Protesto contra Copa em SP tem quebra-quebra e confronto com a polícia

Cerca de 120 pessoas foram detidas, incluindo cinco jornalistas. Polícia tentou dividir protesto em dois grupos, isolando os black blocs

Por adriano.araujo , adriano.araujo

São Paulo - Um confronto entre policiais e manifestantes marcou o protesto contra a Copa do Mundo realizado no centro de São Paulo neste sábado. Cerca de 120 pessoas foram detidas, de acordo com o comandante das operações da PM no protesto, major Larry Saraiva. Parte dos detidos foi liberada, incluindo cinco jornalistas.  "Vi prisões de forma arbitrária. Não pudemos acompanhar as revistas e houve agressões à imprensa", afirmou Leone. 

A confusão começou por volta das 18h50, quando o protesto passava pela rua Xavier de Toledo. A polícia tentou dividir o protesto em dois grupos, isolando, à frente, os black blocs e, atrás, um grupo que carregava bandeiras de partidos. A partir daí, começou um corre-corre. Bombás de efeito moral e de gás lacrimogêneo foram lançadas contra os manifestantes. Eles colocaram fogo em lixo, atacaram portas e vidraças de estabelecimentos comerciais da região e jogaram objetos contra os policiais.

Black blocs depredaram estabelecimentos no centro de São PauloWanderley Preite Sobrinho / iG

Após o tumulto, os manifestantes que estavam à frente se dispersaram. Outros grupos voltaram a se concentrar na praça da República, que estava cercada pela Tropa de Choque. "Um policial me disse que (a intervenção policial) começou porque um grupo de manifestantes começou a gritar 'quebra, quebra'", disse Leone.

Um outro advogado que apoia os manifestantes, Luiz Guilherme Ferreira, disse que um dos membros da Tropa de Choque lhe tomou o celular das mãos durante a prisão dos manifestantes. "Tomei uma gravata", afirmou. Uma advogada que havia sido detida foi liberada. Um fotógrafo de um veículo de comunicação foi detido por volta das 20h, quando não praticava nenhum ato de vandalismo.

Parte dos manifestantes foi liberada por policiais, entre eles uma advogada e três jovens que usavam camisetas vermelhas - dois deles da União Nacional dos Estudantes (UNE). "Estão levando principamente os que estão com roupa mais escura", afirma Michel Luiz, de 24 anos, estudanteda Unicamp, que saiu mancando do isolamento policial em razão de um tombo. "A gente estava andando pacificamente e a polícia chegou e cercou alguns grupos. Pegaram as pessoas aleatoriamente", conta o estudante, sobre o momento da intervenção policial na rua Xavier de Toledo.

"Mandaram a gente calar a boca, disseram que a gente é de partido político e está fazendo arruaça", disse o colega de Luiz na Unicamp, Guilherme Borges, de 21 anos, que tinha sangue no rosto, mas não estava ferido. "Muitas pessoas caíram uma por cima das outras", detalhou. A tática de deter um grande número de pessoas já havia sido adotada pela PM no protesto anterior, em 25 de janeiro. Na ocasião, cerca de 60 foram mantidos em um hotel na rua Augusta, onde houve confronto.

Um ônibus com os manifestantes detidos deixou a rua Xavier de Toledo por volta das 20h em direção ao 78° Distrito Policial, dos Jardins. De acordo com a PM, dois deles terão de passar por atendimento médico antes de seguirem para o DP. Quatro policiais militares ficaram feridos nos confrontos - um sofreu um corte no rosto, um no lábio e outros dois, fraturas no membro superior.

De acordo com a PM, um manifestante abandonou uma mochila com um coquetel molotov na estação Ana Rosa do Metrô. A ação foi gravada pelo sistema de monitoramento.

Protesto pacífico

A manifestação começou de forma pacífica. Aos gritos de "Não vai ter Copa", ao som de batucada, e com performances artísticas, manifestantes se reuniram na tarde na praça da República, para protestar contra os gastos públicos para a realização do evento no País. Mil policiais foram mobilizados para acompanhar a manifestação, chamada de segundo ato contra a Copa do Mundo. A estimativa da polícia às 17h era de mil parcipantes.

Às 17h50, o grupo sentou para ouvir e gritar palavras de ordem e lembrou do jovem baleado no primeito ato, em 25 de janeiro. Fabrício Chaves levou dois tiros de um policial quando caminhava pelo centro. Atingido no tórax e no pênis, ele ficou internado por 16 dias na Santa Casa. "Contra a repressão, contra a Copa, pelo Fabrício, pelo poder popular", anunciaram os participantes. Por volta das 18h, eles subiram a avenida Ipiranga, e pegaram a rua da Consolação com destino ao Vale do Anhangabaú.

Protesto durante a Copa das ConfederaçõesReuters

Após o confronto com a polícia e a dispersão de parte dos manifestantes, parte deles voltou a se reunir na praça da República. Por volta das 20h, um grupo de cerca de 200 pessoas seguia para a rua da Consolação.

O emblemático Edifício Itália fechou as portas. Manifestantes vestidos de preto e mascarados lideram o protesto, seguidos por um grupo que leva bandeiras do PSTU e da Liga Bolchevique Internacionalista.

O movimento contra a Copa reúne cerca de 15 coletivos, de acordo um dos organizadores do evento, que preferiu se identificar apenas como F.M.. "Queremos apontar o que o governo deixou de fazer para realizar a Copa", afirmou.

"Eu gosto de futebol, mas temos que sacrificar nossos gostos. Eu sou contra investimento para maquiar corrupção", diz Beto Fontes, de 43 anos, que tatuou a palavra revolução, em inglês, no braço, onde já ostentava uma bandeira do Brasil.

Por volta das 17h30, um grupo com bandeiras do PSTU se juntou aos manifestantes, que ainda se organizavam para sair em marcha. Até então, apenas bandeiras do movimento anarquista eram vistas no protesto.

Os estudantes Lucas Crivelaro e Willians Mardegan, de 18 e de 20 anos, participam do protesto. "Se o brasileiro não se mexer, nada acontece", diz Mardegan, que pela primeira vez toma parte em uma manifestação. "A manipulação da mídia, assim como atitude de alguns manifestantes e da polícia acaba afastando as pessoas das ruas", afirmou Crivelaro.

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