Hollywood enlouquece em 'Mapas para as Estrelas'

A crônica cruel do estrelato expõe as vísceras hollywoodianas num ritual de autoflagelação que já rendeu grandes filmes e que mostra que ainda não é hora de Cronemberg dar adeus à sua linguagem

Por diana.dantas

Hollywood tem por hábito promover com frequência festas de autocelebração em que seus diretores produtores e estrelas costumam ser reverenciados. A maior de todas, com certeza, é o Oscar, a grande festa em que a indústria mostra sua força e seu poder a bilhões de espectadores do mundo inteiro. Mas existe o outro lado de toda essa força que volta e meia é denunciado e exposto por diretores audazes e inconformistas. Um belo exemplo está agora em cartaz, num cinema perto de você.

Bem longe das homenagens, “Mapas para as Estrelas”, do canadense David Cronenberg, é uma paulada nos bastidores das celebridades hollywoodianas. O título refere-se aos guias de Los Angeles que vendem tours pelas casas dos famosos. Aqui o roteiro, escrito a quatro mãos por Cronenberg e Bruce Wagner, é devastador.

O ponto de partida é uma família desfuncional cuja filha (Mia Wasikowska) foi expulsa de casa por tentar botar fogo nela e no irmão (Eva Bird), um monstrinho de 14 anos a la Justin Bieber que usa o estrelato para humilhar os outros e desfilar sua arrogância. John Cusak interpreta o pai, um terapeuta picareta de práticas nada ortodoxas, e Olívia Williams a mãe impotente e depressiva. Sobra ainda espaço para uma atriz decadente e invejosa (Julianne Moore, maravilhosa), agentes insaciáveis e a participação bem pertinente de Carrie Fischer em private joke.

Drogas lícitas e ilícitas, crises de depressão, arrivismo, grana. Competição e inconsequência são os pontos turísticos do mapa para as estrelas cronenberguiano. Há ainda espaço para alucinações fantasmagóricas que projetam os personagens para um ambiente em que o real e o imaginário se confundem a todo instante. Ninguém parece viver no presente.

A moça piromaníaca busca resolver o passado, o jovem irmão não quer ser um ídolo infantil, o pai terapeuta teme pela sua reputação e Juliane Moore anseia por viver o papel da mãe morta, também atriz, num remake. A crônica cruel do estrelato expõe as vísceras hollywoodianas num ritual de autoflagelação que já rendeu grandes filmes e que mostra que ainda não é hora de Cronemberg dar adeus à sua linguagem.

Fica só uma perguntinha: o que faz Robert Pattinson no filme? A presença de um ídolo num papel para lá de secundário só pode ser mais uma das private jokes do mordaz Cronemberg.

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