Funeral é marcado por vaias, aplausos e gritos de guerra

Marina e Renata são ovacionadas, Dilma se perde de Lula e Aécio evita cruzar com presidenta

Por karilayn.areias

Rio - Políticos de todos os partidos compareceram ontem em peso ao funeral de Eduardo Campos. Acompanhada do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que aparentava estar muito abalado, a presidenta Dilma Rousseff chegou pela manhã ao Palácio Campo das Princesas, sede do governo de Pernambuco, onde participou da missa campal de corpo presente do ex-governador e assessores. Foi vaiada por uns e aplaudida por outros.

Ao deixar o Palácio Campo das Princesas pela porta dos fundos, Dilma perdeu Lula de vista e teve que esperar cerca de 10 minutosErnesto Carriço / Agência O Dia

Enquanto aguardava a chegada do caixão ao jazigo da família Arraes no Cemitério de Santo Amaro, um grupo de populares entoava gritos contra a presidenta Dilma, pedindo que a viúva Renata integre a chapa do PSB à Presidência da República, junto com Marina Silva. “Fora Dilma, agora é Marina” e “Marina e Renata” eram gritos ouvidos dentro de cemitério.

O presidenciável tucano Aécio Neves também compareceu à cerimônia com o vice em sua chapa, o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP). “Vaiar em velório é ruim. Pelo que ouvi foi coisa de uma minoria de militantes mais aguerrida. Não vejo maiores consequências políticas”, afirmou Nunes Ferreira. O pastor Everaldo, candidato à Presidência pelo PSC, também foi ao velório.

Ao fim da missa, o ex-presidente Lula foi o primeiro a cumprimentar a viúva Renata Campos. Em seguida, veio a presidenta Dilma Rousseff e, logo atrás, o tucano Aécio Neves. Ao deixar o Palácio Campo das Princesas pelos fundos, Dilma perdeu Lula de vista. A espera pelo ex-presidente durou cerca de dez minutos. Ainda na cerimônia, Lula, de quem Marina Silva foi ministra do Meio Ambiente, entre 2003 e 2008, deu um abraço na ex-senadora.

Saia justa

Na saída da missa, Aécio Neves preferiu não cruzar com Dilma Rousseff. Enquanto a presidenta aguardava Lula, o tucano e seus assessores se dirigiram ao local para ir embora. Ao ver que cruzaria com Dilma, Aécio parou e pediu que o prefeito de Salvador, Antonio Carlos Magalhães Neto (ACM), que o acompanhava, esperasse.

Com Miguel%2C caçula de Campos no colo%2C Lula confortou a viúva Renata. Ao seu lado%2C o adversário José SerraReuters

Para escapar de Dilma, o tucano decidiu pegar um outro corredor do jardim. Ele parou para dar entrevista e, quando resolveu ir embora, viu que cruzaria com a adversária novamente. “Espera, deixa ela sair primeiro”, disse a assessores.

Adversário do governo do PT, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) disse que as vaias que a presidenta Dilma recebeu ao chegar ao velório de Campos são “justificáveis” porque o comparecimento dela é “falso”. “Ela não tinha nada que vir aqui. É falso. Ela não gostava mais de Eduardo, queria manter distância de Eduardo”, observou. “Não viria aqui para fazer uma falsidade dessas”, disparou.

Apesar de ter sido um duro crítico de Lula em seus dois mandatos, Vasconcelos afirmou que as vaias a ele não são justificadas por causa do carinho que o ex-presidente tinha por Campos: “Lula gostava dele.”

Militantes do PSB carregavam bandeiras do partido e camisetas com a frase “Não vamos desistir do Brasil”, celebrizada por Eduardo Campos em sua última entrevista, terça-feira, 12, no ‘Jornal Nacional’, da TV Globo.

Também foram espalhadas faixas por toda a cidade de Recife, produzidas pelo PSB, com os seguintes dizeres: “Seus ideais permanecem vivos em cada um de nós”. Faixas e camisetas também traziam a foto do presidenciável, com data de nascimento e de morte.

Campos é enterrado pelos mesmos coveiros do avô

Mortos no mesmo dia, 13 de agosto, o avô Miguel Arraes e o neto Eduardo Campos foram, também, sepultados pelos mesmos coveiros, que trabalham há 27 anos no Cemitério de Santo Amaro. Admiradores e eleitores de Arraes e Campos, Inaldo José da Silva, de 59 anos, e Marco Aurélio dos Santos, 51, lembram da cerimônia de 2005 e se dividem entre a dor e o orgulho de abrigar a dupla no que chamam de “sua última morada.”

“Não dá para dizer que é bom. Mas é nosso trabalho. Enterrar gente. A gente sofre. E os dois eram gente do povo. Eram importantes, mas do povo, porque olhavam para o povo”, disse Inaldo José.

As quase três décadas de trabalho não foram capazes de endurecer os corações da dupla. Eles estavam sérios, como pede a função, mas foram contagiados pela emoção que tomou conta do cemitério público de Santo Amaro. “É muito duro. O governador, tão novo, cheio de filhos e de vida. É duro”, disse Marco Aurélio.

Na véspera do enterro, funcionários do cemitério construíram um pequeno túmulo onde seria depositado o caixão com os restos mortais. A família, no entanto, reprovou a obra e mandou desfazer. Campos foi enterrado da mesma forma que o avô, no chão, em sepultura simples, como pede a tradição da família.

O enterro, no final do dia, foi sob forte emoção. Rostos anônimos da capital e do sertão deixaram suas casas e, sob sol, chuva e choro, se despediram do seu ex-governador. “Vim do Crato, no Ceará, terra onde nasceu Miguel Arraes, para me despedir do neto dele. É como se eu estivesse falando com o ‘véio’. Quem é do povo não esquece o que essa gente fez”, contou o lavrador Genésio de Lima, de 63 anos.

Petistas acusam Marina de selfie no funeral

O comportamento de Marina Silva durante o funeral do ex-governador Eduardo Campos foi duramente criticado ao longo do dia de ontem nas redes sociais por integrantes e simpatizantes do PT. Postando fotos que mostram Marina acenando para o público e tirando fotos com populares, petistas acusaram a provável candidata do PSB à Presidência da República de “oportunismo eleitoral” durante a cerimônia fúnebre de Campos em Recife.

Assediadas por políticos e eleitores%2C Marina e a viúva Renata foram aclamadas por militantes da campanhaReuters

Em seu blog, o jornalista Paulo Henrique Amorim criticou a postura da ex-senadora, a quem acusou de posar para selfie com populares no funeral. Ele publicou uma foto de Marina sorrindo, ao lado de uma mulher. Do outro lado estava o governador de Pernambuco, João Lyra Neto. Mais abaixo, Paulo Henrique postou uma foto do ex-presidente Lula consolando os familiares. “Marina faz selfie no funeral. Compare com a postura de Lula.”

O site da campanha à reeleição da presidenta Dilma Rousseff reproduziu uma foto com a legenda: “Adeus, Eduardo”. A imagem, escurecida com efeitos de computador, mostra Dilma ao lado de Lula no momento em que o ex-presidente abraçou a viúva Renata Campos durante o velório. Não há nenhuma menção ao provável lançamento de Marina Silva como candidata. O site do candidato Aécio Neves (PSDB) traz uma homenagem a Campos com uma foto do ex-governador de Pernambuco e os dizeres: “Eduardo Campos - 1965/2014”.

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