Por diana.dantas

Estou pensando em vender o meu carro. Já não preciso usá-lo para trabalhar diariamente e, convenhamos, a vida do motorista, no Rio de Janeiro, e no resto das capitais, está um inferno. Os engarrafamentos são constantes a qualquer hora. As estradas estão entupidas de carros, caminhões, motos. A volta das cidades turísticas vem sendo um longo inferno de engarrafamentos. Não há vagas de estacionamento, e os que existem, são cada vez mais caros. E, por último, com a Lei Seca, acabo usando pouco à noite. Além disso tudo, é um carro a menos para poluir o ambiente. Mesmo com todas estas constatações, que não são só minhas, estou sempre lendo sobre a preferência do governo em subsidiar a indústria automobilística. Será que a gente vai ficar repetindo a vida toda este modelo de escolher a via rodoviária como prioridade? É preciso pensar fora da caixinha, encontrar uma forma de ir trocando estes modais de transporte público e de cargas aos poucos, mas é preciso romper com esta fórmula.

A série sobre mobilidade, publicada este mês no jornal O Globo, constatou que o total gasto com a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e outros incentivos ao uso do carro foi o dobro do investido em mobilidade urbana no ano passado. O crédito continua agindo como chamariz. Há duas semanas, entrou em vigor a Lei 13.043, que facilita a retomada de veículos pelas instituições financeiras dos proprietários inadimplentes. Com esta garantia, vai aumentar o crédito para financiamento de veículos. Mas, em compensação, o consumidor que não tiver como pagar pode perder o bem sem sequer ter uma ação ajuizada ou uma renegociação. E, segundo previsão oficial do Ministério de Minas e Energia, o número de automóveis no país vai quase quadruplicar até 2050. A frota de veículos leves deverá saltar de 36 milhões, em 2013, para 130 milhões, em 2050.

Dá até medo de pensar no futuro, com estas projeções. No Rio de Janeiro, a falta de vagas para estacionamento aumentou consideravelmente com as construções das novas estações de metrô, e com o aumento da rede de ciclovias. Duas razões inquestionavelmente importantes. Mas o fato é que as vagas diminuíram muito. Por outro lado, as obras da Perimetral e da revitalização da região portuária parece que pararam. Viajo toda a semana para Teresópolis. Não importa a hora que eu volte ou o dia da semana, enfrento um enorme engarrafamento na Avenida Brasil, já que os ônibus não podem mais pegar a Linha Vermelha, pois há obras na saída em São Cristóvão. E quando digo aos taxistas a minha preferência de trajeto, eles se recusam e não querem me levar. Dizem que só podem ir por Benfica e, nesse caso, a corrida fica R$ 15 mais cara.

O turismo também já está sofrendo com estes engarrafamentos. Dia desses, levei oito horas de Paraty para o Rio, sem ser um feriado prolongado. As pessoas desistem de viajar. Muitas cidades dependem desse turismo. E com o verão que vem aí, tudo tende a piorar.

Quando olhamos para os exemplos no exterior, verificamos que a maioria dos países europeus e asiáticos optou por ampliar, melhorar e interligar o sistema público de transporte (metrôs, trens, barcas) para que as pessoas optem por estes meios e deixem seus carros em casa para o lazer. Todos podem ter carro, a questão é não usá-los todos ao mesmo tempo, nos mesmos horários. Por outro lado, utilizam todos os modais possíveis para transporte de carga (trens, barcaças fluviais, caminhões) interligados ou não. No Brasil, o transporte público de massa, em todo o país, está concentrado nos ônibus. E o transporte de cargas praticamente só é feito por caminhões.
As secas deste ano estão fazendo com que a gente pense que precisamos de planos B e C para contornar as dificuldades que, inevitavelmente, vamos ter. As secas encarecem a água e a energia, custos que se refletem por toda a cadeia. As chuvas fortes derrubam o que já está construído. E construções, no Brasil, como se lê nos jornais, são demoradas e superfaturadas.

Por que não mudamos o modelo? Porque, dizem os economistas, se diminuirmos a venda de carros (e este ano está prevista uma queda de vendas de 9% no setor), vamos desempregar milhares de trabalhadores e desestabilizar uma enorme cadeia de fornecedores. Bem, a indústria quando robotizou grande parte da montagem dos automóveis colocou muitos funcionários na rua e o governo nunca cobrou estes empregos. Deixa quieto. Mas, se é preciso mudar, vamos dar condições desses trabalhadores migrarem para outras áreas necessárias. Poderíamos, por exemplo, criar a indústria da energia solar. Estes trabalhadores poderiam ser treinados para fabricar placas de energia solar, criando uma outra rede de fornecedores e de assistência técnica. E o subsídio dado à indústria automobilística poderia ir para a construção de fábricas de placas solares, uma em cada estado. Isso é muito pouco, muitos vão dizer. Sim, mas precisamos sair das grandes obras e começar a ter intervenções menores, e mais específicas, para cada parte deste país, que tem muitas caras e necessidades diversas.

É óbvio que não é um caminho de curto prazo e que setores da economia vão sofrer. Mas isso faz parte do jogo. É hora de o governo fazer políticas públicas sérias, gastar menos e melhor. É preciso pensar com técnica, dar subsídios para educação, saúde, transporte público, energia renovável, turismo. Trocar de modelo é difícil, é uma dor. Porque ninguém quer sair de sua zona de conforto, mesmo sabendo que está ruim. É preciso ter coragem para mudar, para assumir que somos criativos, para pensar fora da caixinha, para enfrentar o modelo atual exclusivista, e considerar que, no coletivo, os resultados são melhores no longo prazo.

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