Dinheiro sujo aparece em 14 campanhas eleitorais de 2010

Pedidos de investigação da PGR trazem indícios de que doações eram oriundas de propinas

Por felipe.martins , felipe.martins

Rio -  A divulgação dos pedidos de inquérito feitos pela Procuradoria Geral da República no âmbito da Operação Lava Jato expôs as mazelas de uma das regras mais polêmicas do sistema eleitoral brasileiro: o financiamento de campanha. Em um levantamento feito pelo DIA nos pedidos da PGR, deferidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF), pelo menos 14 dos políticos que responderão a inquérito são citados nominalmente como beneficiários de dinheiro sujo na campanha de 2010.

Fortemente lastreada nos depoimentos do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, e do doleiro Alberto Yousseff, a apuração da Procuradoria revela que o dinheiro das empreiteiras, que entrava nos caixas de campanha, muitas vezes chegava a ser declarado na prestação de contas oficial enviada à Justiça Eleitoral. A ilegalidade é que os recursos não eram doados de forma desinteressada. Na verdade, as quantias faziam parte da porção que as empresas pagavam a título de propina em contratos com a Petrobras. Os percentuais variavam entre 1% e 3% do total dos contratos, segundo os depoimentos.

Políticos do Rio citados na lista da Lava JatoArte O Dia

A ex-governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PMDB-MA), seria uma das beneficiadas. Segundo Costa, ela recebeu R$ 2 milhões para a campanha ao governo. Em depoimento, o executivo diz que o pedido do dinheiro foi intermediado pelo ex-ministro de Minas e Energia, Edison Lobão.

Nas petições da Procuradoria, aparecem cinco candidatos ao senado em 2010 que supostamente recorreram ao esquema para financiar suas campanhas: Lindberg Farias (PT-RJ) teria pedido R$ 2 milhões; Gleisi Hoffman (PT-PR), Humberto Costa (PT-PE) e Benedito Lira (PP-AL) seriam beneficiários de R$ 1 milhão, cada. Já Valdir Raupp (PMDB-RO) ganhou, supostamente, R$500 mil. O PT é um dos partidos que mais defende a mudança de financiamento para o modelo público.

Lindberg Farias assumiu que procurou Costa para pedir dinheiro para a campanha. Ele alegou que “sabia que o ex-diretor era uma pessoa bem relacionada na Petrobras”. À Folha de S. Paulo, contou que Costa procurou a Andrade Gutierrez e a empresa fez a doação para o então candidato. Ele alegou que não sabia que os recursos eram uma fração de dinheiro destinado a propina.

Do Rio de Janeiro, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), e o deputado federal Simão Sessim (PP) também são citados como beneficiários de dinheiro sujo. Cunha é um dos principais opositores à ideia do financiamento exclusivamente público de campanha.

Humberto Costa e Gleisi Hoffmann teriam recebido propina%2C apesar do PT condenar financiamento privadoReprodução Internet

Sobre o político, Yousseff conta que foi procurado pelo operador do PMDB, Fernando Baiano em 2010. O doleiro afirmou que “havia cobrança de valores para a campanha e que foi Baiano que viabilizou estes recursos, pois ele tinha contato com Otávio Azevedo, presidente da Andrade Gutierrez”. O doleiro disse que recolheu três parcelas de R$ 500 mil na empreiteira para Cunha. Ontem, o presidente da Câmara se defendeu e chamou o pedido da PGR de “alopragem” e “piada”. Os demais envolvidos divulgaram notas negando as acusações.

CAMPANHAS SOB SUSPEITA

ROSEANA SARNEY

Segundo Costa, ela recebeu R$ 2 milhões para concorrer ao governo do Maranhão, intermediados por Edison Lobão.

GLEISI HOFFMANN

Alberto Yousseff disse que entregou, pessoalmente, R$ 1 milhão a um homem “em um shopping de Curitiba”, destinado à campanha de Gleisi.

HUMBERTO COSTA

O valor de R$ 1 milhão foi autorizado porque Humberto Costa era “um expoente dentro do PT”, segundo o ex-diretor. Em sua prestação oficial, o senador declarou R$ 1,5 milhão vindos da Camargo Correa e da OAS.

VALDIR RAUPP
Em depoimento, Yousseff diz que combinou com uma assessora de Raupp o pagamento de R$ 500 mil. Para o pagamento, ele usou “um crédito” que possuía com a Queiroz Galvão, que entraria como doação “oficial” nas prestação de contas.

LINDBERG FARIAS
Costa afirmou que pagou R$2 milhões para a campanha do petista ao senado

CÂNDIDO VACCAREZZA

Yousseff afirmou que entregou “três ou quatro vezes”, remessas de R$ 150 mil em espécie a Vaccarezza, em sua casa, na Mooca. O depoimento não confirma se o dinheiro era para campanha, mas a PGR concluiu que o então deputado usou “recursos que sabia públicos na sua origem para financiar a sua campanha eleitoral”.

NELSON MEURER

Além de pagamentos periódicos, recebeu um valor extra de R$ 4 milhões para concorrer a uma vaga na Câmara, segundo Costa. No mesmo depoimento, o ex-diretor diz que também houve pagamentos para Mário Negromonte e Pedro Corrêa, ambos do PP, sem citar valores.

JOÃO PIZZOLATTI

Uma agenda apreendida tem o registro do pagamento de R$ 5,5 milhões para o então candidato.

BENEDITO E ARTUR LIRA

Pai e filho são citados pelo ex-diretor de Abastecimento. Ele diz que repassou R$ 1 milhão para a campanha de Benedito ao senado. Já Yousseff alega ter intermediado doações de R$ 400 mil pela empresa UTC. O doleiro diz ainda que foi procurado por Artur Lima para saldar dívidas de campanha, mas não especifica o valor exato pago ao filho de Benedito.

EDUARDO CUNHA

Yousseff declarou que recolheu três parcelas de R$ 500 mil da Andrade Gutierrez na campanha de 2010, cujo beneficiário era o atual presidente da Câmara dos Deputados.

SIMÃO SESSIM

Costa diz que pagou R$ 200 mil a Sessim, mas não se recorda se o dinheiro era para a campanha dele ou de seu filho.

ROBERTO TEIXEIRA

Teria recebido parte de um montante de R$ 1,5 milhão da Andrade Gutierrez, de propinas em contratos com a Refinaria Duque de Caxias e com o Comperj.

MARIO NEGROMONTE

Uma da agenda apreendida pela PF aponta pagamentos de R$ 5 milhões ao ex-ministro.

PEDRO CORRÊA

O mesmo documento registra R$ 5,3 milhões a ex-deputado do PP, mas ele não chegou a concorrer a nenhum cargo.

Políticos do PP implicados

Políticos do PP são os mais implicados na Lava Jato. Uma agenda apreendidas pela Polícia Federal durante a operação revela a prestação de contas de supostas doações feitas a integrantes do partido na campanha de 2010. Costa e Yousseff confirmaram o teor das anotações, que registram os valores de R$ 5,5 milhões ao ex-deputado João Pizzolatti (SC), R$ 5 milhões ao ex-ministro das Cidades Mário Negromonte (BA), R$ 5,3 milhões ao deputado Pedro Correa (PE), R$ 4 milhões ao deputado Nelson Meurer (PR), R$ 1 milhão pago ao senador Benedito de Lira (AL).

Na mesma agenda, consta um pagamento a Tião Viana (PT-AC), que teria recebido R$ 300 mil para se candidatar ao governo do Acre. Ainda não há investigação contra ele porque essa prerrogativa é do Superior Tribunal de Justiça.

Os repasses de campanha não se confundiam com os pagamentos regulares que eram feitos ao PP. Segundo Yousseff, cada líder recebia, por mês, entre R$ 250 mil e R$ 500 mil. O restante da bancada rateava outra parte dos pagamentos, que variava entre R$ 1,2 milhão e R$ 1,5 milhão por mês.
Para o professor da UFRJ, Paulo Baía, o pano de fundo da Lava Jato passa pelo modelo de financiamento privado praticado no país. “O caso lança a necessidade de se discutir o financiamento. Já houve outros escândalos ligados esse tema , mas esse é maior pelo tamanho do rombo que está sendo discutido e pela quantidade de parlamentares envolvidos”.


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