De Olho na Política: Chega de intolerância

Em lugar de discutir ideias e programas de governo, a atenção dos eleitores é desviada para ataques pessoais

Por felipe.martins , felipe.martins

Rio - O Brasil viveu nos anos 60 situações políticas bem mais agudas do que a da atual disputa sucessória. Mas, apesar da forte tensão, respeitavam-se as ideias opostas. Para quem duvida, vale a pena ler o livro de José Serra (“Cinquenta anos esta noite”), que fala dos tempos do golpe de 1964, da ditadura e do exílio. Presidente da UNE aos 22 anos, Serra lembra um debate com Ruy Mesquita, dono do jornal “O Estado de S. Paulo”, no auditório da PUC, reduto da Ação Popular. Com 90% da plateia a favor do governo, Mesquita atacou o presidente João Goulart e falou da ameaça comunista. Houve murmúrios, mas não vaias. Conclusão de Serra: “Esse debate seria impossível hoje. O Ruy não seria convidado. Se fosse, não o deixariam falar. Há uma diferença entre a informação convicta e a ignorância convicta. A primeira é tolerante, a segunda, não.”

José Serra, que viveu 13 anos no exílio, afirma que, embora o conflito político-ideológico fosse muito mais acentuado naquela época, “havia bem mais interesse e tolerância nos debates das universidades”. E o mais grave é que intolerância empobrece a discussão pública. O Brasil vive hoje dias de democracia plena e não há o menor risco de guinadas institucionais. Mas, ao que se vê na campanha na TV, em parte da mídia e nos blogs na internet, prevalece muito mais a ignorância convicta do que a informação convicta.

Em lugar de discutir ideias e programas de governo, a atenção dos eleitores é desviada para ataques pessoais. Fala-se muito do tecnicismo de Dilma Rousseff e dos riscos que pode representar o misticismo de Marina Silva. A palavra de ordem é desconstruir a imagem da adversária.

Temos pela frente uma disputa renhida entre Dilma e Marina. As duas devem se enfrentar no segundo turno. Os eleitores terão que escolher entre duas candidatas de biografia irretocável. Ambas participaram do governo Lula, Marina como ministra do Meio Ambiente, Dilma como ministra de Minas e Energia e depois chefe da Casa Civil. Filha de imigrante búlgaro, a presidente pertence à classe média alta de Belo Horizonte, mas desde cedo fez opção pela esquerda. Participou da luta armada, foi presa e torturada. Ao sair da prisão, formou-se em economia, aderiu ao brizolismo e participou do governo do PDT em Porto Alegre. Mais tarde, transferiu-se para o PT até participar da vitória de Lula em 2002. Com o apoio do ex-presidente, chegou ao cargo máximo da Nação, no qual deseja ficar por mais quatro anos.

Marina Silva é de origem humilde, como Lula. Foi seringueira e empregada doméstica. Graças ao esforço pessoal, alfabetizou-se e concluiu o supletivo. Estudava pela madrugada à luz de velas. No fim da década de 70, fez um curso de formação de lideranças rurais, no qual conheceu Chico Mendes. Quando militava no Partido Revolucionário Comunista, entrou para a Universidade Federal do Acre, no curso de História. Fundou o PT no Estado e deu início à trajetória que a levou ao Senado da República, sempre pelo PT. Apaixonada pelas questões ambientais, passou pelo Partido Verde e agora, pela segunda vez, tenta chegar à Presidência.

O país decidirá entre duas mulheres dedicadas a seus ideais. Uma é católica, a outra, evangélica. Também têm visões diferentes sobre os problemas do país. Esse é o parâmetro que importa na hora da escolha. E não a intolerância e os ataques pessoais.

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