O inferno astral da Mabe Brasil — fabricante de eletrodomésticos das marcas GE, Continental e Dako — parece longe de terminar. Afundada em dívidas de mais de R$ 430 milhões, a empresa vem perdendo mercado para as concorrentes Electrolux e Whirlpool. Só ano passado, a companhia perdeu nove pontos percentuais no segmento de fogões, no qual chegou a ser a segunda maior do país, segundo dados da Euromonitor International, empresa britânica de análise de mercado.
“Se analisarmos a expansão ano contra ano em 2013, a Electrolux teve um crescimento em termos de volume de 35%, bastante alinhado com o declínio das marcas Dako e Continental, da Mabe”, informou Cristina Baus, analista da Euromonitor, em relatório sobre a Mabe divulgado neste mês. “A Whirlpool também se beneficiou, embora de uma maneira não tão óbvia, contabilizando crescimento de suas marcas Brastemp e Consul”. Cristina lembra que, em 2013, a Brastemp chegou ao primeiro lugar no segmento de fogões no Brasil ao tomar a liderança da Esmaltec, do Grupo Edson Queiroz. Entre 2009 (quando atingiu seu pico de vendas) e 2013, a Mabe Brasil perdeu 18 pontos percentuais de market share no segmento de fogões, segundo o Euromonitor.
No Brasil desde 2003, a empresa de origem mexicana adquiriu naquele ano a CCE Eletrodomésticos. Em 2005, lançou a marca GE e, três anos depois, foi a vez da Mabe. Afetada pela crise econômica mundial iniciada em 2008, a Mabe ainda teve fôlego financeiro para comprar a BSH Continental, em 2009, mas viu sua saúde financeira se deteriorar por conta do incremento nos custos de produção, não repassados aos consumidores. A pressão sobre o caixa da companhia aumentou com o alongamento do prazo de pagamento de clientes varejistas, a insuficiência na demanda e, mais recentemente, com a alta nos índices de inflação e o câmbio menos favorável.
Em maio do ano passado, a Mabe fechou sua fábrica em Itu (SP), o que ocasionou o corte de 1.300 empregos, entre diretos e indiretos, de acordo com o Sindicato dos Metalúrgicos de Itu e Região. Foram mantidas as operações nas unidades de Campinas e Hortolândia, ambas em São Paulo, que somam atualmente cerca de 2.600 empregados. “A meta da empresa é voltar ao tamanho que tinha em 2008”, diz Jair dos Santos, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e Região, referindo-se ao plano de recuperação judicial da Mabe. Aprovado pela maioria dos credores da companhia em outubro do ano passado, o plano foi homologado pela Justiça em 9 de janeiro, mas está longe de ser uma unanimidade. “A Mabe se aproveitou de uma brecha na legislação brasileira para fazer uma reestruturação produtiva”, ataca Santos. “Em nenhum momento a empresa apresentou qualquer sintoma de que iria quebrar.”
Depois de fazer mais de R$ 320 milhões em investimentos, a matriz mexicana decidiu em março do ano passado reduzir sua participação na Mabe Brasil. Desde o segundo trimestre de 2013, a companhia deixou de controlar a subsidiária brasileira. “A recuperação judicial de uma empresa controlada por outra no exterior é muito rara”, afirma Artur Lopes, co-autor do livro “Recuperação judicial: Um guia descomplicado para empresários, executivos e outros profissionais de negócios”. Normalmente, a matriz socorre as subsidiárias em dificuldades financeiras por meio de aportes, explica Lopes, diretor de uma consultoria na área de gestão.
“Apesar da tentativa da matriz, a Controladora Mabe, de se distanciar das dificuldades enfrentadas no Brasil alegando ter uma participação minoritária no negócio, o fato de as vendas no país em 2013 terem representado 29% das vendas globais da companhia significa que será difícil para ela deixar de lado este mercado, que afinal de contas é o segundo mais importante para a empresa depois do México”, analisou Cristina Baus, da Euromonitor. Mesmo enfraquecida, a empresa ainda é a terceira maior do seu segmento no Brasil, atrás apenas da Whirlpool e da Electrolux. “Isso significa que, ou a Controladora Mabe terá de investir o necessário para retomar suas operações normais, ou vai buscar outros investidores, o que pode significar uma oportunidade interessante de fusão e aquisição no país em breve”, concluiu a analista.
Sueca e americana lucram no mercado internacional
Segunda maior fabricante de eletrodomésticos do mundo, a sueca Electrolux acredita que a demanda no Brasil continuará a cair no segundo trimestre, segundo revelou o presidente executivo da companhia, Keith McLoughlin, na última sexta-feira. Para o executivo, a recuperação no mercado brasileiro virá na segunda metade do ano.
No primeiro trimestre de 2014, a Electrolux registrou lucro operacional ajustado de 749 milhões de coroas suecas (US$ 114 milhões). O resultado foi 4% maior que o obtido no mesmo período do ano anterior (720 milhões de coroas suecas). A empresa informou que mercados como Alemanha, França e Itália mostraram uma retomada nos três primeiros meses do ano e acrescentou que, em 2014, a demanda deve crescer entre 1% e 3% na Europa. O continente responde por cerca de um terço das vendas da Electrolux.
Embora haja tendência de aumento no volume de vendas para a Europa, a companhia alertou que haverá pressão sobre os preços. Auxiliado por cortes de custos, o lucro operacional da Electrolux na Europa subiu para 142 milhões de coroas suecas (US$ 21,59 milhões) no trimestre.
A companhia — que vende produtos das marcas Frigidaire, AEG, Zanussi e Electrolux — manteve em 4% sua projeção de crescimento no mercado dos Estados Unidos, apesar de um início difícil no ano, quando o inverno severo afetou o volume de vendas.
A concorrente Whirlpool, maior do mundo no segmento de eletrodomésticos, divulgou também na sexta-feira seu lucro líquido para o período de janeiro a março: US$ 160 milhões (US$ 2,02 por ação). O montante significou uma queda frente aos US$ 252 milhões (US$ 3,12 por papel)registrados no mesmo período de 2013. Mas, de acordo com a companhia, excluindo-se um crédito fiscal de 2013 e custos de reestruturação neste ano, o lucro por ação foi de US$ 2,20 no trimestre, ante US$ 1,97 por papel no ano passado.
Nos primeiros três meses do ano, a Whirlpool apresentou forte aumento nas vendas na maior parte do mundo, incluindo a Europa e a América do Norte. Esse incremento compensou efeitos do câmbio e de outros ventos desfavoráveis vindos da América Latina e da Ásia. A companhia — que vende máquinas de lavar e secadoras, fogões e geladeiras sob marcas que incluem a Whirlpool, Maytag, Brastemp e Consul — informou que suas vendas cresceram 4,7% para US$ 4,4 bilhões. Segundo a companhia, as vendas tiveram expansão de 4% na América do Norte, ritmo similar ao atingido na Europa. As vendas também aumentaram na América Latina e na Ásia, mas custos mais altos de materiais e variações cambiais impactaram a lucratividade nestas regiões.
A Whirlpool disse esperar que as vendas da indústria para o ano inteiro aumentem entre 5% e 7% na América do Norte. Na Europa, a perspectiva é de estabilidade ou de um aumento de 2%, enquanto na América do Sul as vendas tendem a permanecer sem alterações. Na Ásia, a estimativa é de um cenário entre a estabilidade e um crescimento de até 3%.