Rio - Em meio à comoção provocada pelo desaparecimento do voo 370 da Malaysia Airlines no começo do mês, familiares dos 58 brasileiros mortos na queda do voo AF 447, da Air France, em 2009, receberam com surpresa a programação de homenagens preparada pela companhia francesa para o quinto aniversário do acidente, lembrado daqui a dois meses, no próximo dia 31 de maio.
A diferença de tratamento é tamanha que a Associação de Familiares no Brasil encaminhou carta aos franceses e criou uma página no Facebook em repúdio aos preparativos da companhia, classificada de “preconceituosa”.
Ao todo, 229 pessoas morreram no voo, que desapareceu no oceano Atlântico depois de partir do Rio de Janeiro com destino à França.
O Escritório de Investigação e Análise (BEA, na sigla em francês) divulgou o relatório final sobre o acidente apenas três anos depois. O documento indicou que após problemas nas indicações de velocidade da aeronave, os pilotos falharam ao não tomar as medidas necessárias para reverter a situação.
Além dos 58 brasileiros, não chegaram a Paris 71 franceses, 28 alemães e 18 italianos. As outras 54 vítimas se dividiam em 29 nacionalidades.
A carta encaminhada pela Air France aos familiares brasileiros apenas comunica a distribuição de flores no Memorial Parque Dois Irmãos. Na França, além da distribuição de flores, a companhia preparou uma programação que vai das 10h às 17h, incluindo cerimônia ecumênica, tendas para alimentação, transporte e local para descanso.
“Eu fiquei chocado com a simplicidade do que está sendo proposto para nós e a complexidade em Paris. Nos outros anos sempre foi similar”, afirmou ao iG Maarten Van Sluys, irmão de uma funcionária da Petrobras morta no acidente, Adriana Van Sluys. “O que chamou mais atenção é que lá eles oferecem bilhetes aéreos para familiares de outras nacionalidades, enquanto os brasileiros terão de pagar do bolso para ir ao Rio de Janeiro. Tem gente que mora em Natal, Brasília, São Paulo, Minas Gerais...”
Maarten afirma que os franceses sempre foram “preconceituosos” em relação aos brasileiros. “Há uma grande diferença de tratamento, discriminação mesmo. Sempre houve, mas agora a demonstração é explícita”, lamenta.
A associação encaminhou um e-mail à Air France dizendo que não aceita a diferença de tratamento. “Foi respondido que nossa reclamação seria enviada à direção da empresa, que se posicionaria a respeito.”
Além da reclamação formal, a associação criou uma página no Facebook intitulada “5 Anos de Saudade - AF 447”. “Repudiamos a programação. Não estamos dispostos a aceitar essa diferença gritante que as duas programações sugerem”, conclui Maarten.
O iG entrou em contato com a Air France, que respondeu que "está em contato com a Associação dos Familiares brasileiros para a organização da cerimônia dos 5 anos do acidente AF447, dia 1º de junho no Rio de Janeiro".