Por douglas.nunes

Enquanto posam para fotografias, em um terreno nos fundos da Incubadora da Coppe/UFRJ, a equipe da Ativatec se diverte entregando à reportagem os apelidos de cada integrante, todos relacionados a nacionalidades estrangeiras. A algazarra, natural em uma empresa formada por jovens, em sua maioria na casa dos 25 anos, ganhou um combustível novo nos últimos dias: a assinatura de contrato de venda de 60% das ações para a Sacor Siderotécnica, especializada em manutenção de equipamentos de produção de petróleo. Além de acesso a um mercado maior, a Ativa ganha, com a venda, maior possibilidade de sobrevivência em um país onde 1/4 das pequenas empresas morrem antes de completar dois anos.

A Ativatec é uma das 26 empresas residentes da Incubadora de Empresas da Coppe, que completa 20 anos, nos quais impulsionou a criação de 77 novas empresas, com faturamento global de R$ 236 milhões em 2013. “Das 77, só cinco não operam hoje. E duas foram incorporadas por outras companhias”, afirma Lucimar Dantas, gerente da incubadora, que inaugurou um novo prédio este ano e prepara-se para iniciar um programa de mentoria, no qual ex-alunos da UFRJ podem se candidatar a ajudar os novos empreendedores a desenvolver modelos de negócios. “A incubadora ajuda a desenvolver outras competências. Para o negócio ser bem sucedido, não basta só a tecnologia”, comenta Lucimar.

O caso da Ativatec é um exemplo. Criada há sete anos na PUC-Rio, a empresa se transferiu, há três anos, para a Coppe. A companhia tem seu foco no desenvolvimento de ferramentas de inspeção e manutenção de equipamentos submarinos de produção de petróleo. Após um período de desenvolvimento da tecnologia, decidiram focar na prestação de serviços — toda semana, há um funcionário embarcado em plataformas petrolíferas para manusear as ferramentas. “Viemos para cá porque precisávamos de mais marketing, para assinar novos contratos”, diz o sócio-fundador Daniel Camerini.

Com faturamento na casa dos R$ 2 milhões, a Ativatec tem hoje como principal cliente a Petrobras, mas também prestam serviços para Subsea 7 e Oceaneering, empresas especializadas em equipamentos submarinos. Com a venda para a Sacor, a meta é quintuplicar o faturamento em três anos. “Agora, a Sacor pode oferecer a solução completa aos clientes”, diz Camerini. A nova controladora atua no reparo de equipamentos submarinos corroídos. A Ativatec tem 80% de seu faturamento proveniente de serviços de detecção e manutenção do mesmo problema. O restante vem da operação de robôs de inspeção de faixas de dutos de óleo e gás.

O mercado de petróleo é o principal alvo das empresas da incubadora, que fica em frente ao Parque Tecnológico da UFRJ, que sedia centros de pesquisas dos principais fornecedores globais do setor. Mas não o único. Com apenas um ano de incubação, a Twist trabalha no desenvolvimento de um sistema de monitoramento de notícias publicadas em todo o mundo, que identifica autores e localização da publicação e analisa correlações entre as notícias. “É uma ferramenta que pode facilitar o trabalho de relações públicas e de áreas de relações com investidores”, diz Luiz Évora, um dos sócios da empresa, formada por cinco mestrandos ou doutorandos em engenharia eletrônica e da computação — todos com passagem pela Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern), em Bruxelas — e faturamento para este ano em torno de R$ 500 mil por mês com a venda de sistemas de softwares de integração de sistemas.

A proximidade com a universidade — e, consequentemente, a grande presença de mestres e doutores nas empresas — são apontadas por Lucimar como vantagens da incubação. “Aqui, os profissionais estão em seu próprio ambiente. E, como estão perto dos laboratórios das universidades, fica mais fácil concluir ou aperfeiçoar o desenvolvimento de seus produtos”, completa ela. “A maior parte dos nossos funcionários estuda ou faz pesquisa na universidade e desejamos que continue assim. E fica mais fácil ir da aula para o trabalho”, concorda José Augusto Rodrigues Neto, sócio-diretor da GPETec, desenvolvedora de softwares de gestão, criada por cinco doutores da Coppe.

A empresa está finalizando o período de incubação, que leva entre dois e três anos, e busca uma vaga no Parque Tecnológico para não se distanciar dos laboratórios da universidade — no fim do ano, deve ser lançado processo de seleção de empresas para um edifício compartilhado no parque. “É o ambiente em que a gente foi criado”, finaliza Neto.

Programa quer ex-alunos como mentores das start-ups

Com o lançamento do programa de mentoria, a Incubadora de Empresas da Coppe espera atrair ex-alunos que hoje estão no mercado para ajudar as empresas incubadas a definir estratégias de negócios para ganhar o mercado. “A premissa é que a universidade é um ativo muito importante para estas pessoas e, pelo fato de ser pública, muitos ex-alunos têm o interesse em retornar à universidade algo que receberam aqui”, diz Lucimar Dantas, gerente da incubadora. A ideia é definir áreas críticas no desenvolvimento de uma empresa, como marketing, gestão e finanças, e atrair executivos para ajudar as incubadas a vencer suas dificuldades. As inscrições para interessados em colaborar terminam esta semana.

Após o período de incubação, as empresas bem sucedidas pagam uma taxa de retorno para a incubadora, que varia entre 1% e 2% do faturamento líquido por período equivalente ao que ficou incubada. Os recursos que são usados para custear o espaço, com capacidade para 30 empresas — pequenas salas para aquelas voltadas à prestação de serviços e galpões para as que desenvolvem produtos. O custeio da estrutura também é feito com fundos de pesquisa e desenvolvimento, além de rateio de algumas despesas pelas empresas incubadas.

Entre as companhias bem sucedidas, está a Pam Membranas, que desenvolveu membranas para microfiltragem, usadas, entre outros, para a separação de óleo e água na indústria do petróleo. Atualmente, a empresa foca no desenvolvimento de uma tecnologia para filtros de hemodiálise. A companhia está hoje localizada no Parque Tecnológico, ao lado de gigantes globais do setor de petróleo, como a Schlumberger, Halliburton e Baker Hughes. Em breve, a GE inaugura seu centro de tecnologia no local, que vem ganhando status de principal polo tecnológico do setor de petróleo no Hemisfério Sul.

Outro caso de sucesso é a Petroleum Geoscience Technology (PGT), especializada em análise de sistemas petrolíferos, incorporada pela Vale em 2009, quando a mineradora decidiu apostar no setor de petróleo. A operação, de R$ 15 milhões, foi a estratégia encontrada pela Vale para iniciar a montagem de sua estrutura de petróleo e gás — atividade que depois acabou perdendo espaço na companhia, com a crise do segmento de minério de ferro e os planos de corte de custos e readequação de portfólio.

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