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Crise no setor de óleo e gás faz salários despencarem

Petróleo em baixa, economia desacelerada e escândalos fazem empresas eliminar vagas e diminuir remuneração de executivos

Por monica.lima

A combinação entre a desaceleração econômica do país, a queda nos preços internacionais do petróleo e, mais recentemente, o escândalo de corrupção na Petrobras levou a cadeia produtiva do setor de óleo e gás a eliminar 14 mil empregos no Brasil em 2014, segundo estudo da consultoria Petra Group, especializada em recrutamento de executivos. E o período de ajuste ainda está longe de terminar: a projeção para este ano é de uma redução de 10% nos salários de executivos de alta gestão contratados em novas vagas. Profissionais administrativos e operacionais também são afetados, com uma diminuição salarial de 15% e 10%, respectivamente, nas contratações recentes.

“Um gerente de Recursos Humanos, que antes ganhava entre R$ 22 mil e R$ 23 mil por mês, agora pode ser contratado por R$ 16 mil, R$ 17 mil”, exemplifica Adriano Bravo, presidente da Petra Group. O maior rigor da Petrobras no pagamento a fornecedores a partir da Operação Lava Jato, da Polícia Federal, se somou em 2014 ao enxugamento de pessoal em duas petroleiras privadas que movimentaram o mercado fluminense nos últimos anos, com contratações a peso de ouro. A partir de 2013, OGX (hoje, Óleo e Gás Participações) e HRT passaram por enxugamentos radicais no quadro de funcionários. Com isso, o salário de um gerente de fabricação, antes na casa de R$ 22 mil a R$ 23 mil mensais, caiu para a faixa entre R$ 18 mil e R$ 19 mil.

Além da redução nos benefícios e na remuneração indireta dos executivos, as companhias de óleo e gás estão recorrendo à substituição de expatriados por brasileiros como forma de cortar custos. O rearranjo pelo qual passa o setor também se reflete entre os recém-formados. “No setor de óleo e gás, os formandos de engenharia têm a menor oferta de emprego dos últimos dez anos”, diz Bravo. O ritmo veloz das descobertas em terra e no mar — só entre janeiro de 2013 e fevereiro do ano passado foram 46, sendo 15 delas no pré-sal — contribuiu para elevar a remuneração no setor a níveis muito superiores aos de outros segmentos.

Por concentrar a maior parte das reservas brasileiras, o Rio de Janeiro foi particularmente beneficiado tanto pelas descobertas como pela entrada de novos players privados. Dentro do segmento de óleo e gás, posições administrativas no Rio, por exemplo, pagavam nos últimos três anos de 15% a 20% a mais, em média, do que o setor industrial de São Paulo. Essa distorção tende a se corrigir ao longo de 2015. “Vai haver um movimento forte de downsizing no mercado este ano, para trazer os salários à realidade brasileira”, afirma Bravo.

Independentemente do cenário brasileiro, a queda vertiginosa dos preços do petróleo no mercado internacional tem pressionado as empresas de exploração e produção a cortarem custos. Ontem, o barril de petróleo do tipo leve americano para entrega em fevereiro chegou a ser negociado em Nova York por menos de US$50 pela primeira vez em quase seis anos. O barril de petróleo do tipo brent também atingiu sua menor cotação desde 2009.

Mesmo num cenário desanimador, a expectativa do presidente da Petra Group é de uma volta à normalidade ao longo deste ano e do próximo, num movimento de recuperação impulsionado pela exploração do pré-sal. Em áreas técnicas mais especializadas, como geofísica, geologia e petrofísica, não houve por enquanto alterações salariais — tanto para cima como para baixo. A relativa estabilidade nesse caso é resultado da escassez de profissionais específicos. Um gerente de parada programada — encarregado de executar interrupções para manutenção preventiva ou corretiva — pode receber até US$ 1 milhão por ano, já que no Brasil há pouquíssimos profissionais com este tipo de experiência comprovada no setor de óleo e gás.

Na avaliação de Bravo, as denúncias de corrupção envolvendo empreiteiras fornecedoras da Petrobras podem favorecer a entrada de novos players no mercado brasileiro, em substituição às companhias que tiverem culpa comprovada em atos de corrupção. A possível redução no papel da Petrobras, ainda em decorrência dos escândalos, também abriria mercado para petroleiras vindas de fora do país.

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