Desde maio, o país é governado pelo partido nacionalista hindu do primeiro-ministro Narendra Modi. Os radicais passaram a se sentir cada vez mais fortalecidos para exigir censuras a filmes e até para forçar outras comunidades religiosas a se converterem ao Hinduísmo. Cristãos e muçulmanos estão no mesmo barco na Índia. São minorias (embora numerosas) em um país de maioria hindu.
Mas o próprio sucesso do filme “PK” indica que os militantes radicais hinduístas não estão sintonizados com a grande maioria. Mesmo assim, seu fortalecimento é preocupante, como a própria história recente da Índia mostra. Embora o primeiro-ministro Narendra Modi seja conhecido por suas ideias radicais, após assumir o poder ele passou a imagem de um governante centrado exclusivamente na promoção dos negócios e do crescimento econômico.
Mas ultimamente os violentos grupos hindus de extrema-direita, que historicamente se inspiraram no fascismo europeu, têm feito muita pressão. O Natal de parte dos cristãos indianos, principalmente os de origem indígena, não foi fácil.
Os extremistas hindus ameaçaram, às vésperas do dia 25, realizar cerimônias de conversão em massa no estado de Uttar Pradesh (com uma população do tamanho da do Brasil). Uma das cidades mais visadas é Aligarh, que não apenas abriga cristãos, mas muçulmanos também.
As ameaças de conversões em massa de cristãos e muçulmanos até agora foram ignoradas pelo primeiro -ministro, que não se pronunciou, o que preocupa grupos em defesa dos direitos humanos e da liberdade religiosa.
Um dos maiores fantasmas deste país é a violência entre comunidades que seguem diferentes religiões: os conflitos mais frequentes são entre hindus e muçulmanos, estes últimos representando cerca de 16% da população indiana, a minoria religiosa mais expressiva da Índia, com 80% de hindus. Mas um massacre na década de 80 apavorou os habitantes de Nova Délhi, a capital do país: milhares de Sikhs foram mortos nas ruas ou em suas casas por turbas de hindus enfurecidos. Isso porque dois guarda-costas sikhs da então primeira-ministra Indira Gandhi a assassinaram a tiros.
Desde o início do século 20 a Índia é assombrada pelos defensores da chamada Hindutva, a filosofia nacionalista hindu. No dia 30 de janeiro de 1948, seus seguidores assassinaram o líder pacifista Mahatma Gandhi porque ele defendia uma Índia secular, aberta a todas as religiões, em um momento em que o país vivia o trauma da Partição, que resultou na criação do Paquistão, para onde migrou boa parte dos muçulmanos da Índia. Isso enfureceu os extremistas hindus, que criticavam a “ahimsa” (não-violência) pregada por Gandhi, uma ideia que, eles diziam, “mutilava” os hindus.
A Índia é um verdadeiro caldeirão espiritual. Quatro crenças nasceram na região: além do Hinduísmo, o Budismo, o Jainismo e o Sikhismo. Quatro outras receberam abrigo entre os indianos: o Cristianismo, o Zoroastrismo, o Judaísmo e o Islamismo. Mas os vários governos, desde a independência, promovem censura às obras de escritores, jornalistas, artistas e cineastas, alegando que elas ferem os sentimentos religiosos desta ou daquela comunidade.
A Índia foi o primeiro país a proibir o livro “Versos Satânicos”, de Salman Rushdie, em 1988: o governo fez isso, sob pressão da comunidade islâmica, com medo de que atos violentos contra livrarias acabassem acendendo ódios e massacres comunais. O lobby dos cristãos indianos fez com que o governo proibisse também o livro “Código da Vinci” (2003), por questionar a divindade de Jesus Cristo, e depois o filme com o mesmo título. As censuras a obras de arte já viraram um hábito. Tudo em nome de Jesus, de Shiva, ou de Alá. O fundamentalismo religioso é uma praga que atinge gregos e troianos.