Inepar tenta sua última cartada

Companhia, que teve seu auge durante as privatizações dos anos 1990, sucumbe à crise financeira e apela para recuperação judicial

Por marta.valim

Depois de um longo período de agonia, a Inepar jogou a toalha e anunciou ontem que está entrando na Justiça com pedido de recuperação judicial. Com uma dívida de cerca de R$ 1,5 bilhão, a empresa vem sofrendo com erros de gestão e com o aperto no setor de petróleo e gás, escolhido nos últimos anos como o principal foco de atuação. Fundada há 60 anos, a Inepar experimentou grande crescimento no último governo Fernando Henrique Cardoso, quando protagonizou alguns dos leilões de privatização realizados na época. Entre os principais credores, está o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), para quem a empresa deve cerca de R$ 400 milhões.

O pedido de recuperação judicial se dá menos de seis meses após o anúncio de reestruturação dos negócios da companhia, que separou as atividades de infraestrutura e petróleo e gás de outras operações. No processo, a Inepar contou com a assessoria do banco de investimentos Brasil Plural, que indicou um de seus sócios, Warley Pimentel, para presidir a empresa por tempo indeterminado. “Uma das primeiras providências é discutir com os principais stakeholders da Inepar, incluindo clientes, credores e sócios, alternativas para a preservação de valor e estabilidade das operações da empresa”, afirmou o banco, em nota oficial.

Se o pedido de recuperação judicial for aceito pela Justiça, a empresa terá que entregar um plano de recuperação, indicando medidas que garantam sua sobrevivência financeira. No segundo semestre de 2014, a Inepar teve prejuízo de R$ 184,4 milhões. No dia 30 de junho, o caixa da companhia era de R$ 51,8 milhões, uma queda de R$ 45,2 milhões com relação ao verificado no mesmo período do ano anterior. O volume de encomendas também registrou queda, de 13%, para R$ 3,57 bilhões.

Criada para atuar no segmento de transmissão de energia, a Inepar passou por um processo de diversificação no final dos anos 1990, quando entrou com apetite no segmento de telecomunicações. Foi um dos grupos escolhidos pelo governo para receber apoio oficial — teve parte de seu capital adquirido pelo fundo de pensão Previ, dos funcionários do Banco do Brasil, e obteve empréstimos no BNDES para comprar participações em empresas de telefonia e em distribuidoras de energia.

Chegou a ser uma das empresas mais negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), mas uma série de apostas erradas — a palavra “trapalhada” é bastante citada em fóruns de investidores sobre a empresa — pavimentou o caminho para a situação atual. Entre os negócios contestados, estão o pesado investimento em tecnologia de comunicações por satélite e a compra de participação na Cemat, distribuidora que abastece o estado do Mato Grosso, responsável por uma provisão para perdas de R$ 136,6 milhões.

Uma crise de confiança junto aos acionistas minoritários também contribuiu para manchar a reputação da companhia, cujas ações são negociadas atualmente na casa dos R$ 0,40, bem abaixo dos R$ 5 do início da década. Foi dos minoritários a denúncia à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que levou à condenação, este ano, de dirigentes e controladores da companhia por conflito de interesses na gestão das diversas subsidiárias. Cinco executivos, entre eles o controlador Atilano de Oms Sobrinho, hoje presidente do Conselho de Administração, foram condenados a penas que vão de R$ 500 mil à inabilitação para o exercício de cargo em administração de companhias abertas — o caso está em análise pelo Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional (CRSFN).

A Inepar abandonou os negócios em telecomunicações e, nos últimos anos, vinha virando seu foco para a cadeia de petróleo e gás, com a compra de participação em estaleiros e atuação em engenharia e fabricação de equipamentos. O setor, porém, tem sofrido com as medidas de austeridade tomadas pela presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, que reforçou a cobrança pelo cumprimento de prazos contratuais e proibiu renegociações de contratos com fornecedores. A mudança de rumos na estatal já levou outro grande fornecedor, a Lupatech, a pedir recuperação judicial.

Em julho, a subsidiária Iesa foi alvo de rumores sobre a venda, para a Andrade Gutierrez, de sua participação no estaleiro Quip, em Rio Grande, que estaria atrasando pagamentos a empregados e fornecedores. O estaleiro foi construído para atender encomenda da Petrobras para a construção de plataformas de produção para o pré-sal. A venda de ativos é uma das alternativas previstas no plano de reestruturação apresentado aos investidores em abril. Os passos futuros, porém, dependerão agora de negociações com os credores a respeito do plano de recuperação judicial.

Procurado, o BNDES não comentou o assunto. Em 2011, a empresa e o banco fizeram uma renegociação de termos e prazos de pagamento da dívida.

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