Rio - Assim que se formou e casou, o advogado Antônio Pedro Maia Domingues foi trabalhar numa empresa de consultoria em Natal, no Rio Grande do Norte. Dez anos depois, a única certeza que teve era de que não queria mais ficar preso num escritório. A saída veio através da possibilidade de cultivar shitakes, numa área da família em Itaipuaçu, distrito de Maricá.
Em 2012, conheceu a técnica de cultivo através de um jardineiro suíço que trabalhou na propriedade comprada pelo avô, 20 anos antes, e foi estudar o assunto. “O que mais tem no mundo é fungo e muitos ainda a serem descobertos”, diz Pepeu, como gosta de ser chamado.
Com a assessoria de um fungicultor no primeiro ano, ele, hoje, consegue produzir cem quilos de shitake por semana em uma estufa climatizada de 60 metros quadrados, com temperatura, umidade e luz constantemente controladas.
O cultivo é feito em blocos de serragem misturada a farelo de trigo e de milho. Cada um deles é capaz de fornecer quatro colheitas. Seguindo os princípios da agricultura orgânica, ele usa água de manancial que vem direto da Serra da Tiririca e nenhum defensivo químico. O descarte é todo aproveitado em plantações de pequenos produtores locais.
A Canopus – nome de sua empresa — é a única produtora de shitake fresco em Niterói. As cidades de Friburgo, Teresópolis e Petrópolis também têm cultivos, mas não são suficientes para dar conta da demanda. Grande parte do shitake fresco consumido no Rio vem de São Paulo e é vendida por atravessadores, o que encarece o preço final.
O objetivo de Antônio Pedro é atender Niterói e a Região dos Lagos — uma área pouco explorada. “Meu produto pode chegar mais rápido, com melhor preço e mais qualidade porque é colhido no dia em que é distribuído”, afirma ele.
O shitake de Pepeu é vendido nas feiras de São Francisco e da Rua Lopes Trovão, em Icaraí, onde vende de 20 a 25 bandejas todo sábado. Distribui também para a Confeitaria Beira-Mar e para o restaurante Areias, em Itacoatiara, além de lojas de produtos naturais. Ele pretende aumentar em 50% a produção até o fim do ano.
O chef Rodrigo Kossatz, do restaurante Areias, não poupa elogios: “O cogumelo dele é simplesmente sensacional. Além de ser fresco, o que já é um grande diferencial pois a maior parte do shitake disponível no mercado é desidratada, é um produto mais bonito e até cheiroso. O carinho e o cuidado que o Pepeu tem pelo cultivo do shitake certamente influencia na boa qualidade.”
Do leste da Ásia
O shitake é um cogumelo comestível nativo do leste da Ásia. Seu nome tem origem no japonês shii (uma árvore parecida com carvalho) e take (cogumelo). É o segundo cogumelo mais consumido no mundo. Na década de 1990, passou a ser cultivado no Brasil e, hoje, é um ingrediente que conquista cada vez mais espaço no mercado, atrás apenas do champignon.