Agências de modelos e cursos de teatro podem abrir as portas da fama

Cidade se transforma em celeiros de bons artistas

Por paulo.gomes

Niterói - A porta da fama está em Niterói. Nomes como Juliana Knust, Marina Ruy Barbosa, Isabelle Drummond e Humberto Carrão fizeram parte do casting (catálogo de profissionais) da Désir Models, uma das principais agências de modelos e atores do país. Localizada em São Francisco, ela recebe pelo menos dez novas crianças por dia. E o resultado não podia ser outro: ao longo dos 21 anos de existência, mais de 200 mil menores — do Brasil e do mundo — passaram por lá.

Marsil Moura foi o responsável pela maquiagem da ‘fofura’ Isabella Rouge%2C de apenas 1 ano e 9 mesesAlexandre Vieira / Agência O Dia

Atualmente, são 15 mil atores infanto juvenis ativos. Entre eles, 75% estão no mercado, realizando testes, integrando campanhas publicitárias ou participando de algum trabalho. De início, o número pode assustar, é o equivalente a quase mil elencos de novelas infantis como Chiquititas. Mas o segredo é esperar sua hora chegar.

Muitas crianças já nascem prontas. Letícia Pimentel, de 3 anos, chegou pela primeira vez à Désir cheia de vergonha. Sem querer muito papo, a menina já mostrou que tem o dom. Em rápidos dez minutos as fotos ficaram lindas, mas depois disso, como toda grande estrela, não queria mais posar.

A fundadora da Désir, Marleide Moraes explica que isso pode acontecer, mas sempre tem um jeitinho. “A Lelê tem todo jeito e dá pra perceber que faz as fotos de boa. O problema é que a mãe, que trabalha fora veio junto. Agora ela só quer saber de dengo. Mas é só remarcar a sessão, sem a Caroline”, disse.

Para ser uma agenciada da Desir, a criança deve passar por uma entrevista. Daí o responsável fica sabendo como tudo funciona. Aí tem uma taxa de R$ 80. Só então entra o book, que pode ser feito na própria agência, por R$ 500. Feito isso, é a hora da criança fazer um teste com a diretora de casting, Juliana Moraes. Daí é torcer para chegar um papel com seu perfil. A agência fica com 35% do cachê de cada trabalho.

Outra agência que exporta talentos é a Elenco 5. Ela fica em Itaipu e tem cerca de mil artistas cadastrados. Destes, 80% são crianças. O espaço existe há seis anos e a diretora de casting Cacau Pires afirma que só viu crescimento. “Para tudo dar certo, é preciso que o desejo de atuar parta da criança. É preciso ter gosto pelo coisa”, avalia.

Aproximadamente 50 agenciados da Elenco 5 estão trabalhando. Entre eles Gian Filippo Sacco, de 20 anos, que faz parte do elenco de Malhação e Milla Freitas, 12, que está na série Milagres de Jesus, da Record.

Júlia Belmont está na TV GloboAlexandre Vieira / Agência O Dia

Já a bonequinha dos olhos azuis, a pequena Isabella Rouge, que ainda nem completou dois aninhos, ficou curiosa para ver as fotos do seu book na Desir. “Todo mundo sempre falou que ela tem cara de bebê de propaganda, mas eu preferi esperar ela crescer um pouco para trazer. É claro que seria ótimo ver minha filha em uma revista, por exemplo”, admite a mãe dela, Fernanda Rouge.

Segundo os donos das agências, não existe hora certa para começar. Os pais devem observar o jeito de seus filhos. O melhor é incentivar quando perceber que a criança tem o dom, mas sem cobrar nada dela.

Marleide Moraes afirma que Niterói é um celeiro de talentos. Quase metade dos artistas da agência são da cidade. “Esse lugar tem muita gente boa. Não conheço nenhuma cidade igual, com tantos talentos. E por isso não tiro a agência daqui”, se anima.

A niteroiense Júlia Belmont, de 11 anos, é uma que está no ar. Após dois anos de aulas de teatro, conseguiu um papel em Império, novela das 21h da Rede Globo. Ela é a Stephany, melhor amiga de Bruna, interpretada por Kiria Malheiros e filha do personagem de Caio Blat.

É o primeiro papel de Júlia em novela. Para conseguir conciliar estudo e trabalho, teve que mudar de escola e passar a frequentar as aulas na parte da manhã. Ela está feliz da vida com a oportunidade de trabalhar ao lado de nomes como Lília Cabral.

“Eu nem acreditei quando soube que passei no teste para ser a Stephany. Quase tive um troço (risos). Adoro ser atriz, tenho facilidade em decorar os textos e encenar. Quero fazer carreira na televisão”, diz a menina, que já sabe reconhecer o talento dos colegas de trabalho. “Admiro muito a Kiria e até me inspiro nela. Ela é super profissional”, comenta.

Os resultados orgulham Marleide. “A procura cresce ano a ano. Nos últimos cinco anos, o número de agenciados cresceu 60%. Tenho medo de um dia explodir”, brinca, lembrando que a casa tem parceria com os principais canais da televisão aberta (Globo, Record e SBT) e com produtoras de publicidade.

Lei prevê que 40% do cachê fique guardado no banco

Para não haver nenhum tipo de exploração, os pequenos que trabalham no ramo artístico são protegidos por lei. Eles são regidos pela Portaria nº 7/2003. Ela diz que as as crianças e adolescentes só podem trabalhar na presença dos pais ou responsáveis.

Eles também são os administradores dos bens dos menores, mas 40% de cada cachê deve ir para uma poupança em nome da criança, onde o dinheiro permanecerá até o mesmo atingir a maioridade. O artista mirim também deve estar devidamente matriculado na escola e os trabalhos devem respeitar o horário de estudo, de lazer e nunca ultrapassar às 22h.

A mãe da Júlia Belmont, a empresária Karla Gaby, sempre acompanha a filha nas gravações e acha que as normas são muito positivas. “É muito importante existir este regulamento. É uma forma de proteger a criança e obrigar os pais a guardarem uma parte do dinheiro para o futuro dela”, declara.

Alunos do projeto ‘Maratona do Ator’%2C que acontece duas vezes por ano (nas férias) na agência Elenco 5Divulgação

Marcello Caridade é top em musicais

Niterói também tem qualidade na formação de atores de teatro. Uma referência na cidade é a Oficina de Teatro Musical Marcello Caridade. O curso tem 15 anos e, segundo o fundador que dá nome ao projeto, é um dos mais completos do ramo.

“Além da interpretação, ensinamos dança, canto e acrobacia. Queremos que o ator saia daqui pronto para o mercado. Todos ajudam na produção, passam por uma simulação de audição e participam de um musical de final de curso”, explica.

E são produções de peso. Ano passado a turma apresentou Chicago, esse ano, será a vez de Hair. A fama da oficina faz gente do Rio vir para o lado de cá da Baía de Guanabara. As aulas acontecem aos sábados e o curso custa R$ 300 mensais. Atualmente, Marcello só tem turmas para jovens a partir de 16 anos.

Fernanda Guerreiro, de 18 anos, está há sete anos no curso, e esteve no elenco de seis peças, com a certeza que quer seguir na carreira de atriz.

“Adoro atuar e participar da produção dos espetáculos. Não existe nenhuma sensação como a de estar no palco. Depois que me caracterizo não sou mais eu que estou ali, é o meu personagem”, conta.

Ela está se preparando para o vestibular, quando vai escolher entre produção cultural e artes cênicas. A última vez que esteve no palco, na peça Chicago, o figurino de Fernanda era uma lingerie. A mãe, Beatriz Lourival, levou um susto, viu que sua menina estava virando uma mulher.Mas não se opõe à vontade da filha, sabe que ela tem talento.

“Como ela começou cedo, eu sempre estive presente. Levava e buscava dos ensaios e sempre tive que autorizar a participação dela nos espetáculos”, contou Beatriz.

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