Clube Militar avalia que Dilma segue na direção do precipício

Texto afirma que presidenta está sem rumo e sem base aliada e analisa a hipótese do impeachment

Por marlos.mendes

Rio - O Clube Militar publicou, nesta quinta-feira, uma carta aberta em que avalia a crise política no Brasil e seus possíveis desdobramentos. O texto, entitulado 'Ladeira abaixo' afirma que a presidente Dilma Rousseff dá "cambalhotas na direção do precipício" em meio ao crescimento da inflação e do desemprego, "escândalos de corrupção" e "incompetência administrativa assombrosa".

Na interpretação do Clube Militar, a base do governo ruiu e aprova medidas demagógicas que comprometem o ajuste fiscal enquanto três "nuvens negras ameaçadoras" surgem no horizonte: a rejeição das contas do governo pelo TCU, a investigação pelo TSE de suspeitas de abuso de poder econômico na campanha da reeleição, e os desdobramentos da Operação Lava Jato. O texto analisa também a hipótese do impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

Nas últimas eleições, a agremiação de generais da reserva e uma das entidades mais conservadoras do país, apoiou a candidatura de Marina Silva. À época, os militares reinvindicaram a preservação da Lei da Anistia, para evitar que agentes da Ditadura Militar fossem punidos. 

Confira a íntegra do texto publicado pelo Clube Militar:

A Presidente Dilma cambaleia ladeira abaixo, em meio a grande confusão de atos e fatos que complicam sua situação política. Sem qualquer ponto de apoio que possa ajudá-la a manter o prumo, suas cambalhotas na direção do precipício beiram o dramático. No mesmo pacote mal
feito se misturam a inflação ascendente, o desemprego crescente, o desencanto dos eleitores, que lhe deram um segundo mandato há pouco mais de meio ano, os infindáveis escândalos de corrupção, envolvendo empresários, políticos e a outrora sólida Petrobrás, a incompetência administrativa assombrosa, a revolta com a teia de mentiras que foi imposta ao eleitorado e a falta total de apoio por parte de seu partido e de seus parceiros, inclusive de seu guru Lula.

A base de apoio do governo ruiu completamente e todos procuram salvar-se, levando a melhor parte dos destroços. Tudo bem, Dilma colhe o que plantou. No entanto, há outros sinais assustadores. Seus aliados teóricos jogam cascas de banana em seu caminho já escorregadio, votando demagogicamente medidas de gosto popular que completariam a destruição de nossa economia e deixando-lhe a antipática alternativa de apelar para o veto, tentando salvar algo do periclitante, mas imprescindível, ajuste fiscal.

O horizonte é ensombrado pelos vetos que podem ser derrubados e por, no mínimo, três grandes nuvens negras ameaçadoras na esfera judicial: o TCU, na verdade órgão fiscalizador do Legislativo, caminha para rejeitar as contas governamentais de 2014, em consequência das famosas “pedaladas”, artifícios contábeis usados para mascarar os desastres fiscais do desgoverno; o TSE que se inclina a analisar possível abuso do poder econômico e uso de verbas de origem duvidosa nas eleições de 2014; e o STF com atenta observação das investigações da Polícia Federal e do Ministério Público no caso da Operação Lava Jato, que chegam cada vez mais perto do Planalto.

Raposas felpudas discutem de maneira não muito discreta as alternativas a seu impeachment, acertando cenários, acordos e divisão do espólio após sua possível queda. As conversações envolvem o invertebrado PMDB – teoricamente aliado de Dilma – e as facções mineira e paulista do PSDB – oposição retórica do governo petista, além de personagens menores.

Enquanto isso, ministros dos tribunais superiores movem-se discretamente, trocam mesuras e sussurros, repelem pressões mal disfarçadas, aceitam outras, lançam balões de ensaio. No deslize acelerado rumo ao abismo, cujo fundo é muito distante e inimaginável, dois importantes atores do drama brasileiro medem cuidadosamente suas ações ou omissões.

Um é o camaleônico Lula, movendo-se com muita cautela para não ser tragado pelo mesmo desastre que ora incentiva, ora acalma. Sua situação, no entanto, também não é tranquila. O braço da lei vem se aproximando e ele deve muitas explicações sobre a criação do pesadelo em que vivemos. A outra, incrivelmente discreta, mas crescentemente descontente, é o povo brasileiro, vítima maior dos descalabros e também responsável pelos mesmos, por nunca ter exigido as satisfações que lhe são devidas. Escorrega junto com Dilma, sentindo-se sem carta, sem rumo e sem piloto.

O clamor das ruas virá, mais cedo ou mais tarde. Quando chegar, a solução aparecerá, para o bem e para o mal.

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