Rio - ‘Toda a semana recebo propostas de emprego”. Com 19 anos e recém-saído do Ensino Médio, Yuri Alves dos Santos Ferreira ilustra o alto índice de procura por parte das grandes empresas por mão de obra qualificada. Com a falta de profissionais especializados no mercado, as vagas de emprego são preenchidas, cada vez mais, por jovens formados em cursos técnicos.
Yuri se formou em 2012 no Colégio Estadual Comendador Valentim dos Santos Diniz (Nata), que integra o Ensino Médio com a formação em Laticínios. Atualmente, trabalha no supermercado Pão de Açúcar, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, como consultor de queijos.
“Eu me destaquei porque estudei esse assunto durante três anos e fiz um estágio de uma semana na França com outros cinco alunos da escola, enquanto os demais atendentes fazem apenas um curso de seis meses de duração”, conta ele.
A estudante Jéssyca de Araújo Leal Martins, de 16 anos, também já está empregada. No terceiro ano do Ensino Médio, com especialização em panificação, ela faz estágio em um filial do supermercado no bairro do Ingá, em Niterói. “O curso é cansativo, mas muito proveitoso. A maioria só começa a trabalhar depois da faculdade”, afirma.
Assim como eles dois, muitos outros jovens têm ocupado espaço no mercado de trabalho que antes carecia de profissionais bem formados. Coordenador de Projetos Educacionais do Senai Rio, Allain Fonseca explica que com a necessidade de se elevar o patamar de competitividade, as empresas têm investido em inovações tecnológicas e na adoção de novas formas de organização da produção. Para atender à demanda, trabalhadores devem estar atualizados com relação a essa tendência.
“Há a necessidade de que se eleve o grau de escolaridade da força de trabalho e, além disso, de que a formação promova uma sólida base técnico-científica para a atuação profissional. Nesse sentido, os alunos egressos de cursos técnicos de Nível Médio têm encontrado menor dificuldade na inserção no mercado”, explica ele.
Diretor do Nata, Carlos José Pestana Moreira conta que o colégio possui um banco de empregos. “As empresas cadastradas já procuram por profissionais dentro da escola. Quando se formam, eles têm vagas garantidas. E os próprios professores, que trabalhavam no setor, também indicam os alunos e ajudam no início da carreira”, confirma o gestor.
Dificuldade em contratar
Uma pesquisa da Fundação Dom Cabral divulgada este ano mostra que 91% das empresas têm dificuldades em preencher seus quadros profissionais. De acordo com o estudo, os motivos que mais impedem a contratação de mão de obra são a escassez de profissionais capacitados (83,23%) e a deficiência na formação básica (58,08%).
Para o professor Paulo Resende, coordenador do Núcleo CCR de Infraestrutura e Logística e responsável pela pesquisa, os profissionais chegam ao mercado com dificuldades básicas, como fazer contas ou interpretar textos. “Este quadro gera outro problema para as companhias, que precisam investir mais em treinamento e capacitação, elevando seus custos”, disse ele.
Para driblar a escassez de pessoal, as firmas estão reduzindo as exigências na hora de contratar: 60% delas flexibilizam ao chamar profissionais de Nível Técnico, abrindo mão de experiência (51%) e habilidade (13%).
Grupo para discutir capacitação
Uma nova Câmara Setorial foi anunciada durante a primeira reunião do Fórum Permanente de Desenvolvimento Estratégico do Estado deste ano. O novo grupo vai tratar de assuntos ligados à formação profissional e educação tecnológica, com foco no desenvolvimento do Ensino Técnico no Ensino Médio, para suprir a demanda por mão de obra especializada no estado.
Secretária-geral do fórum, Geiza Rocha explica que “a ideia da criação da câmara se deu com a percepção de que um dos principais gargalos para o desenvolvimento do Rio é a falta de trabalhadores especializados”. Serão parceiros a Secretaria Estadual de Educação, a Fundação Cesgranrio e instituições de Ensino Técnico, como o Senai.
Segundo ela, os membros citaram entre os setores que mais carecem de profissionais qualificados são: Construção Civil, Hotelaria e Petróleo e Gás. “É uma questão que deve ser resolvida para ontem. Nosso objetivo é acelerar esse processo e tentar casar a demanda por mão de obra com a formação necessária”, avalia.