A fabricante de celulose Fibria aposta na venda de energia como forma de reduzir seu custo de produção e ampliar o faturamento. Resultante da fusão entre Aracruz e Votorantim Celulose, em 2008, a companhia gerou no ano passado 115% da energia necessária ao processo de produção de celulose. Para 2014, a perspectiva é de um aumento da receita proveniente da comercialização do excedente de energia gerado, informou ontem a empresa, durante a divulgação de resultados do primeiro trimestre.
A Fibria não divulgou o valor obtido com a venda de energia, limitando-se a informar que este tipo de operação “representa um redutor do custo de produção”. Apenas uma parte do excedente foi negociada no mercado spot (com pagamento à vista e entrega imediata). “A maior parte da receita vem da energia vendida no mercado de longo prazo”, comenta Lenon Borges, analista da Ativa Corretora. Do total gerado em 2013, 91% vieram de fontes renováveis, pela queima de licor negro e casca de madeira, ambos derivados do processo de produção da celulose.
“Somos majoritariamente exportadores de energia”, afirmou Marcelo Castelli, diretor-presidente da Fibria, em teleconferência com analistas realizada ontem. O executivo destacou que o cenário atual de altos preços da energia no mercado spot beneficia diretamente a Fibria, gerando mais receita para a companhia. A autossuficiência também torna a companhia imune a um possível racionamento energético, diz Borges, da Ativa. Entre os grandes exportadores brasileiros de papel e celulose, a Suzano gera praticamente toda a energia que consome. “Suas plantas de celulose são autossuficientes e as de papel compram 50MW/h (megawatts/hora)”, acrescenta Borges. Em operação desde janeiro, a unidade de Imperatriz (MA) — da Klabin — deve gerar 100GW/ano (gigawatts/ano) quando estiver operando a plena capacidade.
Entre janeiro e março deste ano, a Fibria obteve receita líquida de R$ 1,64 bilhão, montante 16,1% inferior ao registrado no trimestre anterior. Em relação ao mesmo período de 2013, houve incremento de 13,3%. O lucro líquido da companhia nos primeiros três meses do ano foi de R$ 19 milhões, ante um prejuízo de R$ 185 milhões entre outubro e dezembro de 2013. Um dos fatores que mais impactaram o lucro líquido foi a recompra de títulos da dívida com vencimento em 2020, que totalizou R$ 303 milhões no primeiro trimestre deste ano. “Excluindo o efeito dessa operação, o lucro líquido do período teria sido de R$ 219 milhões”, frisou o diretor-presidente da Fibria. Anunciada no ano passado e concluída em março, a recompra vai proporcionar uma economia anual de juros no valor aproximado de US$ 52 milhões.
Como consequência dessa estratégia de redução da alavancagem, a relação dívida líquida/Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização ) encerrou o primeiro trimestre no patamar de 2,4 vezes. Ao fim de dezembro do ano passado, esse indicador estava em 2,8 vezes, enquanto em março de 2013 era de 3,1 vezes. “Adotamos uma estratégia de diminuição da alavancagem com foco na obtenção do grau de investimento”, resumiu Castelli. O esforço foi recompensado pela agência de classificação de risco Fitch, que elevou o rating da Fibria para BBB-/Estável (grau de investimento).
O Ebitda ajustado da companhia somou R$ 679 milhões entre janeiro e março, um incremento de 20,2% em relação ao mesmo período do ano anterior. No primeiro trimestre de 2014, 46% das vendas da Fibria foram direcionadas para a Europa, 19% à América do Norte, 26% para a Ásia e 9% tiveram como destino o Brasil e outros países.
Longe de ser uma estratégia apenas dos produtores de celulose, a comercialização de energia excedente também é uma realidade no setor siderúrgico, conforme atestam os resultados divulgados ontem pela Usiminas. A companhia faturou R$ 75 milhões com a venda de energia elétrica no primeiro trimestre. “A cogeração — produção de vapor e energia elétrica a partir de uma só queima de combustível — é comum em setores como siderurgia e papel e celulose”, explica Nelson Oliveira, presidente da Ecogen Brasil, empresa voltada para a área de eficiência energética. Na avaliação de Oliveira, o país sempre caminhou no sentido contrário à cogeração, estimulada em todo o mundo. “No Brasil, todos os incentivos foram sempre no sentido de baixar o preço da energia elétrica. Por isso, os empresários tinham pouco estímulo para investir em cogeração”, argumenta. “Agora, com a alta da energia no mercado spot, eles estão percebendo as vantagens”, conclui.