'A nação está pertubada', define antropólogo Luiz Eduardo Soares

'Essa conversa de cidade maravilhosa é um deboche', afirma ele, defensor de uma reformulação total nas polícias

Por felipe.martins , felipe.martins

Rio - Depois de ocupar a Secretaria Nacional de Segurança no começo do governo Lula, de ser candidato a vice-governador pelo PT, professor de diversas universidades e ajudar a criar o icônico personagem Capitão Nascimento, Luiz Eduardo Soares está diante de novo desafio: agora, ele é militante e um dos principais intelectuais filiados à Rede Sustentabilidade, recém-fundado partido da ex-presidenciável Marina Silva. Ao DIA, ele afirmou que a legenda deve “experimentar novas formas de fazer política” e “errar erros novos”. Defendeu a candidatura de Alessandro Molon à Prefeitura do Rio e analisou o atual momento petista, lembrando da aliança entre Lula e Garotinho que implodiu sua candidatura. Em balanço sobre a segurança no Rio, resume uma das ideias principais de seu novo livro. “Essa conversa de cidade maravilhosa é um deboche”, afirmou ele, defensor de uma reformulação total nas polícias. 

O DIA: Enfim a Rede Sustentabilidade foi registrada pelo Tribunal Superior Eleitoral em setembro passado. Com sua vasta trajetória acadêmica, o senhor se sente na posição de principal intelectual da legenda?


LUIZ EDUARDO: Não.Acho que essa posição é porque tenho proximidade com a Marina Silva, estive nas campanhas. O partido não existia, não é, muita gente tem se filiado aos poucos. Mesmo havendo muitos ou poucos intelectuais, temos toda a produção científica brasileira, ninguém tem que inventar a roda.


Na Câmara dos Deputados, a bancada da Rede até agora reúne opositores e apoiadores do governo Dilma Rousseff. No espectro político, onde posicionar a legenda?


Isso é natural, porque precisávamos de quem já estivesse na política. Eles virão de vários redutos. Importa mais o que os membros da Rede tem em comum, como a disposição em romper com a justificativa dos meios pelos fins. Não vale vencer de qualquer maneira, porque queremos construir um novo tipo de política, com ‘P’ maiúsculo e dignidade. Buscam títulos, definições para Rede, mas não precisamos nos separar pelo nome. Acredito que todos concordem com os princípios de justiça, igualdade, fraternidade, sustentabilidade. Não podemos, então, ser inimigos porque temos definições diferentes. E somos realistas para reconhecer que não é por magia que vamos realizar o sonho. Vamos conversar, discutir, se não cairemos na armadilha do PT, sem reflexões e mediações.

O antropólogo descarta concorrer novamente em eleições majoritáriasAndré Mourão / Agência O Dia


O apoio da Marina Silva ao senador Aécio Neves (PSDB-MG) no segundo turno das eleições presidenciais de 2014, por exemplo. Contradição?


Era um leque de opções para o voto naquelas eleições. Seria uma arbitrariedade deixar entrar na Rede só quem votou em Marina no primeiro turno, porque hoje você tem pessoas de frentes diferentes nas eleições, e que agora estão próximas. Não há nenhuma razão para as pessoas se afastarem e se odiarem porque circunstancialmente fizeram outras opções. Temos que dar o exemplo: a Rede não quer a reprodução infinita de mandatos, queremos receber também os que desejam ser candidatos e são pouco afeitos à vida partidária. Há muito a aprender, acertar, e, se errar, vamos errar erros que sejam novos.


Como militante, o senhor defende a candidatura do deputado federal Alessandro Molon à prefeitura do Rio em 2016?


Molon seria um excelente candidato, não há nenhum outro militante da Rede no Rio com o mesmo significado que a militância dele. Seria um marco para a Rede em todo o Brasil.


O senhor disputou o governo do estado do Rio como vice da Benedita da Silva (PT) em 2002. Passa pela sua cabeça voltar a concorrer ou ocupar um cargo no Executivo?


Qualquer coisa menos isso (risos). Tenho livros, filmes, séries para escrever.


Em seu novo livro (Rio de Janeiro: Histórias de Vida e de Morte, lançado neste ano), o senhor revisita sua curta trajetória no governo Lula como secretário nacional de Segurança Pública, e fala sobre o nascimento do escândalo do mensalão. Ali em 2003, dava para imaginar que o partido chegaria onde está hoje, como uma presidenta ameaçada de impeachment e diversos quadros investigados por envolvimento em corrupção?


Eu não imaginei que ia chegar a tanto. Caminhávamos para uma situação muito grave , com o partido se mostrando inclinado a desaparecer como força política inspiradora. O PT, em sua gênese, era um partido contra a mediação e chegou ao poder assim, sem pensar em um programa econômico, sem pensar na condução do país para reduzir as desigualdades. E aí, tem-se duas opções no poder: ou faz a revolução, ou adere ao sistema do jeito que ele é, administrando sem ousadia, apenas produzindo um discurso para justificar o convívio com a mesmice dos métodos políticos da corrupção, dos velhos jogos de interesse para se perpetuar no poder. Claro, há avanços, como a redução de desigualdades, mas a política petista se corrompeu.

Há uma narrativa que coloca o PT como único partido ou como mais associado à corrupção que os outros, principalmente agora com os desdobramentos da Operação Lava Jato.

E isso é um absurdo total.Tem gente de todo o tipo em todos os partidos. A tragédia é o PT não ser diferente de todos, porque foi assim que a legenda se vendeu a vida inteira. Essa postura acabou sendo um tiro do próprio PT no coração, e se agrava com a tradição centralizadora do partido: centraliza também a corrupção.

O senhor fala no livro com certa decepção acerca dos meses em que Benedita da Silva foi governadora, em 2002, quando vocês eram candidatos. O que aconteceu ali?


(Benedita da Silva assumiu o governo do Rio em abril de 2002 no lugar de Anthony Garotinho, que saiu para se candidatar à Presidência. Naquele ano, a petista e Luiz Eduardo Soares concorreram ao governo Rio e perderam para Rosinha Matheus) A Bené estava sitiada, eu só fui entender um tempo depois. Havia uma grande armadilha para ela no governo: queríamos que ela, ao assumir, fizesse uma auditoria externa nas contas do governo, para mostrar o caos deixado pelo Garotinho. Ela não o fez, e a impressão que ficou era de que ela fez uma candidatura suicida. Eu não entendia isso. O que houve, então, foi um acordo do Lula e do futuro ministro José Dirceu com o Garotinho, para que ele apoiasse o PT no segundo turno. Ela fez esse sacrifício em nome da eleição do Lula, externou isso para mim e foi traída quando lhe deram um ministério e tiraram pouco depois. Mas ela é do tipo de pessoa que não falará disso em público.

Seu novo livro abre com uma proposta sua de desconstruir o mito do Rio de Janeiro como cidade maravilhosa. Vamos receber os Jogos Olímpicos ano que vem, milhões de turistas... A cidade não é um paraíso?

Nós somos regidos sobre o símbolo da cidade maravilhosa, das grandes belezas que temos, nossas virtudes, nossa alegria. Isso é vendido para o mundo porque o cartão-postal nos orgulho, e deixamos de encarar os desafios em nome do culto ao clichê. Mas aos poucos, desde junho de 2013 naquelas manifestações, a ilusão comum deixou de ser fetiche e passou a ser sentido pela periferia como um deboche diante de tanta tragédia.. Vamos falar sério, estamos diante de um desafio enorme para reduzir desigualdades, a brutalidade da polícia, a maneira pela qual o Estado se relaciona com as classes populares.

Nesta semana, pesquisa do Datafolha mostrou que 50% dos brasileiros creem na frase ‘bandido bom é bandido morto’. Há um clima negativo contra quem defende direitos humanos. Como o senhor percebe isso na sociedade?

Acho que ainda há salvação, mas digo: quatro séculos de escravidão não se deram impunemente.Nossa sociedade, até hoje sentimos isso, foi forjada na escravidão. Não somos apenas desiguais, é uma sociedade em que a desigualdade foi levada à extremos. Depois da escravidão, o racismo permaneceu, e vemos isso ao ver pessoas apoiando barreiras de segregação, como no caso dos arrastões. Não se trata de aceitar o crime na praia, por exemplo. É algo muito negativo, o crime é inaceitável, assim como a reação a favor dos linchamentos. Estamos perturbados enquanto nação.

O brasileiro se identificou com o Capitão Nascimento, por exemplo.

A intenção do José Padilha (diretor de Tropa de Elite) não era colocá-lo como modelo. Trata-se de um personagem patológico, e a obra não faz exaltação a ele. No entanto, há quem aplauda, e isso nada tem a ver com as intenções da propria obra. Uma analise objetiva mostra que não é uma exaltação, de modo algum a esse modelo que ele representa, essa ideia do vingador. A grande questão do filme é mostrar que, se queremos enfrentar a violência, não se pode permitir que o Estado cometa crimes. Em nome dos bons policiais, precisamos rediscutir mudanças para o nosso modelo de polícia. O Tropa de Elite 2 mostra bem isso, que o problema é a violência policial. Um dia, José Padilha me ligou e disse que estava vendo ao vivo o 'Tropa de Elite 3': foi quando a polícia invadiu o Complexo do Alemão. Ou seja, o problema posto pelo filme foi substituído pela velha agenda da polícia, do bem contra o mal.

Temos uma das polícias que mais morre e mais mata no mundo. Nosso índice de homicídios investigados é baixo. Muitos constatam que é preciso repensar nosso modelo policial: mas por que é tão difícil mudar?

Apenas 8% dos homicídios são investigados no Brasil. Além dos crimes cometidos pela brutalidade policial: 10. 699 entre 2003 e 2014, sendo muito poucos apurados.40% dos presos hoje estão em prisão provisória, um escândalo mundial. Dois terços dos presos estão na cadeia por roubo ou tráfico de drogas, na quarta maior população carcerária do mundo, que segue crescendo e desmistificando a ideia de impunidade no Brasil. Quer dizer, nós contratamos violência futura, gastando muito para tornar as pessoas piores nos presídios. É muito simples a explicação para tudo isso: o modelo policial ttraz provoca naturalmente esse quadro. Nosso modelo separa a PM da Polícia Civil, impede a PM de investigar. Não há como medir o trabalho preventivo da PM. . Qual o modelo? Separa a PM da Civil, diz que tem que ser preventivo, proíbe a PM de investigar e, na prática, só temos prisões em flagrante e apreensões. Como não há identificação de quantidade que define traficante e usuário, o que acaba definindo a prisão é a cor e a classe social. Ou seja: temos que mudar a lei de drogas e as polícias, se quisermos desarmar essa bomba que está em nossas mãos

Essa falta de reforma das polícias prejudicou as UPPs aqui no Rio?

Há virtudes no projeto, há problemas também, porque ele não foi implantado como imaginado. Nenhum projeto dessa natureza seria sustentável com nosso modelo de polícia. A ideia era criar uma polícia específica, com treinamento distinto, com respeito a cidadania. O investimento nessa formação foi diminuto, o curriculo de formação não se alterou. Foi a velha polícia que deu as caras, o novo já nasceu velho.E assim, voltamos a ter corrupção, brutalidade policial, apesar da boa intenção do projeto. Não conseguimos fazer o dever de casa.

No livro, o senhor reconta a trajetória da historiadora Dulce Pandolfi, presa e torturada durante a ditadura militar. Lembrar de sua história é apontar permanências daquele período nos dias atuais, no que tange, por exemplo, à brutalidade policial?

Hoje há os que voltam a falar de ditadura numa chave mais positiva, e isso é tão chocante para quem viveu a ditadura, para quem conhece e estuda o Brasil, é tão terrível que mal dá para acreditar. É ignorância com vocação ressentida, que se inscreve num contexto de falta de debate politizado. O Estado democrático de direito ainda não se realizou plenamente. Estamos em processo contraditório, em que há permanências do velho Brasil autoritário, como também há da escravidão. A história de Dulce mostra que se temos brutalidade policial, tanta degradação política, é porque há algo de permanente que atravessa as mudanças institucionais. Nós não paramos no tempo, hoje temos liberdade de pedir e sugerir mudanças, mas há permanências : basta ver como o Estado trata negros, pobres e suspeitos. A ditadura não inventou a brutalidade: ela acompanha a polícia em toda a história. 

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