Endividamento alto e perspectiva de 2015 apertado indicam a hora de planejar

Consumidor tem que ficar alerta, tomar conta do seu orçamento familiar e não cair na tentação das propagandas

Por monica.lima

Estamos no fim de agosto, mas está na hora de começarmos a pensar em 2015, que será um ano economicamente complicado. Diariamente, as notícias nos dão conta dos aumentos previstos para o ano que vem, falam sobre o crescimento dos juros bancários e do endividamento das famílias. Depois de trocar eletrodomésticos e o carro, é hora de organizar as finanças para deixar uma margem de segurança no orçamento doméstico, que, muito provavelmente, ficará mais apertado.

A parcela de brasileiros endividados cresceu em agosto, chegando a 63,3% da população, segundo a Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, realizada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC). O índice de pessoas com dívidas ou contas atrasadas está em 19,2%, no terceiro mês de crescimento do percentual. E o cartão de crédito foi apontado por 75,8% das famílias como seu principal tipo de dívida. Em segundo lugar, ficaram os carnês, informado por 17% dos entrevistados e, em terceiro lugar, o financiamento do carro, com 13,4% de inadimplentes. Para quem já está pensando no Dia das Crianças e no Natal, é bom baixar as expectativas de presentes para não aumentar o buraco.

Por outro lado, a taxa média de juros cobrada pelos bancos subiu pelo sétimo mês seguido, em julho, para 43,2% ao ano, segundo o Banco Central (BC). E atingiu o maior patamar desde que o BC começou a divulgar esses dados, em março de 2011. Quem ganha com isso são os bancos. Apesar de o BC ter interrompido o processo de alta dos juros básicos da economia, em março, e ter diminuído a taxa de captação de recursos, esta diminuição do custo não foi repassada para os consumidores. Ou seja, o spread bancário, que é a diferença entre o custo de captação que os bancos pagam e quanto ganham com os juros dos empréstimos ao consumidor, está maior. O spread bancário nos empréstimos para pessoas físicas estava, em abril do ano passado, em 25,4%. Em junho deste ano chegou em 31,3%, passando para 31,7% em julho.

Os mal feitos do governo também vão deixar as contas mais salgadas para os consumidores. A conta do uso das termelétricas por causa da falta de chuvas neste ano (e da falta de outras formas de geração de energia) vai a mais de R$ 15 bilhões, e é certo que o aumento da conta de energia elétrica do consumidor vai ser de dois dígitos. Depois das eleições, qualquer que seja o novo presidente, ele vai precisar aumentar a gasolina e o diesel. Aumento de combustível e de energia elétrica impactam diretamente nos custos das indústrias. Portanto, é óbvio que haverá o repasse destes aumentos para os preços dos produtos e também dos serviços. A inflação, que está encostando no pico da meta de 6%, vem aumentando o custo de vida e a tendência é que se mantenha alta. Fora isso, temos a dívida que ficou com as construções da Copa e vamos continuar nos endividando por causa das Olimpíadas. E, por enquanto, a economia está parada, com todos os setores esperando para ver quem será o novo comandante deste transatlântico chamado Brasil, e qual o rumo irá tomar.

O modelo de economia no Brasil depende do consumo, e a equipe econômica vem colocando todos os neurônios para funcionar, exercitando a receita de desonerar um setor e incentivar outro, para ver se o consumo aumenta. Tentam diminuir o custo Brasil, reduzindo burocracias, aumentando garantias para incentivar o oferecimento de crédito.

Mas tudo isso é paliativo e o consumidor tem que ficar alerta, tomar conta do seu orçamento familiar e não cair na tentação das propagandas. Por exemplo, esta é a hora de os bancos investirem no oferecimento de empréstimos para ganharem com spread alto, aproveitando que a inadimplência está crescendo.

É o momento de colocar todas as contas da família na ponta do lápis, saber exatamente em que está se gastando. Pesquisas feitas nos núcleos de superendividamento das defensorias públicas mostram que raramente as famílias se super endividam com compras. E a maior parte dos entrevistados sabia que não podia entrar no pagamento rotativo dos cartões de crédito, pois isso torna impossível quitar a dívida.

A grande maioria das pessoas que vão às defensorias pedindo ajuda para negociar com os credores, chegou lá porque aconteceu alguma coisa inesperada: a doença de alguém, a perda de um emprego, a necessidade de um gasto urgente com a casa. Para evitar esta situação, é preciso que as famílias não fiquem com seus orçamentos tanto no limite.

Depois de tudo anotado, é preciso definir as prioridades, onde não é possível cortar gastos (aluguel, escola, impostos), e onde dá para diminuir despesas (salão de beleza, lavagem do carro, lazer). Feito isso, começar a pensar diferente. Ou seja, ao invés de pensar em qual o tamanho da prestação que ainda cabe no seu salário, começar a guardar, poupar primeiro e depois comprar. Quanto mais dinheiro à vista o consumidor tiver, maior será seu poder, de compra e de negociação. Vamos aproveitar este freio de arrumação da economia brasileira para fazer a nossa própria organização, e, ao invés de seguir o conselho dos economistas de consumir mais, vamos fazer diferente, e começar a gastar menos, pensar no longo prazo, guardar dinheiro para construir sonhos, e não destruí-los com endividamento desnecessário. E feliz 2015!

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