Por douglas.nunes

Rio - A crise energética tem rendido bons dividendos para o setor de distribuição de gás canalizado, responsável pela entrega do combustível às usinas termelétricas. Em seus balanços referentes ao desempenho em 2013, os dois maiores grupos do setor apontaram aumento expressivo nas atividades do setor - contribuindo com o aumento dos lucros no período -, que teve maus resultados no segmento industrial. A preocupação, porém, é com a imprevisibilidade do segmento, que só opera quando falta água nos reservatórios das hidrelétricas, o que motiva um esforço para a conquista de novos mercados. Gás natural veicular e residências são as apostas.

No balanço divulgado na última sexta-feira, a CEG, concessionária que atende a região metropolitana do Rio, apontou crescimento de 75,1% no segmento de geração de energia - que, ao lado do residencial, foi o único que teve desempenho positivo em 2013. "O despacho para as térmicas ficou em torno de 7,6 milhões de metros cúbicos por dia, quando em 2012 foi de cerca de 4,4 milhões de metros cúbicos por dia", escreveu a companhia, no documento divulgado ao mercado. Pela primeira vez, o mercado de geração de energia ultrapassou os mercados convencionais.

No caso da Comgás, que entrega o combustível para a região metropolitana de São Paulo, as vendas para termelétricas cresceram 43% durante o ano, para uma média de 2 milhões de metros cúbicos por dia - a Comgás abastece apenas duas térmicas, enquanto a GasNatural tem três usinas como clientes (uma quarta entrou em operação este ano, com impacto já no resultado do primeiro trimestre). "Essa variação deve-se ao fato da usina termoelétrica estar despachando próximo de sua capacidade máxima em 2013. No ano, o segmento representou 14% do volume total de gás vendido e uma margem de contribuição de 2%", comenta a Comgás, também na demonstração do resultado anual.

A expectativa do mercado é que o desempenho do setor mantenha-se positivo neste início de ano, já que as térmicas voltaram a operar a plena carga no primeiro trimestre de 2014. Na semana passada, a Petrobras anunciou recorde de entrega de gás natural no país, ultrapassando pela primeira vez a marca dos 100 milhões de metros cúbicos vendidos na última quarta-feira. O feito, diz a estatal, deve-se "principalmente ao forte aumento da geração de energia termelétrica, que atende ao despacho solicitado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS)". Do volume recorde, 42,5 milhões de metros cúbicos foram entregues a térmicas.

Com os reservatórios das hidrelétricas em níveis baixos, especialistas projetam que as térmicas continuarão gerando por um período mais longo este ano. Na sexta-feira, a Câmara Comercializadora de Energia Elétrica (CCEE) informou que o Preço de Liquidação de Diferenças (PLD), que rege os contratos de curto prazo do setor energético e é calculado com base nos volumes de energia armazenados nas hidrelétricas, permanecerá no teto de R$ 822,23 por megawatt-hora (MWh) pela nona semana seguida. "Mas é um mercado imprevisível, que pode não se confirmar em anos seguintes", comenta o presidente da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), Augusto Salomon.

Por isso, há grande esforço das companhias para retomar o crescimento em mercados convencionais. Desde o ano passado, há campanhas para incentivar o uso de gás natural veicular, que vem apresentando retração desde meados da década passada. No ano passado, as vendas das duas empresas para o segmento automotivo tiveram queda - 2,2% na CEG e 9,8% na Comgás. A distribuidora fluminense, porém, comemora um avanço de 0,2% no número de conversões de veículos para o combustível no ano.

A Comgás, por sua vez, tem tido uma atuação bastante agressiva no varejo e conseguiu um crescimento de 13% nas vendas ao segmento residencial, resultado de investimentos em expansão da rede e de parcerias com construtoras, que "têm maior conhecimento das vantagens que o gás encanado oferece ao consumidor final" e representaram a maior parcela da alta nas vendas para o segmento. A companhia fechou 2013 com um incremento de 3,8% nas vendas totais,impactadas por uma queda de 9,6% no segmento de cogeração de energia. No caso da CEG, as vendas totais cresceram 33% no ano e garantiram um aumento de 17,52% no lucro líquido do período, que chegou a R$ 341,2 milhões. A Comgás lucrou R$ 620 milhões, 67% a mais do que em 2013.

Com alta em fevereiro, consumo automotivo é uma das apostas

O consumo de gás natural veicular (GNV) registrou alta em fevereiro, com um volume 7,57% superior ao registrado no mês anterior, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), que credita a alta a vantagens econômicas com relação a outros combustíveis. "Os consumidores pagaram em média 35,2% a menos pelo combustível em relação à gasolina e 15,9% a menos em relação ao etanol, de acordo com levantamento de preços da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP)", diz a entidade.

Segundo o presidente da Abegás, Augusto Salomon, há campanhas de incentivo ao uso do combustível em diversas distribuidoras pelo país, além da CEG e da Comgás. Em Minas Gerais, por exemplo, a Gasmig concedendo bônus, em volumes de gás, para consumidores que optarem pelo combustível. Em dois anos, diz a empresa, foram 2,7 mil adesões. A empresa faz também um esforço de parceria com municípios, para conversão de frotas para o gás natural. O setor também trabalha junto a montadoras para a produção de veículos movidos a GNV.

Amplamente disseminado no Rio, mas com pequena penetração pelo país, o uso do GNV apresentou expressivo crescimento na primeira metade da década passada - impulsionado por um programa de massificação no consumo de gás natural capitaneado pela Petrobras - mas foi contido pelo governo, com medo de falta do combustível para outros mercados. Em 2008, a presidente Dilma Rousseff, então Ministra da Casa Civil, chegou a declarar que o uso do combustível em automóveis era injustificável. Desde então, o mercado vem se mantendo estagnado.

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