Dilma presta solidariedade a Lula e Sérgio Moro se explica

Criticado, juiz afirma em nota que condução coercitiva não significa culpa do ex-presidente

Por bianca.lobianco

Rio - Um dia depois de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter sido levado pela Polícia Federal coercitivamente para depor nas investigações da Lava Jato, a presidente Dilma Rousseff foi ontem a São Bernardo do Campo, em São Paulo, prestar pessoalmente solidariedade a seu antecessor. No encontro, que durou pouco mais de uma hora, Dilma voltou a classificar como “violência injustificável” a condução coercitiva de Lula pela PF. Também reafirmou que a operação teve caráter “midiático” e “espetaculoso”. Ao casal Lula e Marisa Letícia, a presidente desejou “força e ânimo”.

Antes da chegada de Dilma, Lula apareceu ontem pela manhã na portaria de seu prédio para cumprimentar militantes que promoveram ato em solidariedade a ele. O petista foi ovacionado. Depois, da janela do apartamento e ao lado de Dilma, Lula saudou os manifestantes, erguendo o braço da aliada.

A presidente Dilma Rousseff foi ontem pela manhã a São Paulo para prestar solidariedade ao casal Lula e Marisa Letícia PAULO LOPES / ESTADÃO CONTEÚDO

Antes de Dilma chegar à casa de Lula, o juiz federal Sérgio Moro, que conduz a Lava Jato, reagiu às críticas sobre sua decisão favorável à condução coercitiva do ex-presidente para depor na sexta-feira. Em nota, ele afirmou que a medida não significa “antecipação” de culpa do petista, além de lamentar que as diligências tenham levado a confronto entre os manifestantes pró e contra Lula.

Para o governo, a manifestação de Moro foi “indicativo” de que o próprio magistrado avalia que “errou na mão” e tomou uma decisão “sem fundamento jurídico” e “totalmente arbitrária”. O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi um dos que se manifestou contrariamente à condução coercitiva.

Nos próximos dias, a temperatura política deve subir ainda mais com uma nova a delação premiada. Agora é a vez do ex-deputado federal Pedro Corrêa, ex-presidente do Partido Progressista (PP), condenado e preso no mensalão e na Lava Jato. À PF, ele contou que Lula sabia da existência do petrolão e que o embrião do esquema de corrupção da Petrobras foi o mensalão, segundo reportagem da revista ‘Época’.

A porta da garagem do Instituto Lula amanheceu ontem pichada com frases ofensivas. Depois, foi grafitada por simpatizante do PT. Em Belo Horizonte, sede do partido foi atacada à tarde com tinta, farinha e ovo.

‘Moro lança candidatura de Lula’, diz cientista social

A determinação do juiz Sérgio Moro, que mandou a PF levar o ex-presidente Lula de forma coercitiva para depor, pode ter injetado combustível na possível campanha de Lula para a Presidência, em 2018. Cientistas políticos dizem que o petista ganhou fôlego, embora tenha ficado com a imagem arranhada.

“Moro lançou a candidatura de Lula. Não havia qualquer necessidade de utilizar o aparato que foi empregado (200 policiais fortemente armados buscaram o petista em casa). O ex-presidente foi chamado para o centro do ringue e não vai recuar”, analisa Felipe Borba, professor da Unirio.

Já o telefonema de Dilma Rousseff a Lula para demonstrar solidariedade e a ida ontem à casa dele, em São Paulo, no dia seguinte ao depoimento, foram interpretados como uma forma de a presidente tentar mais apoio do PT.

“Dilma não deixaria de se solidarizar porque ela não tem mais onde se segurar. Setores do PT começaram a abandonar o governo. Ela não tem mais base social (sindicatos, organizações estudantis). Até alguns empresários estão virando as costas, o governo está em franca desorganização”, diz Geraldo Tadeu, professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj).

Gravação indiscreta em vídeo

Um vídeo feito pela deputada federal Jandira Feghali (PC do B-RJ), horas depois de o ex-presidente Lula ter sido levado coercitivamente pela Polícia Federal para depor na Operação Lava Jato, está bombando nas redes sociais. “Eles que enfiem no c... todo o processo!”, diz Lula ao telefone, irritado, no vídeo gravado por Jandira. Do outro lado da linha, quem falava com o petista era a presidente Dilma Rousseff, segundo a deputada.

O diálogo entre Lula e Dilma, travado quando o ex-presidente estava no diretório estadual do PT em São Paulo, era provavelmente uma referência às investigações contra o petista.

“O Lula está neste momento conversando com a presidenta da República. E nós estamos aqui com ele. Ele está muito tranquilo, com muita coragem e com muita capacidade de guerrear, muito seguro das suas informações”, afirma Jandira, logo após o xingamento.

Em nota, a assessoria da deputada afirmou que o vídeo “foi feito em suas redes sociais e para sua militância”. Diz ainda que a parlamentar “lamenta que façam ilações ou suposições sobre o conteúdo”. 


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