Por marta.valim

O ano era 1990. Munido de um computador 286, uma linha telefônica e uma boa dose de audácia, o autoditada Aleksandar Mandic criou um sistema que as pessoas pudessem trocar informações à distância, próximo daquilo que se conhece hoje por mensagens instantâneas. No início, suas horas eram divididas entre o emprego com carteira assinada na Siemens e as madrugadas dedicadas à Mandic BBS, empresa criada e instalada em um pequeno quarto de hóspedes na casa do executivo. Com a chegada da internet, o negócio evoluiu para a oferta de conexão à rede, até ser vendido para o grupo Impsat, em 1999. O comportamento inquieto, porém, levou Mandic a novas empreitadas. A trajetória incluiu a participação na criação do portal iG; a retomada da Mandic, em 2002, com a oferta de serviços de e-mail corporativo; e a posterior venda do controle da operação para o fundo Riverwood Capital, dez anos depois, por R$ 100 milhões. A julgar pela disposição do executivo de 60 anos, no entanto, suas curvas e caminhos para desbravar o mundo digital estão apenas começando.

“Você já viu um artista se aposentar? Picasso não tirava férias. Paulo Autran morreu quase no palco. Eu sigo a mesma filosofia. Só faço o que gosto e não tenho medo de errar. O erro não tem compromisso. Se você tem uma ideia, precisa executá-la, pois do contrário, aí é que ela não dará certo mesmo”, observa.

A mais nova peça na coleção de Mandic é um aplicativo gratuito, que funciona como uma espécie de rede social que reúne senhas de redes Wi-Fi de diversos estabelecimentos. A ideia é simples. Uma pessoa consulta a senha de um determinado local e a cadastra no aplicativo, batizado de Mandic Magic. A partir do compartilhamento dessa informação, qualquer usuário consegue identificar automaticamente as senhas das redes mais próximas à sua localização.

Lançado em março de 2013 na Apple Store, o aplicativo gratuito nasceu como um passatempo e contou com a ajuda do amigo programador Eduardo Mauro. Em pouco mais de um ano, a brincadeira ganhou tração. Hoje, o aplicativo já tem mais de 5 milhões de usuários e está disponível também para Android e Windows Phone. Cerca de 70% dos downloads são do Brasil e o restante está dividido entre diversas localidades, do Egito até Montenegro. “O aplicativo cai como uma luva para países nos quais o 3G é muito precário e a conectividade é muito cara”, diz Mandic.

O rápido crescimento já está chamando a atenção de investidores. Segundo Mandic, o grande questionamento desses possíveis parceiros é se a operação já atingiu o ponto de equilíbrio. “Eu digo que já estamos no break even, pois não temos receita, nem despesa”, brinca. “O que investimos foi tempo”. Os fundos que andam batendo à porta de Mandic avaliam o negócio em US$ 60 milhões. “Os números sempre mandam. Não adianta você ser idealista. Mas acredito que ainda não atingimos o potencial desse negócio. Quero US$ 1 bilhão. Sem troco. Esse é o nosso objetivo. E para atingir essa escala, vamos buscar audiência”, afirma.

A meta de Mandic é alcançar 100 milhões de usuários em um prazo de dois a três anos. Para isso, os próximos passos incluem o desenvolvimento de novos recursos no aplicativo. Entre outras funções, a ideia é costurar parcerias para a oferta de serviços para a reserva de restaurantes, agendamento de táxis e compra de passagens aéreas. O aplicativo continuará gratuito. As receitas virão de comissões relacionadas a essas ofertas. 

O projeto não envolve, porém, grandes investimentos em equipe e estrutura. Para Mandic, o estágio atual da tecnologia permite superar barreiras que limitavam o empreendedorismo nos primórdios da internet, especialmente no Brasil. “Não tínhamos know how, tecnologia e mercado. Hoje, temos tudo isso. O Mandic Magic atingiu esse volume com apenas duas pessoas. Nossos servidores estão na nuvem. Nossa página está no Facebook. Não tenho que me preocupar com essas questões. A grande sacada, na verdade, é descobrir algo que ninguém esteja fazendo. Esse é o grande desafio”, diz.

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