mais do que em 2013.“O macarrão instantâneo que cozinhava há tanto tempo finalmente está pronto para ser servido. Isso foi um marco. A campanha anti-corrupção finalmente cumpriu sua promessa de não ter limites em seus alvos. A luta vai se tornar mais e mais intensa a partir de agora”, escreveu em seu microblog, o cientista político Zhang Ming, referindo-se ao caso Zhou.

Muitos poderosos da elite do partido estão na corda bamba com essa anunciada tsunami de expurgos. Um deles é o ex-presidente Jiang Zemin, 87 anos, cuja esfera de influência concentra-se em Xangai, a capital comercial chinesa que acabou de entrar no radar da campanha anti-corrupção. Zemin ocupou a presidência entre 1993 e 2003. Seu grupo dentro do Partido Comunista ficou conhecido nos bastidores como “Gangue de Xangai”. Obviamente não se trata apenas de uma faxina chinesa. Vários outros fatores levaram Xi Jinping a passar a vassoura no seu entorno.

Um deles é a eliminação de adversários, motivo tão antigo quanto a milenar civilização chinesa. A campanha tem forte caráter político. Afinal, a decisão de investigar esse ou aquele não é tomada pela polícia ou um procurador. A tarefa está nas mãos da Comissão Central para Inspeção de Disciplina, órgão do PC. Trata-se também de uma batalha pela sobrevivência do partido, cuja legitimidade começa a ser arranhada aos olhos do cidadão chinês por causa da corrupção oficial, com compra e venda de postos do governo. A obsessão por lucro material na Nova China é uma fraqueza que mina a imagem do PC.

Outro gatilho da campanha é a necessidade de limpar o caminho para fazer ambiciosas reformas, já que há vários grupos de interesses no meio do caminho, resistentes às mudanças. Xi Jinping não quer repetir o exemplo de Hu Jintao e terminar seu mandato sem ter promovido profundas mudanças. Muitos apostam que Xi procura um lugar na história, como Deng Xiaoping, que ele tanto admira. Deng passou à posteridade como o responsável pela revolução econômica que transformou o “Império do Meio” na segunda maior economia do mundo, ao abrir o país às regras do mercado no fim dos anos 70.

Xi quer ser lembrado como o líder da China em uma nova era de reformas e crescimento, um dos responsáveis por assegurar que o século XXI seja o século da China. A faxina e seus reais motivos já começa a desencadear um intenso debate dentro e fora do país . De qualquer forma, Xi prometeu caçar não só os poderosos tigres como as pequenas moscas, funcionários de menor projeção. Até agora, Zhou foi o mais feroz tigre capturado. Qual será o próximo?

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