Rio - A previsão de que 50 bilhões de objetos estarão conectatos à web em 2020 é música para os ouvidos da Cisco e de outros pesos pesados da tecnologia, mas haverá espaço para tantos competidores no nascente mercado da Internet das Coisas? Para Jordi Botifoll, presidente da Cisco para a América Latina, o que não falta é oportunidade, mesmo nos países emergentes. Na visão dele, esse tipo de tecnologia pode tanto alavancar a produtividade dos exportadores de commodities como também gerar novos produtos e serviços.
Cada vez mais corporações investem em projetos ligados à Internet das Coisas. Há espaço para tantos players nesse mercado?
Muitíssimo. Porque essa é uma transição emergente: menos de 1% das coisas no mundo estão conectadas. E, ao conectarmos todas as coisas, vemos que isto gera uma necessidade de definição de dispositivos novos, construção, desenvolvimento de aplicações novas. Não só de infraestrutura, mas também de muito software. Desenvolvimento de modelos de consumo, via nuvem computacional, por exemplo; além do tratamento dos dados e da análise que vai ser feita deles para obter valor com essa informação, esse conhecimento, a partir do qual poderão surgir novas aplicações, modelos econômicos para diferentes setores da indústria. O potencial é enorme.
Já existe infraestrutura suficiente para suportar a expansão da Internet das Coisas? Em termos de tecnologia, qual a espinha dorsal desse novo ramo de negócios?
A Internet das Coisas requer umas arquiteturas de rede robustas, sólidas e seguras. Principalmente muito seguras. Pense que estamos falando de milhões de dispositivos que são pontos de acesso à rede. É uma combinação de tecnologias que confluem numa arquitetura de tecnologia e negócios. Tem de haver uma integração perfeita entre os diferentes serviços e produtos. É preciso ter uma plataforma que permita o crescimento exponencial de tráfego inteligente. E tem de haver sistemas de segurança já que, à medida em que a rede se amplia, estaremos conectando mais coisas, mais pontos de acesso.
Na América Latina, algumas tecnologias — como o 4G, por exemplo — estão se expandido num ritmo abaixo das expectativas. A Internet das Coisas terá na região a mesma importância que em outras partes do globo?
Sim, especialmente na América Latina. Se analisarmos a economia latino-americana, vemos que depende muito das commodities. A região tem de diversificar sua economia, substancialmente. Para isso, tem que melhorar seus índices de competitividade. Ser mais competitiva, mais produtiva. É isso que a Internet das Coisas te dá. Permite aumentar a sua competitividade e desenvolver novos produtos e serviços. Por outro lado, as cidades na América Latina enfrentam desafios em termos de mobilidade. E grandes desafios do ponto de vista de educação universal, saúde e consumo de energia. A Internet das Coisas permite acelerar a evolução rumo a uma melhor educação, saúde, mobilidade — tanto física como virtual — e uma otimização no consumo de energia. O metrô de Buenos Aires, por exemplo, está desenvolvendo uma plataforma de conectividade em que as 90 estações estarão conectadas. As pessoas vão estar se deslocando e, ao mesmo tempo, sendo produtivas.
No Brasil, como em outros países emergentes, uma parte significativa da população ainda não tem acesso à internet. A inclusão digital dessas pessoas é uma missão para o governo ou a iniciativa privada também pode contribuir no processo?
Tem de haver uma mistura. O 100% de cobertura tem, claramente, de ser sempre uma prioridade política de qualquer país, para eliminar a lacuna digital, reduzir as diferenças. Do ponto de vista social, tem de ser um direito. Logicamente, o setor privado tem de se envolver e criar valor ao redor [das iniciativas]. Quanto mais gente entrar no mundo digital, mais clientes potenciais terá a indústria privada da conectividade. Tanto os serviços públicos como os privados têm de estar sincronizados. E deve haver, sobretudo, uma educação em relação ao uso da rede. Porque nas cidades há um uso muito mais ativo, e as pessoas estão mais preparadas para usar essa rede.
Em quais projetos de cidades inteligentes a Cisco está envolvida na América Latina?
Rio de Janeiro, Brasília, por exemplo. Temos também projetos em Medellín (Colômbia), Guadalajara (México), Buenos Aires (Argentina), Guaiaquil (Equador). São cidades que iniciaram seriamente a transformação, a digitalização.
Dentro dessa vertente de negócios, quais as principais oportunidades?
A otimização do consumo de energia, via smart grid (redes inteligentes); a mobilidade dentro das cidades; a integração dos smart grids com a rede das outras companhias, de água e gás, por exemplo; educação e saúde.
Os setores de commodities também podem se beneficiar da Internet das Coisas?
A mineração, por exemplo. Embora seja uma commodity, o fato é que sempre precisa ser mais competitiva. Sendo mais competitiva, pode gerar mais margem para que a companhia seja menos frágil diante das flutuações de mercado. Temos um exemplo desse tipo no Chile.
E fora do setor de Internet das Coisas, que outros negócios a Cisco enxerga como promissores na região?
Computação em nuvem, novos modelos de consumo e infraestrutura de rede, além da digitalização dos governos e das pequenas e médias empresas. E muitas outras oportunidades.