“Há um enorme potencial para as empresas serem bem sucedidas fora do país”

O diretor-superintendente da AmCham Rio, Rafael Lourenço, aponta os benefícios da internacionalização e dá dicas a empresários que buscam o mercado externo

Por marta.valim

A taxa de internacionalização das multinacionais brasileiras em 2013 foi de 22,9%, uma alta de 1,6% em relação a 2012, segundo pesquisa divulgada na quarta-feira pela Fundação Dom Cabral. Para o diretor-superintendente da Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro (Amcham Rio), Rafael Lourenço, essa taxa está muito aquém das possibilidades de desenvolvimento do país. Os motivos, segundo ele, são velhos conhecidos: o custo Brasil e a falta de competitividade das empresas brasileiras em comparação com as de outros países. O especialista destaca, contudo, que “há um potencial enorme para [as empresas brasileiras] serem bem sucedidas fora do país” e dá dicas aos empresários interessados em ter uma presença no exterior.

Segundo a pesquisa Empreendedorismo no Brasil de 2013, que faz parte da Global Entrepreneurship Monitor, 98,9% dos empreendedores estabelecidos consultados não tinham nenhum cliente no exterior contra 26,3% nos Estados Unidos, por exemplo. Vemos também que a taxa de internacionalização de empresas ainda é tímida no Brasil. Por quê?

A internacionalização é extremamente importante para a economia, para o país continuar a se desenvolver. Nos países mais desenvolvidos, essa taxa é extremamente alta. Não é o que vemos no Brasil, principalmente, em relação às pequenas e médias empresas. Temos empresas brasileiras com forte presença no exterior, mas a maior parte é de grande porte, como Braskem, JBS, Petrobras, Vale. Quase não há médias empresas fazendo negócios fora do país. Há entraves cruciais para a saída dessas empresas como o alto custo do capital, falta da competitividade das empresas domésticas em relação as de outros países, carga tributária altíssima. O custo Brasil é um grande entrave. Além disso, temos um mercado relativamente protegido. Empresas de médio porte não têm cultura de internacionalização e de longo prazo. No Brasil, você também não tem muitos projetos que incentivem a internacionalização. Temos a Apex [Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos] que promove exportações, mas, em outros governos, principalmente europeus, como na Espanha, há planos de auxílio à internacionalização de empresas. No Brasil, deveria haver algo dessa natureza.

Quais são os benefícios da internacionalização?

Ter um mercado muito maior para seu produto. O mercado consumidor brasileiro ainda apresenta grandes oportunidades, com uma classe média com muito apetite para o consumo, mas, em alguns anos, vamos atingir um limite e as empresas sofrem com isso. A internacionalização permite acesso a novos mercados, novos potenciais compradores, aumenta seu potencial de vendas e negócios. A maior presença fora do país também eleva a arrecadação do país, já que a empresa [que amplia suas receitas no exterior] continua pagando tributos no país.

O que o empresário que quer internacionalizar sua empresa deve fazer?

Primeiro, fazer uma pesquisa do melhor destino dentro do seu segmento. É difícil para as empresas pequenas e médias fazer um planejamento, mas a própria Apex pode ajudar. É preciso fazer o dever de casa e buscar saber os potenciais destinos. Depois disso é preciso buscar as agências de fomento daquele país. Nos EUA, por exemplo, quase todos os estados têm uma agência de fomento que pode apontar para o investidor incentivos fiscais e os melhores lugares para aquela empresa, por exemplo.

A Apex fala em três fases da internacionalização: a inserção internacional, a consolidação em mercados internacionais e a expansão das operações internacionais. Quais são as características de cada uma?

Cada mercado tem a sua particularidade. Por isso, é importante buscar um parceiro local. Pode demorar algum tempo para encontrar um parceiro que agregue em termos de tecnologia, contato e conhecimento mercado. Isso acontece na fase de inserção. Uma vez que você identificou esse parceiro local, vem a fase da consolidação, quando as empresas vão se organizar no exterior. Algumas empresas preferem profissionais locais para estarem à frente do negócio no exterior; outras, não. Isso varia de empresa para empresa. Depois disso, vem a fase de definir a estratégia da empresa, seu plano de negócios. A primeira fase, de inserção, é muito importante e pode ser uma garantia do sucesso da empresa.

Quais são os principais destinos das empresas que se internacionalizam?

Os Estados Unidos continuam sendo um mercado extremamente atraente. É o maior mercado consumidor do mundo, com 332 milhões de pessoas, e um parceiro histórico do Brasil. Além disso, é um mercado muito fácil de fazer negócio, muito desburocratizado. Segundo a pesquisa Doing Business, feita pelo Banco Mundial, sobre o ambiente de negócios dos países, os Estados Unidos ocupam a 4ª posição num total de 189 países, enquanto o Brasil está em 116º. A empresa que consegue ser bem sucedida no Brasil tem grandes chances de ser bem sucedida nos EUA e em qualquer lugar. Os EUA e a Europa são os destinos mais tradicionais e continuam sendo grandes polos para empresas de bens de consumo, startups, empresas de software. Já empresas de infraestrutura têm se voltado para a África.

Como a internacionalização de empresas está relacionada à redução de custos?

O custo inicial de internacionalizar uma empresa é sempre alto. As empresas têm que pensar com muito cuidado, ser uma empresa já estabelecida, ter uma certa solidez. Pode levar alguns anos para recuperar os investimentos feitos. Mas, uma vez que você saia do país, uma vez que passe pelo custo inicial e comece a operar, os custos fora do país costumam ser mais baixos. Fazer negócio no Brasil é muito caro por uma série de motivos: alta carga tributária, leis trabalhistas, complexidade fiscal enorme, desafios logísticos, custo de energia. Quando você coloca isso na ponta do lápis, você vê os benefícios.

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