Quarenta e três não é mais um número. Se transformou em um dos mais poderosos símbolos da violência, da conivência policial com o narcotráfico, e do total desrespeito aos direitos humanos. Foram 43 alunos da faculdade de professores rurais de Ayotzinapa, no estado de Guerrero, Sul do México, que desapareceram no dia 26 de setembro, após um protesto contra a discriminação nas contratações.
Testemunhas contam que policiais teriam entregue os estudantes, que tinham cerca de 20 anos, para o cartel de narcotráfico da cidade de Iguala, o Guerreros Unidos. Na noite do protesto, seis corpos foram encontrados: um deles tinha os olhos e a pele do rosto arrancados. O caso dos 43 jovens repercutiu tanto que trouxe à tona para a opinião pública mundial a informação de que cerca de 20 mil mexicanos teriam sumido nos últimos oito anos.
Desde que o presidente mexicano Enrique Peña Nieto assumiu o poder em 2012, o governo fez uma maciça campanha publicitária enaltecendo as belezas naturais do país, o talento de seus artistas, e a qualidade de seus empreendedores. Fora do país, a imagem de Peña Nieto era a de um governante que iria recriar o México, modernizando-o com suas reformas que abriram os setores da energia e de telecomunicações. Tudo foi feito para esconder as “maçãs podres” desta que é a segunda economia da América Latina: a praga dos cartéis de narcotraficantes que dominam parte do país e se infiltraram nas instituições.
Mas eis que aconteceu o sumiço dos 43 estudantes. Todo o esforço de camuflagem foi por água abaixo. De início, as autoridades trataram o caso como mais um dos crimes locais, tão comuns. Mas as manifestações dentro do país foram inchando e atravessaram as fronteiras. Não há um dia em que os mexicanos deixem de protestar. Até agora a polícia federal não conseguiu descobrir os corpos dos 43 alunos. Mas encontrou mais de 10 valas comuns no Sul do país. Só neste ano foram achados mais de 150 corpos no estado de Guerrero. A PF mexicana, que foi obrigada a assumir o comando em pelo menos 12 cidades no Sul, constatou que boa parte da polícia local trabalhava para os cartéis.
O narcotráfico também se infiltrou na política. José Luis Abarca Velázquez, prefeito de Iguala, cidade onde os estudantes sumiram, e sua esposa, Maria de los Ángeles Pineda Villa, filha e irmã de membros do cartel local, fugiram e acabaram sendo capturados nesta semana. Ambos são apontados como mandantes do sumiço e provável assassinato dos estudantes.
Em um artigo para a revista “Dissident”, Benjamin T. Smith, professor de história latino-americana da Universidade de Warwick, que atualmente trabalha na elaboração de um livro sobre o tráfico de drogas no México, jogou uma luz sobre a forma como o governo tenta manipular as informações para dar a impressão de que estaria limpando o país do mal do narcotráfico.
Em junho, quatro grandes cartéis de drogas assinaram um pacto: Jalisco Nueva Generación (CJNG), Juárez, Beltrán Levya e Zetas. No dia 29 de agosto, fontes dos serviços de inteligência americano e mexicano vazaram essa informação, lembrou Smith. O governo mexicano usou a divulgação desta aliança para tentar mostrar que a polícia federal teria tido sucesso em desmembrar os cartéis.
Foi Richard Nixon que, no fim dos anos 60, começou a arrastar o governo mexicano para o que as administrações americanas chamam de “guerra às drogas”,ressalta Smith. Essas guerras intermináveis têm tido efeitos cada vez mais questionáveis e criticáveis por especialistas no assunto, não só na América Latina, mas também em outros partes do mundo: o Afeganistão, por exemplo, onde as tropas americanas e da OTAN completaram 13 anos de atuação, é produtor mundial de haxixe e ópio. No caso da América Central e do México, o aumento da violência derivada do tráfico só contribui para gerar mais ondas de migrantes na direção dos EUA.
Os governos mexicanos se alinharam com determinação às políticas anti-drogas de caráter militarista promovidas até hoje por Washington. As prisões de grandes chefões do tráfico mexicano sempre foram utilizadas como “provas” de que os governos estariam agindo seriamente para desmantelar o crime organizado. Mas, na verdade, observa Benjamin Smith, a única coisa que acontecia era a reorganização do tráfico de drogas.
Há hoje um novo perfil do crime organizado mexicano, segundo o estudioso. Cartéis homogêneos se fragmentaram em incontáveis gangues localizadas, como o Guerreros Unidos que desapareceu com os 43 alunos em Iguala. Hoje, esse grupo criminoso combina o comércio ilegal de drogas com sequestros, prostituição e tráfico de pessoas.
A mídia mexicana tem dado conta de que a infiltração do tráfico é tão ampla em tantas esferas do poder que poderia chegar perto do esquema de segurança do presidente Peña Nieto. O campo de golfe favorito do governante fica em Ixtapan de la Sal, uma espécie de resort presidencial a duas horas de distância da Cidade do México. Mas Ixtapan ficou famosa porque recentemente a PF deteve toda a polícia local, que foi levada para quartéis do exército para averiguações: 80 policiais estariam na folha de pagamento do Guerreros Unidos, justamente o cartel apontado como o responsável pelo sumiço dos 43 estudantes. </CW>[THE STUDENTS][/THE STUDENTS]