Estaleiros brasileiros apostam em exportação

Depois de crescerem nos últimos cinco anos, empresas voltam a apostar no segmento, ajudadas pela alta do dólar. A catarinense Schaefer Yachts está em fase de elaboração do projeto de sua fábrica na Coreia do Sul

Por monica.lima

Rio - Depois da vinda de estaleiros internacionais focados em embarcações de lazer para o Brasil, que era visto como mercado em crescimento, o fluxo agora se inverteu. Os estaleiros brasileiros cresceram nos últimos cinco anos e recomeçam a exportar, abrindo até unidades fora do país. Ruim para uns, mas muito boa para outros, a alta do dólar foi um fator que ajudou na decisão de ganhar os mares mundo afora.

“O Brasil é um mercado com potencial muito grande de crescimento, por ainda ser novo, por termos uma costa grande e boas condições climáticas. Quanto às vendas para outros países, voltamos a ser competitivos por conta do câmbio”, diz Ernani Paciornik, idealizador do Rio Boat Show, maior evento náutico da América Latina, que será realizado de 26 a 31 de março, no Rio de Janeiro e reunirá cem expositores.

O estaleiro catarinense Schaefer Yachts — há 23 anos no mercado fabricando lanchas e iates entre 30 e 80 pés — já planeja sua unidade em Busan, segunda maior cidade da Coreia do Sul, com seis milhões de habitantes e de onde são escoadas as exportações daquele país. Depois de assinar um acordo com o prefeito da cidade, Don Young Cho, e o secretário da Divisão de Investimentos Estrangeiros, Jae Hyung Lee, a Schaefer está atualmente na fase de estudo do projeto do novo estaleiro.

A ideia, diz o presidente da empresa brasileira, Marcio Schaefer, é que a produção comece dentro de cerca de dois anos, com lanchas a partir de 30 pés (aproximadamente 10 metros de comprimento), como a Phantom 303. De acordo com ele, o tamanho dos barcos vai crescer ano a ano, até chegar a produção do iate de 83 pés da empresa, a Schaefer 830. O investimento no projeto será de cerca de US$ 10 milhões, mas há contrapartidas do governo e, ainda, dinheiro de parceiros.

“A Coreia do Sul é líder mundial na indústria naval de grande porte, mas não tem estaleiros de embarcações de lazer e está abrindo uma oportunidade para ingressarmos não só naquela nação, mas no mercado asiático. O país é um hub muito importante para toda a Ásia”, ressalta Schaefer.
No Brasil, o preço médio de uma Phantom 303 é de R$ 400 mil, porém na Coreia do Sul será pelo menos 25% mais baixo, por conta de menor carga tributária e da competitividade da economia daquele país, diz a empresa.

A aproximação entre a empresa e o país asiático começou em 2013, mas foi alavancada quando o barco Phantom 303 foi eleito o melhor equipamento do Busan Boat Show, em outubro de 2014.

Atualmente, a Schaefer Yachts produz de 130 a 150 barcos ao ano.Para 2015, a previsão é também de 130 unidades. Com a alta do dólar e incertezas que ainda persistem no mercado interno, a empresa, que dedicava dois meses para a fabricação de embarcações para o mercado externo até 2008, resolveu voltar a exportar para ajudar a atingir sua previsão de produção. As principais apostas são os Estados Unidos e as nações europeias, como Noruega e Suécia, países com os quais a empresa costumava ter boas relações no passado. “Gostaríamos que as exportações fossem pelo menos 20% das nossas vendas. No passado, eram de 10% a 15%, e passávamos de março a maio trabalhando praticamente só para fora. Era muito bom, porque quando mercado acalmava aqui, vendíamos mais para fora, o que nos ajudava até a manter os preços. O mercado americano é muito bom e temos produtos competitivos”, ressalta Marcio Schaefer.

A expectativa é faturar R$ 200 milhões em 2015, resultado pouco maior do que o de 2014, ano também afetado pela Copa do Mundo. “Já fechamos alguns acordos e os primeiros barcos para outros países devem sair ainda no primeiro semestre”, completa ele.

Cimitarra também aposta na exportação e na Ásia

Outro estaleiro brasileiro, o Cimitarra volta a apostar na exportação e também tem a Ásia em sua rota. Com a meta de fabricar 90 barcos por ano, a empresa do Rio Grande do Sul já vendeu 25 unidades neste início de ano, sendo aproximadamente um quinto para o mercado externo. “O dólar ajuda, apesar de ainda pagarmos na moeda americana alguns dos componentes”, explica o representante do estaleiro Tomas Ko Freitag.

Segundo ele, o barco se valorizou nos Estados Unidos e outros países também veem seu mercado crescer. “Estamos entrando via Dubai, nos Emirados Árabes. Mas estamos buscando todos os mercados potenciais para barcos e temos tido boa receptividade”, diz Freitag, que espera um ano difícil no cenário interno e cita outros países como África do Sul e Noruega como mercados potenciais: “Estamos enxugando a empresa e cuidando ao máximo da qualidade. Temos medo, acho que muitas empresas vão desaparecer. Por outro lado, digo que quem cruzar 2015 e 2016 vai ter muitas oportunidades.”

Rio Boat Show desembarca no Riocentro

O Rio Boat Show chega a sua 18ª edição este ano. De 26 a 31 de março, a feira reunirá mais de cem expositores entre estaleiros, indústrias especializadas em motores e equipamentos, empresas fornecedoras de peças e tecnologia, além de outras áreas da cadeia produtiva do setor. Mais de 120 embarcações estarão em exposição.

A novidade fica por conta do local escolhido para este ano. Ao invés da Marina da Glória, o evento será realizado no Pavilhão 3 do Riocentro, zona Oeste do Rio de Janeiro.

“Vejo como se estivéssemos chegando à outra cidade. Será um ano de ampliar mercado, pois a região da Barra da Tijuca tem um potencial muito grande de consumo. Acredito que vamos perder pouco público que ia à Marina, mas vamos agregar muitos visitantes que antes não iam”, diz Ernani Paciornik, idealizador do Rio Boat Show. No ano passado, o evento, que é considerado o maior salão náutico da América Latina, movimentou R$ 193 milhões em negócios, valor um pouco menor do que a previsão inicial. Paciornik prefere não arriscar qual será o montante movimentado este ano.

“O mercado vinha de um crescimento muito grande e agora deu uma estagnada. Por outro lado, é uma oportunidade para os consumidores, pois os estaleiros têm que vender e, provavelmente, vão fazer boas ofertas”, diz ele.

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