Por monica.lima

São Paulo - Em 2012, quando a Lei da TV Paga foi aprovada, uma das questões centrais era estimular por meio de cotas obrigatórias a maior presença de conteúdos nacionais nos canais de TV por assinatura. Passados pouco mais de dois anos de ajuste dos canais à regulamentação, um novo roteiro começa a ser escrito no setor, com as produtoras brasileiras construindo um portfólio em diversos gêneros para consolidar uma estratégia de licenciamento de franquias e marcas próprias, com fôlego para alcançar outras telas e mercados, inclusive no exterior.

“Hoje, nos vemos muito mais como uma empresa de propriedade intelectual do que apenas de produção”, diz Roberto d’Avila, diretor da Moonshot. “Estamos investindo em desenvolvimento e em roteiristas próprios para criar conteúdos consistentes, com múltiplas temporadas e com formatos que tenham uma cauda mais longa de exploração”, observa.

Duas produções da Moonshot já renderam bons frutos com essa abordagem. Com a terceira temporada encerrada recentemente no GNT, a série “Sessão de Terapia” já gerou um livro, homônimo, DVDs pela Som Livre, e está disponível em serviços de vídeo sob demanda como o NOW, da Net, e o Globosat Play. Também com três temporadas e veiculada pela FOX, a série “9MM” rendeu o livro “O Sorriso da Morte” e episódios exclusivos para a internet, além de ser exportada para mercados como Japão, América Latina e África.

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Com cerca de 30 produções em desenvolvimento apenas em dramaturgia, a Moonshot também investe em formatos como séries documentais e reality shows, por meio de coproduções com canais como Discovery, AXN e GNT. Entre os conteúdos no forno estão os reality shows “Que Seja Doce”, programado para 2015, e “Food Truck, a batalha”, ainda sem data definida de estreia. “Esse gênero, em particular, tem um grande potencial de exportação de formato. Mas primeiro, precisamos consolidar essas marcas aqui no Brasil”, afirma.

Mônica Monteiro, executiva-chefe da Cine Group, destaca que a aproximação com as divisões brasileiras de produção dos canais estrangeiros — até pouco tempo atrás inexistentes — está trazendo outro benefício. “Essa interlocução nos ajuda a ter uma linguagem internacional. Estamos saindo do olhar autoral, caseiro, para um olhar de indústria”, observa. “Hoje, nossas produções são desenhadas com um plano de negócios com um percurso que envolve TV paga, TV aberta e novos serviços de vídeo sob demanda. São produtos que não se esgotam”, completa.
</CW>Atualmente, a Cine Group possui 18 programas em veiculação na TV a Cabo, além de diversas coproduções engatilhadas. Nas duas frentes, os acordos incluem canais como Discovery, History Channel, MTV e GNT, nos mais variados formatos, que vão desde ficções até o “Chegadas e Partidas”, no GNT. Uma das séries em desenvolvimento é “Brasil, Brasil”, coprodução com o estúdio francês Alegria, que será exibida no país pela GNT e na França pelo canal Arté.

Uma das primeiras produtoras a desbravar a TV paga, a Conspiração tem uma estratégia bem definida para construir marcas que possam gerar novas versões, temporadas e produtos. “Nosso foco não é tanto volume, mas sim os projetos de alta qualidade, especialmente na área de dramaturgia”, diz Gil Ribeiro, diretor-presidente da Conspiração. “Hoje, a área de conteúdo para TV já responde por cerca de 35% da nossa receita e é um dos campos nos quais vemos maior potencial de crescimento”, afirma.
Dentro da abordagem de múltiplas telas, a Conspiração estuda uma forma de usar a internet para testar o desenvolvimento de novas séries e conteúdos. “A web dá uma capacidade muito grande para analisar e ajustar nossas propriedades e, posteriormente, levá-las para as janelas mais tradicionais, com um formato mais apurado ao gosto da audiência”, observa.

Entre as produções da Conspiração que estão no ar ou tiveram temporadas encerradas recentemente figuram séries e conteúdos como “A Segunda Vez” (Multishow), “Amor Veríssimo” (GNT) e “Bela Cozinha” (GNT). O estúdio também finalizou a série “Magnífica 70”, em coprodução com a HBO, e sem data de estreia definida.

O momento mais favorável vivido pelo setor motivou a criação da Boutique Filmes, no início de 2013, direcionada exclusivamente às produções para TV. “Já nascemos com o foco em conteúdo original, em criar propriedades que tenham o perfil de cada canal e, ao mesmo tempo, possuam um gancho para outras janelas e para o mercado internacional”, afirma Tiago Mello, sócio-diretor e produtor executivo da Boutique Filmes.

Com nove séries em produção e diversos títulos em desenvolvimento, o estúdio estreou nesse mês a live-action “Experimentos Extraordinários”, uma coprodução com o Cartoon Network, e já atraiu o interesse de canais na Espanha, na Itália e na França, entre outros países europeus. A Boutique também aposta em marcas próprias em gêneros variados. Um dos exemplos é o reality show de efeitos especiais “Cine Lab”, em parceria com o Universal Channel, no ar desde setembro. Nesse mês, a produtora promoveu ainda a estreia do docureality “Low Rider Brasil”, coprodução com o canal Discovery.“Ainda estamos no começo, mas conseguimos estrear ao menos uma produção por mês em 2015. Nosso objetivo construir um catálogo amplo e diverso de propriedade intelectual para o futuro”, diz.

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