Presidentes de empreiteiras são presos por corrupção

Dirigentes de empresas que tinham contratos com a Petrobras foram alvo da operação da PF

Por bferreira

Rio - Polícia Federal prendeu ontem executivos de grandes empreiteiras do país suspeitas de pagar propinas para fechar contratos com a Petrobras, e Renato Duque, ex-diretor de serviços da estatal, que teria sido indicado para o cargo pelo PT. As prisões foram feitas durante a sétima fase da Operação Lava Jato. Dos 25 mandados de prisão expedidos, 18 foram cumpridos até o início da noite de ontem. Entre os executivos que tiveram a prisão preventiva ou temporária decretada estão os dirigentes de cinco grandes empresas: OAS, Camargo Corrêa, Iesa Óleo e Gás, UTC e Construtora Queiroz Galvão.

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Juntas com outras empresas envolvidas no escândalo, essas cinco empreiteiras têm contratos que somam R$ 59 bilhões com a Petrobras, considerando o período de 2003 a 2014. Segundo as investigações, parte desses contratos se destinava a “esquentar” o dinheiro que irrigava o caixa de políticos e campanhas no país.

Valdir Lima Carreiro (Iesa), José Aldemário Pinheiro Filho (OAS) e Ricardo Ribeiro Pessoa (UTC) estão presos. Dalton dos Santos Avancini (Camargo Corrêa) não foi localizado pela polícia. Ildefonso Colares Filho (Queiroz Galvão) se entregou no fim da tarde de ontem .

“Tem de investigar os corruptores e os corrompidos”, defendeu o delegado da PF Igor Romário de Paula. Foram bloqueados R$ 720 milhões dos executivos investigados, até o limite de R$ 20 milhões por pessoa. Não houve bloqueio das contas das empresas, para não prejudicar a saúde financeira delas.

O lobista Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano, apontado como operador do PMDB na Petrobras, entrou na lista de procurados da Interpol e do sistema nacional de procurados e impedidos. A PF tinha um mandado de prisão, mas não conseguiu localizar o suspeito de envolvimento em desvios da estatal. As primeiras referências ao suposto envolvimento de Fernando Baiano com fraudes na estatal surgiram em depoimentos prestados pelo ex-diretor de Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa e pelo doleiro Alberto Youssef.

Segundo Costa, assim como ele, o então diretor Renato Duque recebia propinas do esquema de corrupção montado na empresa e foi colocado na diretoria pelo ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu. Só um dos supostos cúmplices de Renato Duque teria recebido US$ 100 milhões. Documento da Petrobras aponta que a diretoria de Duque foi responsável pelas 12 licitações das obras da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco.

Aécio Neves quer criar outra CPI

A oposição começou a articular ontem mesmo a criação de uma nova CPI mista para 2015, quando começa a nova legislatura — há, hoje, duas investigando a Petrobras no Congresso. Sem resultado. Quem puxou a coleta de assinaturas foi o senador Aécio Neves (PSDB), derrotado pela presidenta Dilma Rousseff (PT) na campanha.

Será necessário, para isso, o endosso de 27 senadores e de 171 deputados.

O deputado federal Otavio Leite (PSDB-RJ), que já assinou a iniciativa de Aécio, diz acreditar que a operação Lava Jato seja um “divisor de águas para o Brasil”. “Tem de se investigar essa rede criminosa que assaltou a Petrobras”, defendeu.

Já Chico Alencar, deputado federal pelo Psol do Rio, defende que uma eventual CPMI não tenha a participação de nenhum parlamentare beneficiado por dinheiro doado pelas empreiteiras acusadas de corrupção. “É o mínimo a se fazer, para não haver conflito de interesse”, diz.

Entretanto, o deputado federal vê a prisão de “poderosos” como algo “pioneiro” no país. “Como esses executivos, jamais havia sido presos ficaram, como estão, na condição de investigados.”

EMPRESAS DOARAM PELO MENOS R$ 88 MILHÕES A PARTIDOS

As empresas que tiveram seus executivos presos pela PF ontem doaram pelo menos R$ 88 milhões para campanhas políticas neste ano. Levantamento feito pelo DIA com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) considerou o valor repassado por OAS, UTC e Engevix a diretórios nacionais de 21 partidos. O valor deve ser ainda maior, pois as empresas podem fazer doações individuais aos comitês financeiros de cada candidato, e a prestação final de contas dos políticos ao TSE poderá ser feita até o dia 25 de novembro.

Em setembro, O DIA divulgou que 30% do arrecadado pelos três candidatos à Presidência mais bem posicionados nas pesquisas, Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (PSB) — dos R$ 185 milhões até a apresentação da segunda parcial de contas, R$ 56 milhões — vieram de empresas que são alvo da ‘Operação Lava-Jato’.

A OAS, que teve executivos presos ontem, doou pelo menos R$ 51,05 milhões aos diretórios analisados. O PMDB puxa a fila: a direção nacional recebeu R$ 12,8 milhões da empreiteira. Na sequência, aparecem o PT, com R$ 11,2 milhões, e o PSDB com R$ 10,5 milhões.

A UTC contribuiu com R$ 29,725 milhões, sendo que R$ 12,6 foram para a direção nacional petista. No PR, as doações chegaram a R$ 5,6 milhões, e no PSDB, a R$3,2 milhões.

A Engevix doou “modestos” R$ 7,1 milhões aos partidos. Quase 78% desse valor, porém, destinaram-se a PT e PR: juntas, as legendas receberam R$ 5,6 milhões da empreiteira, cuja diretoria também foi presa ontem.

Dos 16 deputados que compõem a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga irregularidades na Petrobras, quatro receberam dinheiro para fazer campanha das empreiteiras investigadas. O maior beneficiado foi o deputado Lúcio Vieira Lima, do PMDB baiano, que recebeu R$ 732 mil da OAS.

Sibá Machado (PT-AC), representante do governo na CPMI, recebeu R$ 120 mil em duas doações, uma da OAS e outra da Engevix. Já Julio Delgado (PSB-MG) recebeu R$ 80 mil da Odebrecht. A contribuição mais modesta foi a José Carlos Araújo (PSD-BA), que ganhou R$ 27,2 mil de doações da OAS e Engevix. 

Está em tramitação no Supremo Tribunal Federal proposta que proíbe empresas de doarem a partidos políticos.

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