O que poderia ser uma narrativa em linha reta, seguindo preguiçosamente os passos de uma carreira de sucesso somada a uma exemplar vitória pessoal, ganha contornos sinuosos ao focar-se na história de amor entre Stephen e Jane, criando assim um diferencial que particulariza o filme. Jane é católica fervorosa e sua vocação à bondade aliada a um certo espírito juvenil fazem dela uma virtuosa, capaz de mesmo sabendo do diagnóstico terminal de Stephen casar-se com o cientista assumidamente ateu e tornar-se mãe.
O tempo, a progressão da doença, o prejuízo de seus estudos e a anulação da vida sexual levarão Jane a uma rotina de irritabilidade, libido reprimida e muita culpa. Felicity Jones, que lembra muito a atriz Mel Lisboa, conduz com dignidade o desafio de interpretar Jane e aos poucos a história de seu personagem ganha mais interesse do que a do próprio Stephen. Mereceu a indicação ao Oscar de Melhor Atriz.
A solução da equação romântica proposta pelo filme gerou a inevitável controvérsia entre fato e versão. E é provável que os fatos vençam. Stephen não teria sido tão tolerante com o sexo represado da ex-esposa, o sucesso lhe teria subido a cabeça e o motivo do divórcio seria um caso com sua enfermeira. São questões provavelmente adocicadas para tornar “A Teoria de Tudo” mais palatável ao grande público. Ainda assim, os dados lançados ao espectador pelo filme não costumam ser usualmente jogados pelos grandes produtores. Bem ou mal, “A Teoria de Tudo” questiona as certezas religiosas, desafia o ideal da bondade absoluta, aponta a fragilidade do matrimônio padronizado e nos faz pensar sobre o tempo que o tempo tem. Não é pouco. E talvez seja muito para ganhar o Oscar.